{"id":158,"date":"2016-06-01T22:50:12","date_gmt":"2016-06-02T01:50:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=158"},"modified":"2016-06-01T22:50:12","modified_gmt":"2016-06-02T01:50:12","slug":"sem-fotos-por-favor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/sem-fotos-por-favor\/","title":{"rendered":"Sem fotos, por favor"},"content":{"rendered":"<p>Os porta-retratos vazios na parede da minha casa ainda aguardam os momentos eternizados em imagens. Quero escolher fotos de paisagens que me recordem experi\u00eancias, pessoas e lugares que fizeram, ou fazem, parte da minha vida.<\/p>\n<p>Mas, aqui, na Tail\u00e2ndia, rodeada de asi\u00e1ticos risonhos e munidos dos mais modernos aparatos fotogr\u00e1ficos, conclu\u00ed que n\u00e3o gosto nenhum bocadinho de sair por a\u00ed clicando o que vejo. Talvez, volte para casa sem um registro importante do Sudeste Asi\u00e1tico que valha ser emoldurado e, assim, minha parede continuar\u00e1 \u00e0 espera de uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Minha avers\u00e3o em fazer fotos dos lugares que visito se explica pela aten\u00e7\u00e3o que o ajuste do foco, da luz e do melhor \u00e2ngulo roubam dos meus sentidos. A preocupa\u00e7\u00e3o em entrar na fila para fazer uma imagem do Buda de cinco toneladas de ouro, por exemplo, leva embora a emo\u00e7\u00e3o de me sentir parte de um monumento grandioso, em um pa\u00eds t\u00e3o distante.<\/p>\n<p>O tempo que se perde em selfies ou fotos horrendas, que, ali\u00e1s, nunca mais ser\u00e3o vistas, em frente a pontos tur\u00edsticos, me furtam a chance de vivenciar um momento t\u00e3o breve e passageiro como o disparo de um flash.<\/p>\n<p>Prefiro dedicar esses minutos em reparar os detalhes \u00e0 minha volta e levar na lembran\u00e7a as cores vivas e os brilhos de Bangcok. As imagens nunca v\u00e3o ser capazes de me fazer sentir novamente o cheiro da fuma\u00e7a, mesclada a comida frita e a jasmim, que envolve essa metr\u00f3pole encantadora e confusa. <\/p>\n<p>Daqui a um tempo, vou preferir fechar os olhos a abrir \u00e1lbuns, e resgatar a lembran\u00e7a do som acelerado da l\u00edngua thai e dos gestos de f\u00e9 de milh\u00f5es de pessoas diante da imagem de um profeta de olhar enviesado. <\/p>\n<p>Deixo o celular de lado para me concentrar no som dos mantras entoados pelos monges. Dedico minha aten\u00e7\u00e3o para registrar a m\u00fasica zen e a cantoria dos p\u00e1ssaros que ecoam no restaurante erguido no meio de um jardim.<\/p>\n<p>Em vez de pedir a meu pai, meu companheiro de viagem, para fazer uma pose com resultado constrangido e for\u00e7ado, prefiro memorizar as express\u00f5es de surpresa dele diante da excentricidade asi\u00e1tica; as brincadeiras debochadas que lhe s\u00e3o peculiares e sua singela oferta que para eu comprasse milho para alimentar os pombos em frente a um templo budista. <\/p>\n<p>Gesto que s\u00f3 podia mesmo vir de um eterno pai, que me fez me sentir de novo uma crian\u00e7a. Momentos que levarei para sempre no cora\u00e7\u00e3o e, definitivamente, n\u00e3o h\u00e1 como emoldurar. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os porta-retratos vazios na parede da minha casa ainda aguardam os momentos eternizados em imagens. 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