{"id":18,"date":"2016-04-14T19:03:19","date_gmt":"2016-04-14T22:03:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=18"},"modified":"2016-04-14T19:03:18","modified_gmt":"2016-04-14T22:03:18","slug":"so-e-bem-acompanhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/so-e-bem-acompanhada\/","title":{"rendered":"S\u00f3 e bem acompanhada"},"content":{"rendered":"<p>Quando minha amiga colocou o travesseiro nas costas e esticou as pernas na minha cama para, finalmente, assistirmos ao filme Carol, ela deu um suspiro. Era uma respira\u00e7\u00e3o profunda de deleite, motivada n\u00e3o pelo nosso programa vespertino de domingo. Ela simplesmente estava feliz pelos minutos de tranquilidade, sem filhos, sem marido, sem ter que dar ordens a empregadas, jardineiros ou controlar os hor\u00e1rios. Ela me confessou que a impossibilidade de interrup\u00e7\u00e3o na pr\u00f3xima hora a incomodava, t\u00e3o raro era ter essa chance.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aquilo me soou estranho porque a calma e os c\u00f4modos vazios fazem parte da minha rotina. Fim da sess\u00e3o e ela voltou para a imensa casa em que mora; para sua rotina atribulada, barulhenta e, certamente, bem mais animada e menos mon\u00f3tona do que a minha. Eu fiquei ali, no meu apartamento, onde vivo, pela primeira vez, a experi\u00eancia de morar sozinha. At\u00e9 aquele momento, nunca tinha ouvido o sil\u00eancio da minha pr\u00f3pria casa. O epis\u00f3dio me fez refletir sobre como \u00e9 bom estar com a pr\u00f3pria companhia, ainda que, \u00e0s vezes, sejamos t\u00e3o insuficientes para n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A artista mexicana Idalia Candelas tamb\u00e9m andou pensando sobre o assunto. As impress\u00f5es dela foram traduzidas em uma s\u00e9rie de desenhos em preto e branco que ganhou o nome de Solid\u00e3o p\u00f3s-moderna. As imagens, publicadas no livro Alone, representam as cenas de uma mulher que mora s\u00f3 e faz coisas que Idalia considera um privil\u00e9gio para quem n\u00e3o divide o lar com algu\u00e9m. A ideia dela \u00e9 p\u00f4r fim \u00e0 ideia de que mo\u00e7a solteira \u00e9 solit\u00e1ria e deprimida. Ao contr\u00e1rio, a mulher criada pelos tra\u00e7os da mexicana \u00e9 bonita, sexy e aparentemente bem resolvida.<\/p>\n<p>Mas confesso que, apesar de achar as imagens interessantes, considerei clich\u00eas os contextos nos quais a personagem foi inserida. Foi refor\u00e7ada a tese de que morar sozinha \u00e9 poder lavar lou\u00e7a sem roupa, deitar-se no sof\u00e1 para ler um livro ou andar de calcinha pelos corredores. Penso que isso voc\u00ea pode fazer ainda se divide espa\u00e7o com um companheiro. Casas grandes tamb\u00e9m permitem morar em grupo e, ainda assim, preservar a individualidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Morar sozinha para mim \u00e9 mais do que se despir ou ter o controle pleno da televis\u00e3o. Ter uma casa s\u00f3 para voc\u00ea \u00e9 ter o direito de escolher qual o aroma ganhar\u00e1 cada ambiente do seu apartamento, sem se preocupar se a fragr\u00e2ncia embrulha o est\u00f4mago ou d\u00e1 dor de cabe\u00e7a no outro. \u00c9 transformar seu lar em ponto de encontro das amigas igualmente solteiras, descasadas ou em vias de faz\u00ea-lo. \u00c9 poder fazer noite do pijama com quase 40 anos de idade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 se permitir chorar alto sem ter de fazer isso debaixo do chuveiro para disfar\u00e7ar. \u00c9 se tornar, proporcionalmente ao tempo de autonomia, cada vez mais obsessivo e compulsivo. Naquele espa\u00e7o, tudo passa a ser da sua cor preferida e ficar na posi\u00e7\u00e3o que voc\u00ea prefere, sem negocia\u00e7\u00f5es. \u00c9 ter o privil\u00e9gio de escutar s\u00f3 o som que voc\u00ea sintonizar, seja o da televis\u00e3o, seja o do r\u00e1dio ou o da m\u00e1quina de lavar. Nem sua voz faz parte daquele cen\u00e1rio e isso n\u00e3o \u00e9 triste. Ao contr\u00e1rio, estar s\u00f3 \u00e9 ter tempo para conversar consigo mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais do que andar de calcinha pela casa, ser solteira \u00e9 poder vestir a sua lingerie mais linda para dormir, s\u00f3 porque voc\u00ea quer, ter tempo e espa\u00e7o para se espichar na cama, depois de passar creme nas pernas e nos p\u00e9s. Afinal, a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 exclusivamente para voc\u00ea. Viver s\u00f3 \u00e9 descobrir que \u00e9 capaz de cuidar de si mesmo porque voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel por toda a ordem daquele lugar. E isso \u00e9 \u00f3timo! Deus me livre de ser como uma desconhecida que me disse que n\u00e3o estava ciente do valor do IPVA, pois \u201co marido cuidava de tudo\u201d. Ser solteira \u00e9 convidar, quando quiser, algu\u00e9m para cuidar de voc\u00ea e n\u00e3o da planilha de contas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ser solteira \u00e9 aprender a lidar com a solid\u00e3o, porque ela \u00e9 mais palp\u00e1vel nesses casos do que quando se est\u00e1 solitariamente acompanhada. \u00c9 ser obrigada a comer sozinha uma panela de brigadeiro em dias particularmente dif\u00edceis porque n\u00e3o h\u00e1 com quem dividir essa culpa. \u00c9 preferir dormir na ponta de uma cama de 2m de largura s\u00f3 para ficar encolhida e ter a sensa\u00e7\u00e3o de abra\u00e7ar a si mesmo. Viver sozinha \u00e9 tamb\u00e9m enfrentar corajosamente os dias em que voc\u00ea trocaria tudo isso para chegar em casa e ter um cafun\u00e9 garantido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando minha amiga colocou o travesseiro nas costas e esticou as pernas na minha cama para, finalmente, assistirmos ao filme Carol, ela deu um suspiro. Era uma respira\u00e7\u00e3o profunda de deleite, motivada n\u00e3o pelo nosso programa vespertino de domingo. 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