{"id":238,"date":"2016-10-10T18:57:12","date_gmt":"2016-10-10T21:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=238"},"modified":"2016-10-10T18:57:12","modified_gmt":"2016-10-10T21:57:12","slug":"dom-de-vo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/dom-de-vo\/","title":{"rendered":"Dom de v\u00f3"},"content":{"rendered":"<p>Minha av\u00f3 nunca envelheceu. A meus olhos, ao menos. Desde que nasci, ela sempre teve muitos anos, especialmente se considerada a nossa diferen\u00e7a de idade.<\/p>\n<p>Ela sempre foi a senhora de h\u00e1bitos simples, sem grandes sonhos ou devaneios. Dona de uma hist\u00f3ria de luta e supera\u00e7\u00e3o. Jovem vi\u00fava, criou sete filhos sozinha, com pouco dinheiro e muita fibra. Nunca se queixou da pr\u00f3pria sorte, por\u00e9m.<\/p>\n<p>Paix\u00e3o mesmo sempre teve pelos p\u00e1ssaros, os quais cuida com zelo de uma m\u00e3e. Orgulho s\u00f3 exibe diante das vistosas samambaias choronas, e exibicionismo demonstra apenas quando algu\u00e9m visita seu impec\u00e1vel quintal, com p\u00e9s de couve e a pitangueira que o ocupam o mesmo espa\u00e7o de terra, em um mapa id\u00eantico ao que tenho registrado na mem\u00f3ria de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 36 anos, desde que fomos apresentadas, ela mant\u00e9m o mesmo corte de cabelo e se veste com igual modelo de vestido: de saia abaixo do joelho, bot\u00f5es no peito e uma golinha de camisa. Os p\u00e9s s\u00f3 se acomodam em chinela de dedos de borracha. Devo t\u00ea-la visto cal\u00e7ando sapatos menos vezes do que o n\u00famero de dedos que tenho nas m\u00e3os. Sou capaz de me lembrar do cheiro dela, de sabonete phebo preto ou francis branco, mas nunca a vi usar perfume importado, colorir a boca com batom ou pintar o rosto com p\u00f3s.<\/p>\n<p>Ela pode at\u00e9 ter ganhado algumas rugas e mais fios brancos ao longo desses anos, mas minha crian\u00e7a sequer notou. Tamb\u00e9m desconfio que ela j\u00e1 n\u00e3o caminha com tanta agilidade e algumas palavras escapam \u00e0 perspic\u00e1cia do ouvido com 87 anos em servi\u00e7o. Ainda assim, conserva inalterado o gosto pela televis\u00e3o. Diante da tela, continua a descansar depois do almo\u00e7o e a cochilar antes de dormir, como sempre foi.<\/p>\n<p>Nesses anos que nos conhecemos, trocou de \u00eddolos mais de uma vez. J\u00e1 n\u00e3o ouve mais Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3, e cortou a estreita rela\u00e7\u00e3o que tinha com Silvio Santos. Mas nunca perdeu o talento na cozinha e o tempero mineiro que tornam incompar\u00e1veis a maionese de batata e a macarronada de domingo feitos por ela.<\/p>\n<p>A imutabilidade da apar\u00eancia e da rotina de minha av\u00f3 me devolvem o passado. A casa que ela mora \u00e9 a mesma. Sei onde ela guarda cada coisa. Est\u00e1 ali a colcha de retalhos que me cobria quando eu tinha pouca idade. At\u00e9 os enfeites permanecem no mesmo lugar. Os que se romperam por acidente ou estragaram por efeito do tempo foram recuperados pela habilidade reparadora dela.<\/p>\n<p>Minha av\u00f3 tem o poder de restituir a vida aos badulaques e tamb\u00e9m de trazer de volta o tempo. Ela me presentea com alguns dos melhores momentos da minha vida, compet\u00eancia que pertence somente \u00e0s vov\u00f3s: a de nos tornar eternas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<br \/>\nFacebook: In Confid\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha av\u00f3 nunca envelheceu. A meus olhos, ao menos. Desde que nasci, ela sempre teve muitos anos, especialmente se considerada a nossa diferen\u00e7a de idade. Ela sempre foi a senhora de h\u00e1bitos simples, sem grandes sonhos ou devaneios. Dona de uma hist\u00f3ria de luta e supera\u00e7\u00e3o. Jovem vi\u00fava, criou sete filhos sozinha, com pouco dinheiro e muita fibra. Nunca se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":239,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-238","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=238"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":241,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/238\/revisions\/241"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/239"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=238"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=238"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=238"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}