{"id":220,"date":"2016-09-05T14:25:39","date_gmt":"2016-09-05T17:25:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=220"},"modified":"2016-09-05T14:25:39","modified_gmt":"2016-09-05T17:25:39","slug":"dor-e-delicia-de-comer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/dor-e-delicia-de-comer\/","title":{"rendered":"A dor e a del\u00edcia de comer"},"content":{"rendered":"<p>Se toda vez que eu pensasse em comida tamb\u00e9m perdesse calorias, estaria absurdamente magra. N\u00e3o diria longil\u00ednea porque minha estatura pouco avantajada n\u00e3o me permite tamanho atrevimento. Mas estaria seca. Conclu\u00ed que a vida gira em torno da mesa. E isso \u00e9 um sofrimento, porque chega uma idade em que lhe \u00e9 tirado o direito de desfrutar livremente dos sabores. Engana-se, por\u00e9m, se voc\u00ea acha que a dieta restritiva aliviar\u00e1 a fome dos seus pensamentos, desista. Ao contr\u00e1rio: seu c\u00e9rebro se tornar\u00e1 ainda mais gordo, ao pensar nas del\u00edcias proibidas.<\/p>\n<p>Digo isso porque voltei ao processo de reeduca\u00e7\u00e3o alimentar. A regra \u00e9 comer menos e melhor. Mas \u00e9 s\u00f3 pensar em cortar a comida que j\u00e1 sinto mais desejo de provar doces, massas, p\u00e3es&#8230; Desde que abro os olhos pela manh\u00e3, j\u00e1 come\u00e7o a pensar no que devo comer. E pior: sou obrigada a refletir sobre aquilo que n\u00e3o poderei nem chegar perto. \u00c9 que nasci com uma estranha habilidade de engordar s\u00f3 de visualizar um prato cal\u00f3rico.<\/p>\n<p>E o mart\u00edrio segue ao definir o que vai ser do almo\u00e7o, o que vou comer no jantar. Tudo fica ainda mais complicado porque cozinhar para mim \u00e9 um desafio t\u00e3o grande quanto pilotar um avi\u00e3o. Sou daquelas sem talento, sem paci\u00eancia e sem um pingo de vontade de aprender. Daquelas que deixa queimar comida congelada ou estourar ovo cozido.<\/p>\n<p>Que del\u00edcia seria poder comer tudo indiscriminadamente, sem tentar encaixar a entrada, o prato principal e a sobremesa na pir\u00e2mide alimentar. At\u00e9 porque, em regra, tudo que \u00e9 delicioso est\u00e1 na base, ou seja, na lista daqueles itens t\u00e3o mal\u00e9ficos quanto desejados. <\/p>\n<p>Sem falar que, na tentativa de esquecer a vontade de comer um docinho no meio da tarde, voc\u00ea acaba pensando ainda mais em tudo adocicado. E aumenta a ansiedade e a vontade de domar o descontrole em uma barra de chocolate. Que cansativo \u00e9 sossegar o c\u00e9rebro e a barriga. Para acalmar a tens\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 exist\u00eancia da barra com 70% de cacau. Diante da restri\u00e7\u00e3o, ela se torna deliciosa como um peda\u00e7o de chocolate su\u00ed\u00e7o. <\/p>\n<p>Dia desses, fui apresentada a um bolo que poderia ser comido por quem est\u00e1 de dieta. Todos os ingredientes eram sem a\u00e7\u00facar, livres de gordura e feitos com xilitol, um ado\u00e7ante natural encontrado nas fibras vegetais, incluindo milho, framboesa, ameixa. O leite condensado da cobertura n\u00e3o era de lata, mas preparado com leite de arroz. O resto dos ingredientes fazia parte de uma lista de substitui\u00e7\u00f5es que resultaram no bolo de churros no pote mais delicioso que j\u00e1 comi na minha vida.<\/p>\n<p>Apesar de enjoativo, devorei tudo em segundos, como quem tenta sair de uma crise de abstin\u00eancia. Duvidei, intimamente, que algo t\u00e3o delicioso n\u00e3o inflasse minhas c\u00e9lulas adiposas, mas acreditei por sobreviv\u00eancia. Resolvi n\u00e3o questionar para n\u00e3o alarmar meu metabolismo. A vida sem a\u00e7\u00facar \u00e9, obviamente, amarga demais. D\u00e1 mau humor, tremedeira, irrita\u00e7\u00e3o. Pelo menos acontece comigo. Por isso, tem dias que me entrego ao melado dos alimentos. Acalma a alma e a revolta do meu organismo.<\/p>\n<p>Mas manter a sa\u00fade e a forma f\u00edsica \u00e9 determina\u00e7\u00e3o. Tarefa que fa\u00e7o aborrecida, mas me alegram os resultados. H\u00e1 quatro anos n\u00e3o subia em uma bicicleta de spinning e entendi o porqu\u00ea assim que voltei, recentemente, para a aula. D\u00f3i. Tudo. As pernas parecem que v\u00e3o ser rasgadas. A impress\u00e3o \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o \u2014 por sorte, sem nenhuma placa de gordura que o reprima \u2014 parece solto no peito. Ele sobe do peito e vai direto para a garganta. Certeza. Chego a escutar as batidas do meu, ainda que a m\u00fasica naquela sala seja capaz de estourar os t\u00edmpanos. Tudo \u00e9 fren\u00e9tico: a respira\u00e7\u00e3o, o comando do professor, o ritmo do som e sua vontade de sumir dali.<\/p>\n<p>A\u00ed voc\u00ea resiste e insiste. N\u00e3o h\u00e1 escolhas para quem deseja ficar feliz com o corpo e estar em paz com os exames m\u00e9dicos. O caminho \u00e9 \u00e1rduo e tem briga com o universo. Maldigo aquele que nos deu tamanho castigo: o de transformar em gordura as coisas mais saborosas ao paladar. Isso, certamente, \u00e9 mais cruel do que ser expulso do Para\u00edso. <\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<br \/>\nFacebook: (In) Confid\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se toda vez que eu pensasse em comida tamb\u00e9m perdesse calorias, estaria absurdamente magra. N\u00e3o diria longil\u00ednea porque minha estatura pouco avantajada n\u00e3o me permite tamanho atrevimento. Mas estaria seca. Conclu\u00ed que a vida gira em torno da mesa. E isso \u00e9 um sofrimento, porque chega uma idade em que lhe \u00e9 tirado o direito de desfrutar livremente dos sabores. 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