{"id":177,"date":"2016-06-27T12:50:20","date_gmt":"2016-06-27T15:50:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=177"},"modified":"2016-06-27T12:50:20","modified_gmt":"2016-06-27T15:50:20","slug":"colo-de-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/colo-de-mae\/","title":{"rendered":"Colo de m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<p>Fazia tempo que minha sa\u00fade n\u00e3o dava sinais de desgaste. Talvez o cansa\u00e7o, misturado \u00e0 mudan\u00e7a de clima tenha baixado minha imunidade e permitido que bact\u00e9rias oportunistas me provocassem uma infec\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos dias. Febril, meu corpo que s\u00f3 pedia cama. J\u00e1 minha lucidez, socorro \u00e0 minha m\u00e3e. Bati \u00e0 porta dela. Meu antigo quarto ainda est\u00e1 l\u00e1, intacto, do jeito que deixei. Rapidamente, ela trocou a roupa de cama por uma cheirosa e impecavelmente passada, como s\u00f3 encontro naquela casa.<\/p>\n<p>Eu, que estava sem vontade de comer nada, me vi salivando diante do prato de dobradinha oferecido, e feito por ela. Em poucos minutos, j\u00e1 tinha comido e estava medicada. Nem me preocupei com os hor\u00e1rios dos rem\u00e9dios. Sabia que ela faria isso por mim. M\u00e3es t\u00eam a faculdade de levar o medo e a preocupa\u00e7\u00e3o embora nessas circunst\u00e2ncias. Os nossos, claro, n\u00e3o os delas.<\/p>\n<p>Naquela noite, por exemplo, a minha teve o sono interrompido para me vigiar durante a madrugada e assegurar-se de que eu me sentia bem. Conferiu o edredom. Certificou se eu tinha febre. Cedinho, ela j\u00e1 tinha providenciado o material para que eu fizesse os exames pedidos pela m\u00e9dica, al\u00e9m do p\u00e3o de queijo e do meu suco preferido.<\/p>\n<p>Duas noites de paparico e voltei para minha solid\u00e3o de adulta independente. Antibi\u00f3ticos e anti-inflamat\u00f3rios debelaram os micro-organismos, mas foi o colo quente da minha m\u00e3e que me devolveu a energia. Apesar do mal-estar f\u00edsico, fazia tempo que n\u00e3o me sentia t\u00e3o bem: amada, protegida, cuidada. Medicina alguma conferiu tamanha autoridade a qualquer diplomado no funcionamento do corpo humano.<\/p>\n<p>Quando o corpo padece, a alma sofre mesmo \u00e9 com falta de m\u00e3e. N\u00e3o tem jeito! Minha tese \u00e9, inclusive, refor\u00e7ada por uma pesquisa Universidade Estadual de Nova York. Segundo um tal professor psic\u00f3logo Arthur Aron, as \u00e1reas do c\u00e9rebro ativadas pelo amor s\u00e3o exatamente as mesmas suscet\u00edveis \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos medicamentos usados para reduzir a dor. Cheiro de m\u00e3e cura. Reconhe\u00e7o o perfume suave da minha em qualquer lugar do mundo. S\u00f3 o toque dela na minha testa para avaliar minha temperatura tem mais poder que qualquer aspirina.<\/p>\n<p>Pela l\u00f3gica, ent\u00e3o, nada mais sanador do que presen\u00e7a materna. N\u00e3o h\u00e1 pai, marido, amigo, irm\u00e3os que substituam o cafun\u00e9 delas quando a fraqueza bate e a manha agrava o quadro. Tempero de m\u00e3e tamb\u00e9m \u00e9 curativo. Dia desses me peguei trocando uma picanha pela sopinha de carne com batata que ela tinha preparado para a neta. Aquilo tinha sabor de inf\u00e2ncia. Mais eficiente que xaropes.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 quem seja substitu\u00eddo no desespero. Minha m\u00e3e me ligou o dia todo. Queria saber se eu tinha tomado o rem\u00e9dio, se j\u00e1 estava me sentido melhor, se tinha seguido \u201cdireitinho\u201d todos os passos dos exames. N\u00e3o ousaria reclamar de afli\u00e7\u00e3o t\u00e3o amorosa. Sorte a minha ter enfermeira genuinamente preocupada. Colo de m\u00e3e \u00e9 insubstitu\u00edvel e afortunada sou eu de t\u00ea-lo dispon\u00edvel quando preciso de afago.<\/p>\n<p>A minha m\u00e3e foi dessas corajosas mulheres que abriram m\u00e3o de alguns sonhos pessoais para ver os filhos realizarem os pr\u00f3prios. Como a mulher que me deu a vida e me permitiu construir minha personalidade n\u00e3o poderia melhorar meu estado f\u00edsico? Com a minha m\u00e3e, aprendi que amor incondicional salva a gente dos males do mundo. Recentemente, ela teve coragem de insinuar que nunca tinha feito nada de importante da vida. Como ela teve a ousadia de dizer tamanho improp\u00e9rio? Ela construiu uma fam\u00edlia. A melhor que poderia ter. Tamb\u00e9m me ensinou que, talvez, nunca serei suficientemente desprendida do meu pr\u00f3prio ego\u00edsmo, como ela fez, a ponto de gerar outro ser humano: o \u00fanico a quem minha presen\u00e7a funcionaria para sempre como atadura para os maiores sofrimentos da vida. <\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<br \/>\nFacebook: IN Confid\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazia tempo que minha sa\u00fade n\u00e3o dava sinais de desgaste. Talvez o cansa\u00e7o, misturado \u00e0 mudan\u00e7a de clima tenha baixado minha imunidade e permitido que bact\u00e9rias oportunistas me provocassem uma infec\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos dias. Febril, meu corpo que s\u00f3 pedia cama. J\u00e1 minha lucidez, socorro \u00e0 minha m\u00e3e. Bati \u00e0 porta dela. 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