{"id":14,"date":"2016-01-31T17:53:32","date_gmt":"2016-01-31T19:53:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=14"},"modified":"2016-04-14T17:59:50","modified_gmt":"2016-04-14T20:59:50","slug":"paixao-deja-vu-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/paixao-deja-vu-2\/","title":{"rendered":"Paix\u00e3o d\u00e9j\u00e0-vu"},"content":{"rendered":"<p>Amor \u00e9 coisa que me intriga. Minha raz\u00e3o n\u00e3o encontra explica\u00e7\u00e3o que justifique por que alguns esbarr\u00f5es dados pela vida se transformam em grandes encontros. Mais inexplic\u00e1vel ainda \u00e9 como alguns desencontros convergem para ponto em comum. Um dia, n\u00e3o importa quando, os enamorados estar\u00e3o frente a frente novamente. Juntos, de m\u00e3os dadas, aos beijos. Esque\u00e7o o c\u00e9rebro questionador e felicito-me com as hist\u00f3rias de happy end. Alguns diriam tratar-se de sorte ou de simples acaso. Outros arriscariam a exist\u00eancia de um destino, ditado por diretor soberano. Quem sabe, de fato, alguns enredos amorosos n\u00e3o est\u00e3o escritos nas estrelas? Eu n\u00e3o me atreveria a ir t\u00e3o longe. Acho apenas que algumas energias n\u00e3o se desgrudam e acabam se atraindo, ainda que rumos diferentes tentem afast\u00e1-las.<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito em cupidos, mas ouvi uma hist\u00f3ria que d\u00e1 at\u00e9 para desconfiar de seres alados disparando flechadas por a\u00ed. Uma senhora de 76 anos, solteira por toda a vida, vai finalmente se casar. N\u00e3o \u00e9 um amor qualquer. \u00c9 afei\u00e7\u00e3o antiga, da juventude. Dir-se-ia que o encanto acabou quando ambos tinham pouca idade, por infort\u00fanio de ele j\u00e1 ter trocado alian\u00e7as com outro algu\u00e9m. Mas o amor \u00e9 trai\u00e7oeiro e n\u00e3o apaga certos nomes da mem\u00f3ria. Ainda que a raz\u00e3o determine, o cora\u00e7\u00e3o desobedece.<\/p>\n<p>A senhora a que me refiro vai dividir a casa, e os pr\u00f3ximos anos, com tal amor, (re) conhecido h\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas. Nunca mais se viram desde que as primeiras fa\u00edscas foram acendidas. Ele se casou. Ela n\u00e3o. Ele construiu a vida na mesma cidade em que cresceu. Ela se mudou de l\u00e1. H\u00e1 poucos meses, por\u00e9m, ela voltou por aquelas bandas para consolar uma amiga \u00f3rf\u00e3 de filho rec\u00e9m-falecido. O antigo amor logo soube da presen\u00e7a da forasteira especial e quis saber sobre ela. Ele ficou vi\u00favo. Ela aparentemente continuava livre.<\/p>\n<p>Da intimidade dessa nova conversa e do reencontro, nada se sabe, mas fato \u00e9 que ela est\u00e1 de malas prontas. A senhora independente, que sempre viveu s\u00f3 e feliz nessa condi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 de mudan\u00e7a para uma fazenda em Mato Grosso. Vai se casar com apoio da fam\u00edlia. Ela nunca teve filhos. Ele sim, do primeiro casamento. Conta-se \u00e0 boca mi\u00fada, por\u00e9m, que o noivo preferiu dizer para a prole que a paix\u00e3o era recente e n\u00e3o uma guardada no peito desde tempos idos. D\u00e1 para entender. Sup\u00f5e-se que n\u00e3o quer correr o risco de pensarem que o espa\u00e7o da falecida era compartilhado no cora\u00e7\u00e3o do velho amante.<\/p>\n<p>\u00c2ngela \u00e9 outra mulher que tamb\u00e9m preferiu n\u00e3o espalhar a felicidade de ter reencontrado um namorado da juventude, quando prestes a completar 69 anos. Tem medo de que sua alegria deixe ferido quem perdeu espa\u00e7o nessa rela\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 divorciado. Ela viveu a dor de enterrar o marido. Quando o pai de seus filhos e companheiro de tantos projetos se foi, \u00c2ngela teve a certeza de que a experi\u00eancia de amar tinha morrido com ele. Nunca imaginou reviver o amor, consequ\u00eancia de um acaso no supermercado. De costas, ouviu algu\u00e9m chamar por seu nome. Ao virar o rosto, n\u00e3o podia acreditar que era o mesmo Marcos, o pretendente a casamento de quando tinha apenas 20 anos de idade.<\/p>\n<p>Eram apaixonados naqueles anos, mas as brigas bobas da imaturidade fizeram com que o relacionamento n\u00e3o fosse adiante. Cinco anos depois, ele estava casado. Com outra pessoa, por\u00e9m. Ela tamb\u00e9m subiu ao altar, no mesmo ano, com novo amor. E a vida seguiu. S\u00f3 viu Marcos uma vez, em um restaurante, ao longo de todos esses anos, mas os amigos em comum sempre davam not\u00edcias dela para ele, que nunca se esqueceu da quase noiva.<\/p>\n<p>Quando \u00c2ngela o reencontrou, a primeira impress\u00e3o foi de que ele estava \u201cacabado\u201d, brinca. Mas a apar\u00eancia dele, envelhecida pelo tempo n\u00e3o impediu que o cora\u00e7\u00e3o dela disparasse como se o rel\u00f3gio tivesse parado. Trocaram telefones. Ela sem expectativas. Ele, cheio de esperan\u00e7as. Retomaram a conversa, que seguia gostosa como na juventude.<\/p>\n<p>O primeiro encontro foi r\u00e1pido, no estacionamento do trabalho. Mas o cupido, o destino ou qualquer que seja o nome desse empurr\u00e3ozinho que a vida d\u00e1 veio forte, e n\u00e3o se desgrudaram mais. Do trope\u00e7o no mercado at\u00e9 hoje, j\u00e1 vai quase um ano. Eles come\u00e7aram a namorar. Ela anda feliz. Ri quando conta a hist\u00f3ria. Riso leve de quem est\u00e1 apaixonada. Agradece a Deus pelo encontro, que considera presente dos c\u00e9us. Acredita em destino, pois s\u00f3 isso explicaria uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o afinada, mesmo depois de tanto tempo. Diz que amor do passado j\u00e1 se conhece, j\u00e1 fez o cora\u00e7\u00e3o bater mais forte antes e segue com o mesmo poder. Tamb\u00e9m rejuvenesce. Ela acha que est\u00e1 mais bonita e tem certeza de que ele tamb\u00e9m. Perdeu a fei\u00e7\u00e3o abatida e de tristeza do homem que fazia compras sozinho naquele dia.<\/p>\n<p>Enquanto fala, ela recebe o telefonema de uma amiga. N\u00e3o acredita no que ouve e gargalha. Uma outra bonitona, que tamb\u00e9m j\u00e1 passou dos 60 anos, anda toda serelepe porque um amor de 20 anos atr\u00e1s lhe fez convite para sair. Ele teria confessado que manteve o contato dela guardado por seis meses, at\u00e9 encontrar coragem para demonstrar o interesse. \u00c2ngela apoiou. Acredita que o amor antigo renova a alegria a qualquer idade. \u201cE eu nem precisei correr atr\u00e1s da felicidade. Ela chegou at\u00e9 a mim.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amor \u00e9 coisa que me intriga. Minha raz\u00e3o n\u00e3o encontra explica\u00e7\u00e3o que justifique por que alguns esbarr\u00f5es dados pela vida se transformam em grandes encontros. Mais inexplic\u00e1vel ainda \u00e9 como alguns desencontros convergem para ponto em comum. 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