{"id":214,"date":"2016-08-29T11:56:49","date_gmt":"2016-08-29T14:56:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=214"},"modified":"2016-08-29T11:56:49","modified_gmt":"2016-08-29T14:56:49","slug":"flashback","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/flashback\/","title":{"rendered":"Flashback"},"content":{"rendered":"<p>Antes de sair de casa, minha amiga me perguntou: &#8220;Estou com cara de uma mulher de 40 anos?&#8221;. Usando uma saia mais curta e cal\u00e7ando uma bota que lhe subia pelas coxas, ela parecia bem mais jovem do que se esperava de uma pessoa com a idade dela. Fosse pelo corpo no lugar, pela barriga encaixada, pela bunda dura ou pela alegria, sua apar\u00eancia e energia lhe faziam parecer mais jovem.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0quela festa, ela, de fato, n\u00e3o tinha mais quatro d\u00e9cadas de vida. Minha amiga se esqueceu do tamanho do salto que usava e pulava como uma crian\u00e7a. O som do evento era tem\u00e1tico: anos 1980. Ali, com ela, todas n\u00f3s voltamos a ter 10, 12, 15 anos.<\/p>\n<p>E como \u00e9 bom voltar a essa idade. Conduzidas pela m\u00fasica em uma deliciosa viagem pelo tempo, eu e minhas amigas quarentonas ou, no m\u00ednimo, passadas dos 35, nos libertamos da avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica imposta pela idade: pelo outros e por n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Cant\u00e1vamos as letras de rock que h\u00e1 muito n\u00e3o ouv\u00edamos, mas que foram facilmente resgatadas pela mem\u00f3ria afetiva. Faz\u00edamos coro em alto tom. Rodopi\u00e1vamos sozinhas ou conduzidas uma pela outra, como fazem as meninas em dia de festa. Relembr\u00e1vamos os passinhos, que pareceriam cafonas em outra pista, mas ali eram bem-vindos.<\/p>\n<p>Minha amiga n\u00e3o mantinha a pose r\u00edgida que lhe exigem a idade ou o cargo atual que ocupa. Naquela noite, volt\u00e1vamos a ser garotas crescidas na d\u00e9cada mais libert\u00e1ria e criativa a que a nossa gera\u00e7\u00e3o p\u00f4de desfrutar.<\/p>\n<p>Ela suava. N\u00f3s tamb\u00e9m. Todas ping\u00e1vamos uma energia derretida ao som de uma saudosa balada. O p\u00e9 do\u00eda em cima do salto. Minha amiga reclamava das pernas dormentes nas botas de cano alt\u00edssimo. Quem se importava? Nada podia deter nossa euforia em voltar ao passado, em nos libertar das regras impostas &#8220;a mulheres de nossa idade.&#8221;<\/p>\n<p>No tel\u00e3o ao lado do palco, imagens faziam nosso c\u00e9rebro resgatar algumas mem\u00f3rias carinhosamente guardadas: desenhos a que assist\u00edamos quando crian\u00e7a, jogos que nossos filhos e sobrinhos talvez n\u00e3o tenham ideia do quanto eram divertidos. Eles resgataram nas telas programas de TV e estilo de roupas. R\u00edamos de saudade. R\u00edamos pela sorte de termos compartilhado aquele tempo e  por estarmos estar de volta a ele. Juntas. Mais uma vez.<\/p>\n<p>Tr\u00eas horas depois, a mente pedia para ficar naqueles anos t\u00e3o divertidos quanto inesquec\u00edveis. Mas nenhuma de n\u00f3s tinha mais 10 ou 12 anos. O corpo pedia arrego para quem trabalhou duro durante toda a semana e sentia o cansa\u00e7o. O est\u00f4mago exigia comida a quem n\u00e3o est\u00e1 acostumado a beber, mas se permitiu desfrutar docemente aquela noite.<\/p>\n<p>Era hora de ir. Sa\u00edmos cantando at\u00e9 entrar no carro. Deix\u00e1vamos para tr\u00e1s, mais uma vez, a inf\u00e2ncia. Mas ainda r\u00edamos como adolescentes e nos sent\u00edamos como tal. Esse poder t\u00eam a m\u00fasica e os amigos: de nos rejuvenescer. Acabamos a noite como na \u00e9poca de meninas, com sandu\u00edche gorduroso nas m\u00e3os e culpa zero na cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>Ver minhas amigas t\u00e3o felizes, cansadas, p\u00e9s machucados por saltar ao som de Madonna ou Lulu Santos, me fez refletir como a vida, com 30 anos a menos, parece mais divertida, mais leve, sem pesos. Mais jovens, tenho a impress\u00e3o, nos obrig\u00e1vamos a nos aproveitar o que a vida poderia nos oferecer e essa era nossa \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o. Deveria continuar sendo, n\u00e3o importa a idade, pensei. <\/p>\n<p>Por isso, minha amiga, ponha seu sapatos altos, seu vestido curto, sinta-se bela e volte no tempo. Ligue o som. Encontre amigos. Dance at\u00e9 molhar a roupa. Tenha os anos que sua alma e seus desejo permitirem.<\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<br \/>\nFacebook: In Confid\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de sair de casa, minha amiga me perguntou: &#8220;Estou com cara de uma mulher de 40 anos?&#8221;. Usando uma saia mais curta e cal\u00e7ando uma bota que lhe subia pelas coxas, ela parecia bem mais jovem do que se esperava de uma pessoa com a idade dela. 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