{"id":256,"date":"2016-11-07T11:09:14","date_gmt":"2016-11-07T13:09:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=256"},"modified":"2016-11-07T15:04:51","modified_gmt":"2016-11-07T17:04:51","slug":"cai-na-bagaceira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/cai-na-bagaceira\/","title":{"rendered":"Ca\u00ed na bagaceira"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<div><\/div>\n<div>O primeiro impulso ao chegar foi o de dar meia-volta. N\u00e3o reconhecia nada nem ningu\u00e9m naquele ambiente que mais lembrava uma festinha improvisada na garagem da casa de algu\u00e9m.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O que minha lembran\u00e7a n\u00e3o reconhecia era a lista de convidados. Eu, que vivo reclamando da monotonia trazida pela globaliza\u00e7\u00e3o quando viajo, me senti, pela primeira vez, uma estrangeira, mesmo estando a 19km de casa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nunca vi tanto homem junto. Para qualquer lado que eu me virasse, eles estavam l\u00e1: sarados, cal\u00e7as apertadas, bra\u00e7os expostos. Mas nenhum deles me olharia, fato. Em nada adiantaria o efeito do meu visual meio \u201cdominatrix bandida\u201d, com meu macacaquinho de couro e sand\u00e1lias gladiadoras at\u00e9 a metade das pernas. Como hetero, estava pisando pela primeira vez em uma festa gay.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Era testosterona pura. A coluna de sustenta\u00e7\u00e3o virou mastro improvisado de pole dance. Qualquer parede vazia era apoio para amassos de tirar o f\u00f4lego: homem com homem, mulher com mulher. Em dupla, em trio. Nunca vi tanta sensualidade escancarada e desejos devassados. O cheiro de perfume amadeirado de tantos homens reunidos se misturava com o suor, cada vez mais intenso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Bondes de mulheres engatadas umas nas outras me atropelavam. Rapazes mostravam corpos el\u00e1sticos que iam at\u00e9 o ch\u00e3o com uma desenvoltura de fazer inveja a qualquer diva menina.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A cacha\u00e7a da caipirinha era barata, mas a m\u00fasica, boa. Logo, as breguices musicais me fizeram me desligar dos convidados. Aquela n\u00e3o era minha turma, mas o som me levou aos melhores anos da minha adolesc\u00eancia. Tava no inferno? Abracei o capeta com for\u00e7a. Decidi me divertir e dan\u00e7ar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tentei imitar, sem sucesso, os passinhos daqueles dan\u00e7arinos exibidos. Quem se importava? Dan\u00e7ar \u00e9 bom. Cantar alto uma m\u00fasica conhecida, sem ningu\u00e9m te dar ouvidos, melhor ainda. Ningu\u00e9m se importava comigo. Estavam todos interessados em suas pr\u00f3prias performances individuais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Podia fazer o que quisesse e dancei. Fui mais vezes at\u00e9 o ch\u00e3o do que fiz agachamento todo esse ano na academia. Soltei a voz. Um mo\u00e7o me conduziu na hora do sertanejo. Do jeito que ele veio, foi embora. N\u00e3o \u00a0estava interessado em sensualizar, s\u00f3 em me fazer dan\u00e7ar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Relembrei os passos da dan\u00e7a da vassoura. Ri sozinha. Entendi que a Xuxa era na verdade a primeira fil\u00f3sofa que conheci na vida ao ouvir \u201cLua de cristal\u201d. Quem mais falaria antes dos meus 10 anos de idade que \u201ctudo que tiver que ser ser\u00e1&#8230;\u201d?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ent\u00e3o, deixei ser. Suei como h\u00e1 tempos n\u00e3o acontecia. Afinal, estava no inferno e ali era quente para cacete.<\/div>\n<div><\/div>\n<\/blockquote>\n<div>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/div>\n<div>Facebook In Confid\u00eancias<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro impulso ao chegar foi o de dar meia-volta. N\u00e3o reconhecia nada nem ningu\u00e9m naquele ambiente que mais lembrava uma festinha improvisada na garagem da casa de algu\u00e9m. 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