{"id":165,"date":"2016-06-13T13:50:12","date_gmt":"2016-06-13T16:50:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=165"},"modified":"2016-06-13T13:50:12","modified_gmt":"2016-06-13T16:50:12","slug":"um-casal-do-barulho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/um-casal-do-barulho\/","title":{"rendered":"Um casal do barulho"},"content":{"rendered":"<p>Quando a conheci, a primeira sensa\u00e7\u00e3o foi de ang\u00fastia. A mulher de vozeir\u00e3o, cabelos loiros e jeito de gente despachada, capturava o ar com a boca aberta. Do peito dela, ouvia-se um chiado. Eu me sentia sufocada ao v\u00ea-la tentar respirar. A minha primeira tend\u00eancia foi julg\u00e1-la: \u201cDeve ter fumado a vida toda e agora enfrenta um enfisema pulmonar!\u201d, pensei, amenizando minha compaix\u00e3o por causa da parcela de culpa dela no pr\u00f3prio sofrimento.<\/p>\n<p>O marido dela tem o mesmo porte superlativo. \u00c9 grande, alto e largo. Barriga avantajada. Perfeito \u201cbon vivant\u201d, \u00e9 esteri\u00f3tipo de quem tem humor, bom gosto e dinheiro sobrando. Fumante, notavam-se os danos do cigarro na sua tosse ruidosa e seca. Caminhava lentamente, freado pelo peso do corpo. Entre um passo e outro, fazia uma careta. At\u00e9 ent\u00e3o, eu n\u00e3o sabia se de dor ou se era sinal de um iminente ataque do cora\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o conseguia disfar\u00e7ar minha preocupa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m.<\/p>\n<p>Aquele casal de argentinos me intrigou assim que os vi. Ela, completa 60 anos. Ele j\u00e1 viveu alguns anos a mais. O que me chamava a aten\u00e7\u00e3o era como, aparentemente t\u00e3o limitados de sa\u00fade, enfrentavam uma viagem pelo Sudeste Asi\u00e1tico durante um m\u00eas, sem perder a alegria e sem se perder em reclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na primeira oportunidade, disparei as perguntas. Soube que a falta de ar dela era resultado de uma brava luta pela vida. Mariza nunca colocou um cigarro na boca. Enfrentou quatro c\u00e2nceres nos \u00faltimos anos, e a radioterapia para debelar o tumor na mama deixou tostado um dos seus pulm\u00f5es. Por isso, n\u00e3o respira com pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Omar, o esposo, anda acima do peso porque sabe curtir a vida. Aprecia as carnes e n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de abandonar o v\u00edcio da nicotina. O rosto retorcido, vez ou outra, era fruto das costelas fraturadas. Dias antes de embarcar para uma viagem de mais de 30 horas de dist\u00e2ncia do seu pa\u00eds, ele teve a casa assaltada e acabou usando as habilidades de ex-militar para se atracar com o ladr\u00e3o. Bateu, mas tamb\u00e9m apanhou feio e rompeu as costelas.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, eles nunca pensaram em abandonar o roteiro de f\u00e9rias. A idade e as dificuldades f\u00edsicas n\u00e3o os fizeram desistir dos passeios. Se antes me despertavam curiosidade, depois de conhecer a hist\u00f3ria pessoal deles, fiquei admirada pela for\u00e7a daquele casal, a vontade de viver e de aproveitar cada momento.<\/p>\n<p>Romance maduro, eles se conheceram h\u00e1 seis anos. \u201cCada um tinha sua pr\u00f3pria solid\u00e3o\u201d, define Omar. E eles se completam. E se provocam. E debocham um do outro. Ela toma ar para rir dele. Ele tosse forte para conseguir soltar uma risada em resposta a um coment\u00e1rio dela. Cada qual se ama em sua individualidade. Ele n\u00e3o aguenta subir as escadas de um templo. N\u00e3o vai. Ela n\u00e3o reclama e segue o passeio. No meio do caminho, o \u00fanico pulm\u00e3o que funciona sente o excesso de proezas. Ela saca uma bombinha. Toma f\u00f4lego, e continua ladeira acima.<\/p>\n<p>A voz dos dois tem decib\u00e9is elevados. A dele, pelo cigarro. A dela, pela perda de uma corda vocal. Isso os torna um casal barulhento. Falam alto, tossem, parecem que v\u00e3o se sufocar a qualquer momento. Ele geme de dor. Ela xinga porque n\u00e3o tomou o rem\u00e9dio. Ele protesta que ela n\u00e3o o deixou dormir e cochila no carro sem se preocupar com o sonoro ronco que libera. Mas eles se amam. Adoram a vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabem quando at\u00e9 quando a sa\u00fade d\u00e9bil vai lhes permitir usufruir bons momentos como aqueles. Ningu\u00e9m pode ter a ousadia de apostar em prazos quando se fala em tempo de vida, mas quem tem o corpo funcionando a pleno vapor muitas vezes se arrisca a fazer planos a longo prazo. Talvez esse casal j\u00e1 n\u00e3o seja t\u00e3o pretensioso.  Por isso, n\u00e3o desistem. N\u00e3o se vitimizam. N\u00e3o abaixam a guarda em nenhum momento. Preferem gargalhar. Um sorriso invej\u00e1vel que d\u00e1 um tapa suave na cara de quem n\u00e3o despertou para as del\u00edcias da vida, justamente por perder tempo demais protestando contra ela. S\u00e3o donos de risada barulhenta que enche a van, ecoa nos espa\u00e7os e tocou profundamente o meu cora\u00e7\u00e3o.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a conheci, a primeira sensa\u00e7\u00e3o foi de ang\u00fastia. A mulher de vozeir\u00e3o, cabelos loiros e jeito de gente despachada, capturava o ar com a boca aberta. Do peito dela, ouvia-se um chiado. Eu me sentia sufocada ao v\u00ea-la tentar respirar. 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