{"id":227,"date":"2016-09-19T13:24:16","date_gmt":"2016-09-19T16:24:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=227"},"modified":"2016-09-19T13:24:16","modified_gmt":"2016-09-19T16:24:16","slug":"ser-livre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/ser-livre\/","title":{"rendered":"SER LIVRE"},"content":{"rendered":"<p>Gustavo \u00e9 um homem de discurso pausado e tranquilo. Daqueles com quem voc\u00ea \u00e9 capaz de passar horas conversando sem se aborrecer. Ele deixa transparecer no semblante uma paz de quem gozou da vida e se aproxima dos 50 anos de idade realizado. Isso, deduzo eu. Enquanto fala, n\u00e3o desgruda os olhos do \u00fanico filho, de 4 anos. Entre um tema e outro, faz um elogio ao primog\u00eanito, que leva no rosto \u2014 e no jeito gal\u00e3, segundo a m\u00e3e do menino e esposa de Gustavo \u2014 a gen\u00e9tica do pai. <\/p>\n<p>At\u00e9 que me confidencia que a maior liberdade da vida encontrou na paternidade. J\u00e1 n\u00e3o tem mais preocupa\u00e7\u00f5es sup\u00e9rfluas. S\u00f3 lhe tiram o sono a educa\u00e7\u00e3o e o bem-estar do filho. N\u00e3o \u00e9 mais o homem que pensa em trocar o carro, em acumular parte do sal\u00e1rio para adquirir casa maior ou em poupar para a pr\u00f3xima viagem. Nada, ele garante, \u00e9 mais importante do que a felicidade do filho. E, justamente, foi essa tarefa nobre e complexa que lhe concedeu a alforria: a de simplesmente amar e cuidar de algu\u00e9m. <\/p>\n<p>Gustavo passou a se sentir livre depois de encontrar o amor da vida. Eu me deparei com esse sentimento depois de perder o amor da minha. Dois meses depois de a morte ter levado meu companheiro de 16 anos de parceria, tatuei na altura da costela, a palavra \u201cliberdade\u201d, em ingl\u00eas. Talvez, se tiv\u00e9ssemos habilidades de p\u00e1ssaros, estivesse, nessa parte do corpo, nosso \u201caparelho voador\u201d. Naquele dia, n\u00e3o sabia exatamente por que escrevia aquilo, mas dei ouvido \u00e0 minha alma e eternizei na minha pele a sensa\u00e7\u00e3o que eu sentia no momento mais dif\u00edcil que j\u00e1 enfrentei. <\/p>\n<p>Foi nesse encontro com o Gustavo que entendi, ent\u00e3o, a raz\u00e3o de eu ter feito aquilo, h\u00e1 mais de um ano e meio. Quando meu marido se despediu da vida, o vi livre da dor e do sofrimento. Consequentemente, ele aliviava a minha agonia tamb\u00e9m. Depois que voc\u00ea perde algu\u00e9m que voc\u00ea ama para uma briga injusta, voc\u00ea se liberta do apego: descobre que a for\u00e7a do Universo \u00e9 maior do que a sua, mais forte do que seus desejos, ent\u00e3o, voc\u00ea se liberta e apenas vive. Apenas ama os seus, intensamente, como aquele pai ama o filho.<\/p>\n<p>Depois de enterrar o homem que eu amava, perdi o pavor que tinha da morte e de me despedir das pessoas. Agora, sei que ela vai me visitar de novo, seja para me levar ou me tirar mais um peda\u00e7o do cora\u00e7\u00e3o. Mas, j\u00e1 n\u00e3o tenho medo dela. Sei que vou sobreviver ao pr\u00f3ximo estrago que me causar e isso \u00e9 libertador. <\/p>\n<p>Ver algu\u00e9m que ama se despedir um pouco a cada dia, liberta voc\u00ea de se enfurecer com as coisas pequenas. Tudo se torna infinitamente menor diante do irremedi\u00e1vel. Ent\u00e3o, voc\u00ea passa a ser livre das mesquinharias. Voc\u00ea entende que bens materiais s\u00e3o importantes e essenciais para se reerguer de fura\u00e7\u00f5es emocionais, mas entende que acumular dinheiro e objetos \u00e9 gastar tempo que poderia usar para desfrutar experi\u00eancias e guardar lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Agora, me sinto desobrigada de ter mais ou de ser melhor em tudo que fa\u00e7o. Me sinto livre de desejar todo o tempo. Quero apenas viver o melhor que puder. Isso me tira um peso das costas e me deixa mais leve para voar. Ver a morte destruir os planos que eu tinha at\u00e9 aqui, me fizeram descarregar todas as planilhas e projetos de longo prazo. J\u00e1 n\u00e3o desenho o futuro e nada tem de desolador nisso. Se voc\u00ea n\u00e3o se concentra no que ainda n\u00e3o aconteceu, tem mais energia para curtir o que se passa exatamente nesse momento. O pensamento e os desejos estar\u00e3o focados no agora. Isso sim \u00e9 liberdade.<\/p>\n<p>O fim de um amor me livrou das correntes das  insatisfa\u00e7\u00f5es e das competi\u00e7\u00f5es. Decidi apenas viver intensamente e deixar que as coisas se acomodem. N\u00e3o ter controle, te d\u00e1 asas. Desapegar te liberta. Sentir que o amor sempre acaba, de um jeito ou de outro, te torna mais generoso. Voc\u00ea n\u00e3o cobra, apenas sente, porque se lembra que tudo tem fim, at\u00e9 as pessoas. Ent\u00e3o, alivie a carga e siga viagem: sozinho ou acompanhado. Isso, sim, \u00e9 liberdade de escolha. <\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<br \/>\nFacebook: In Confid\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo \u00e9 um homem de discurso pausado e tranquilo. Daqueles com quem voc\u00ea \u00e9 capaz de passar horas conversando sem se aborrecer. Ele deixa transparecer no semblante uma paz de quem gozou da vida e se aproxima dos 50 anos de idade realizado. Isso, deduzo eu. 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