{"id":171,"date":"2016-06-20T13:04:24","date_gmt":"2016-06-20T16:04:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=171"},"modified":"2016-06-20T13:04:24","modified_gmt":"2016-06-20T16:04:24","slug":"doente-pela-vida-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/doente-pela-vida-2\/","title":{"rendered":"Doente pela vida"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez me explicaram que, diante de uma doen\u00e7a terminal ou incur\u00e1vel, h\u00e1 pacientes que reagem como bicho ferido. Voltam para sua toca para lamber as feridas em isolamento. Para eles, a enfermidade \u00e9 sin\u00f4nimo de derrota e de fracasso. <\/p>\n<p>Outros usam a dor como chance de mudan\u00e7a. Se n\u00e3o tiverem tempo de usufru\u00edrem da transforma\u00e7\u00e3o pessoal, que ao menos seu exemplo sirva de motiva\u00e7\u00e3o para o renascimento alheio.<\/p>\n<p>Recebi na \u00faltima semana o livro &#8220;O \u00faltimo sopro de vida&#8221;, escrito por um jovem neurologista americano, Paul Kalanithi, que, aos 36 anos, se viu diagnosticado com um c\u00e2ncer, em est\u00e1gio terminal, j\u00e1 espalhado pelo corpo. Antes da partida, por\u00e9m, ele encontrou tempo e for\u00e7as para escrever o relato, refletindo sobre o tempo e a vida que se leva.<\/p>\n<p>De Paul, conheci as palavras. Do meu amigo Gustavo, tenho o privil\u00e9gio de usufruir o sorriso. Ele \u00e9 daquelas pessoas que apertam os olhos para ter mais espa\u00e7o na cara quando riem.<\/p>\n<p>Ele ainda conta com muitos anos de vida, gra\u00e7as aos c\u00e9us, se considerarmos a cronologia aparentemente \u00f3bvia da vida. Como Paul, s\u00f3 tem 36 anos, mas h\u00e1 12 aprendeu que o futuro \u00e9 incerto e o melhor a fazer \u00e9 optar pela intensidade do presente.<\/p>\n<p>Meu amigo descobriu ter esclerose m\u00faltipla, uma doen\u00e7a que mata os neur\u00f4nios e sepulta, aos poucos, os movimentos e os sentidos. N\u00e3o me arrisco a invadir a alma dele para supor como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com companheira de laudo irrevers\u00edvel, mas asseguro que a for\u00e7a com que ele enfrenta o problema \u00e9 invej\u00e1vel e inspiradora.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a j\u00e1 lhe roubou temporariamente a vis\u00e3o, a capacidade de andar e o movimento das m\u00e3os durante os surtos, mas nunca tirou dele o humor refinado e cativante. Meu amigo mant\u00e9m intocada a sanidade, a intelig\u00eancia e o deboche que lhe s\u00e3o peculiares. Assim como todos os seus planos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se abateu nem mesmo quando a m\u00e3e, h\u00e1 dois anos, recebeu a mesma senten\u00e7a. A esclerose tem sido mais cruel com ela, e j\u00e1 a levou para a cadeira de rodas. O filho n\u00e3o se assusta com o pren\u00fancio da possibilidade de um futuro igualmente limitante, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se engana. A reforma da casa nova, onde vai viver com a noiva, prev\u00ea espa\u00e7o suficiente para uma cadeira que o ajude a se movimentar caso a doen\u00e7a lhe tire a autonomia um dia. E que esse dia nunca chegue.<\/p>\n<p>Meu amigo aprendeu a n\u00e3o pensar nos pr\u00f3ximos anos com temor. Acredita na sua capacidade de ser loucamente otimista. Fez da esclerose uma parceira sem chance de div\u00f3rcio. Tatuou na batata da perna um dos neur\u00f4nios amea\u00e7ados. Fala abertamente da doen\u00e7a. Aceita a sorte que a gen\u00e9tica lhe deu.<\/p>\n<p>Que viva a vida hoje, ent\u00e3o, ele decidiu. Assim, ele nos ensina, le\u014des vaidosos que ainda desfrutam da sa\u00fade perfeita, que os pr\u00f3ximos dias s\u00e3o incertos para todos. E sentencia: &#8220;Me preparo para o pior, mas sempre esperando o melhor&#8221;, reproduzindo uma frase de outrem que tomou como sua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez me explicaram que, diante de uma doen\u00e7a terminal ou incur\u00e1vel, h\u00e1 pacientes que reagem como bicho ferido. Voltam para sua toca para lamber as feridas em isolamento. Para eles, a enfermidade \u00e9 sin\u00f4nimo de derrota e de fracasso. Outros usam a dor como chance de mudan\u00e7a. Se n\u00e3o tiverem tempo de usufru\u00edrem da transforma\u00e7\u00e3o pessoal, que ao menos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-171","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=171"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":172,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions\/172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=171"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=171"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}