{"id":16,"date":"2015-12-05T17:54:26","date_gmt":"2015-12-05T19:54:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=16"},"modified":"2016-04-14T17:59:57","modified_gmt":"2016-04-14T20:59:57","slug":"o-natal-dos-sem-papai-noel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/o-natal-dos-sem-papai-noel\/","title":{"rendered":"O Natal dos sem-papai noel"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEsse ano descobri que Papai Noel n\u00e3o existe, que \u00e9 minha m\u00e3e quem compra o presente. E agora, ela est\u00e1 colocando a maior banca.\u201d A conclus\u00e3o de Clara, me faz soltar uma gargalhada. Me encanta o sotaque suave e arrastado da menina\u00a0 que nasceu em Fortaleza. Mais engra\u00e7ado ainda \u00e9 como ela interpreta, a partir de agora, o troca-troca de presentes de Natal. Acabou a magia e tudo n\u00e3o passa de uma negocia\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria m\u00e3e, que, esse ano, j\u00e1 avisou: sem Papai Noel bancando a despesa, as contas da fam\u00edlia est\u00e3o mais controladas e o presente ser\u00e1 mais singelo. Clara tem 11 anos. N\u00e3o sofreu com a descoberta. Mas eu sim. E muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para a quase adolescente, ruim mesmo \u00e9 ter de regatear o valor dos esperados desejos do fim de ano. Isso, sim, n\u00e3o tem a menor gra\u00e7a. Quando a m\u00e3e se passava por Papai Noel, nunca ousou manchar a imagem idealizada do Bom Velhinho. Com ele, n\u00e3o se negociava pre\u00e7os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meu inc\u00f4modo, no entanto, \u00e9 maior. Clara n\u00e3o entende, ainda, mas o mais triste do Natal sem Papai Noel \u00e9 que com a \u201cmorte\u201d dele acaba a verdadeira festa.\u00a0 Com os anos, quando\u00a0 tudo vira consumo apenas,\u00a0 bate a saudade das cren\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, quase\u00a0 grito um \u201cn\u00e3o, por favor, n\u00e3o fa\u00e7a isso\u201d,\u00a0 quando ou\u00e7o, no mesmo dia, outra m\u00e3e dizer que queria\u00a0 contar logo para a filha, de 7 anos, que essa coisa de velhinho trabalhador e\u00a0 invasor de casas n\u00e3o passa de uma balela chata que os pais j\u00e1 est\u00e3o sem paci\u00eancia \u2014 e muitos sem dinheiro \u2014 de sustentar. N\u00e3o interfiro, por\u00e9m, apesar de defender a exist\u00eancia do personagem que s\u00f3 existe pelo aval da inoc\u00eancia infantil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aos 35 anos de idade, vejo o Natal apenas como uma agrad\u00e1vel reuni\u00e3o de fam\u00edlia. De magia mesmo, s\u00f3 restou a lembran\u00e7a. Para mim, essa \u00e9poca era uma rotina excitante na sua previsibilidade. J\u00e1 desenhava na mente a \u00e1rvore gigantesca que minha av\u00f3 montaria com bolas quebradi\u00e7as e coloridas. Algumas, vi envelhecer.\u00a0 A cada ano estavam mais arranhadas, mais desbotadas, lascadas nas pontas, mas, ainda assim, seguiam firmes nos galhos de arbusto seco ela tingia de prateado para fazer a \u00e1rvore. Tinha de cor o texto da cartinha para o Papai Noel. Sempre fui muito generosa com ele e come\u00e7ava a conversa com o discurso de que, caso ele n\u00e3o tivesse dinheiro naquele ano, poderia me dar um presente mais barato e tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Inesquec\u00edvel mesmo era\u00a0 o ritual de entrega das lembran\u00e7as. Nada de chamin\u00e9s ou entradas triunfais de um tio que se encorajava a se vestir, literalmente, do personagem. Bastava o sono chegar na noite de 24 de dezembro e meus pais colocavam os pedidos atendidos debaixo da \u00e1rvore. A gente adormecia s\u00f3 quando a ansiedade era vencida pelo cansa\u00e7o. O corpo parecia programado a despertar na primeira hora de 25 de dezembro. Bastava abrir os olhos e ter a certeza de que os embrulhos estavam ali. Papai Noel n\u00e3o tinha decepcionado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, lamento por Clara. N\u00e3o pelo presente menos generoso que a realidade econ\u00f4mica lhe far\u00e1 escolher, mas pelo fim da melhor parte do Natal. Sorte tem ainda Thomas e Melissa. Ele tem 6. Ela pouco mais de 2. Esse ano, os pais deram de presente um cruzeiro por Miami com destino final \u00e0 Disney. Sonho para qualquer crian\u00e7a, \u00e9 verdade, mas que n\u00e3o redimiria em nada o Papai Noel que n\u00e3o apareceria na noite de Natal. Para evitar frustra\u00e7\u00f5es, a m\u00e3e escreveu uma carta em nome dele. Com desenhos de Walt Disney, decorou o envelope e o papel. Em voz alta, leu o texto para os meninos. O Bom Velhinho, no discurso, elogiou os dois, aproveitou para puxar a orelha dos irm\u00e3os e confidenciou que o presente seria o inesquec\u00edvel passeio. Divertida maneira\u00a0 que ela tentou manter a brincadeira, o tempo que a idade dos filhos permitir. E isso n\u00e3o tem pre\u00e7o: \u00e9 o verdadeiro presente de Natal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEsse ano descobri que Papai Noel n\u00e3o existe, que \u00e9 minha m\u00e3e quem compra o presente. E agora, ela est\u00e1 colocando a maior banca.\u201d A conclus\u00e3o de Clara, me faz soltar uma gargalhada. Me encanta o sotaque suave e arrastado da menina\u00a0 que nasceu em Fortaleza. 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