{"id":245,"date":"2016-10-24T12:53:45","date_gmt":"2016-10-24T14:53:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=245"},"modified":"2017-01-02T17:36:07","modified_gmt":"2017-01-02T19:36:07","slug":"eu-e-meu-mandacaru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/eu-e-meu-mandacaru\/","title":{"rendered":"Eu e meu mandacaru"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<div class=\"x_gmail_extra\">\n<div class=\"x_gmail_quote\">\n<blockquote class=\"x_gmail_quote\">\n<div dir=\"auto\">\n<div><\/div>\n<div>Estou vivendo uma fase t\u00e3o ego\u00edsta da vida que todo tempo que me resta livre quero dedic\u00e1-lo a mim mesma. Assim, com o cora\u00e7\u00e3o narcisista, resisti muito \u00e0 ideia de ter uma planta em casa. N\u00e3o quero nada que dependa de mim para viver, que me v\u00e1 roubar alguns minutos que seja para que eu possa dar \u00e1gua ou me preocupar com quem assumir\u00e1 tal tarefa em minha aus\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Reconhecido meu lado mesquinho, nunca quis cultivar flores ou folhagens. At\u00e9 que me vi fisgada pelo encanto do improv\u00e1vel. Foi quando me rendi \u00e0 rusticidade de um mandacaru e o levei para casa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Confesso que at\u00e9 eu estranhei quando tentei encontrar o melhor lugar na sala para meu novo companheiro. Dif\u00edcil carregar o vaso sem se arranhar nos seus espinhos. Solit\u00e1rio, ele ganha um ar demasiadamente f\u00e1lico, que pode incomodar mentes mais pervertidas. Era muita rigidez ao lado de minha bailarina de bronze, que fica tamb\u00e9m na minha sala, exibindo movimentos el\u00e1sticos e suaves com os bra\u00e7os.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas me encantei com o tal mandacaru. Para ele, comprei vaso prata requintado. Ele merece. Assim como as pessoas aparentemente duras, essa planta da fam\u00edlia das cact\u00e1ceas tem dul\u00e7or escondido por tr\u00e1s da aspereza.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>T\u00edpica de regi\u00f5es muito secas, como a caatinga, os cactos e seus parentes s\u00e3o verdadeiro sobreviventes da inospitalidade. Se travestem de apar\u00eancia rude para afugentar inimigos, assim como fazem as pessoas que querem esconder profundas fragilidades. Justamente pelos espinhos, o mandacaru deixa de ser presa f\u00e1cil para bicho herb\u00edvoro. Ah, que esperto mandacaru!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como n\u00e3o admirar planta que, para n\u00e3o morrer de sede, cria caule grosso a ponto de n\u00e3o deixar evaporar a \u00e1gua em ambiente de rachar at\u00e9 o solo? Assim tem gente, que guarda dentro de si os maiores tesouros para n\u00e3o ser sugado pela inveja, gan\u00e2ncia ou maledic\u00eancia do bicho homem.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Esteticamente, essa planta n\u00e3o atrai muito os olhos de quem prefere cores e flores, mas ganhou os meus. Acho bonita a rigidez da esp\u00e9cie, que denota resist\u00eancia. Admiro a delicadeza das p\u00e9talas, mas me entendia a fragilidade e o &#8220;n\u00e3o me toques&#8221; dos belos floridos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mandacaru tem a formosura dos que aguentam, dos que s\u00e3o independentes. Como n\u00e3o amar uma planta que me exige \u00e1gua apenas, no m\u00e1ximo, duas vezes ao m\u00eas? Como n\u00e3o optar por t\u00ea-la ao saber que n\u00e3o ir\u00e1 desvanecer em um clima quase des\u00e9rtico como o da cidade em que vivo? Ao contr\u00e1rio, com o sol e o calor ela ficar\u00e1 ainda mais bela.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Gosto de gente com alma de cact\u00e1cea. Deve ser por isso que me encantei com minha nova planta. Admiro os firmes e os corajosos. Os destemidos e igualmente d\u00f3ceis. O mandacaru serve de alimento em seu ecossitema. Sobrevive \u00e0 escassez para fazer perpetuar outras esp\u00e9cies. Que nobre destino tem ele.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como n\u00e3o acolher a planta inflex\u00edvel, capaz de te ferir com espinhos, mas que d\u00e1 frutos e flores? Sim, das cact\u00e1ceas desabrocham belas flores, que s\u00f3 abrem pela noite e j\u00e1 murcham pela manh\u00e3. S\u00f3 os sortudos t\u00eam o prazer de conhec\u00ea-las. Os membros dessa fam\u00edlia n\u00e3o se exibem. Preferem manter a fama de mal, assim como esp\u00e9cie de humano desvenda a alma apenas para poucos privilegiados.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Decidi, ent\u00e3o, ter minha pequena amostra de caatinga, dentro da minha casa, no meio do cerrado. Certa e alegre com minha decis\u00e3o, carreguei meu mandacaru no colo e fui pag\u00e1-lo. N\u00e3o me surpreendi quando a caixa da loja olhou com desprezo para ele e perguntou: &#8220;Voc\u00ea gosta de planta esquisita assim?&#8221; Confirmei em um sorriso, enquanto a outra vendedora acrescentava: &#8220;Voc\u00ea s\u00f3 \u00e9 diferente, n\u00e9?&#8221; Mais uma vez, consenti rindo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sim, talvez eu seja mesmo esquisita por enxergar beleza al\u00e9m do \u00f3bvio. Talvez eu tamb\u00e9m seja um tipo de mandacaru gente, que guarda o que tem de melhor para oferecer s\u00f3 para quem merecedor for.<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Escreva: fsduarte@hotmail.com<br \/>\nFacebook: In Confid\u00eancias<\/div>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou vivendo uma fase t\u00e3o ego\u00edsta da vida que todo tempo que me resta livre quero dedic\u00e1-lo a mim mesma. Assim, com o cora\u00e7\u00e3o narcisista, resisti muito \u00e0 ideia de ter uma planta em casa. 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