{"id":133,"date":"2016-05-12T17:04:13","date_gmt":"2016-05-12T20:04:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=133"},"modified":"2016-05-12T17:07:11","modified_gmt":"2016-05-12T20:07:11","slug":"nos-jovens-viuvas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/nos-jovens-viuvas\/","title":{"rendered":"N\u00f3s, jovens vi\u00favas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Pe\u00e7o desculpas antecipadamente por voltar a esse assunto. H\u00e1 quem entenda como excesso tristeza, um bocado de peso, quando o leve mundo da fantasia nos pede para manter a felicidade todas as horas do dia. J\u00e1 fui acusada de autocomisera\u00e7\u00e3o, de carente de aten\u00e7\u00e3o ao dividir minha dor. Perdoe de antem\u00e3o se voc\u00ea tamb\u00e9m pensa assim. A perda faz parte de mim, da pessoa que sou agora, por mais que tente super\u00e1-la cada vez que abro os olhos pela manh\u00e3. Todos os dias, h\u00e1 mais de 2 anos e meio, fa\u00e7o isso. H\u00e1 momentos em que o sofrimento, a autopiedade (por que n\u00e3o posso ter pena de mim?) est\u00e3o adormecidos, mas em outros, no entanto, n\u00e3o cabem dentro de mim e se espalham como lava de vulc\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Sou jornalista. Meu trabalho \u00e9 usar as palavras para contar hist\u00f3rias. \u00c9 isso que tento fazer vez ou outra: encontrar substantivos e adjetivos que definam o sentimento de tornar-se vi\u00fava. Para alguns soam como exposi\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria, para mim, \u00e9 uma forma de exorcismo. N\u00e3o s\u00f3 eu escrevi sobre luto. Nos \u00faltimos meses, faz parte da minha mesa de cabeceira as hist\u00f3rias pessoais de quem sobreviveu \u00e0 perda de um grande amor. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Julian Barnes escreveu \u201cAltos voos e quedas livres\u201d, em que fala da morte da esposa, v\u00edtima de um c\u00e2ncer. Eu li. Joan Didion \u00e9 uma americana famosa que transformou em best seller \u201cO ano do pensamento m\u00e1gico\u201d, em que conta o drama de ver o marido morrer, sentando \u00e0 mesa do jantar por causa de um AVC. Eu li. O brasileiro Boris Fausto lan\u00e7ou \u201cO brilho do bronze\u201d, em que tenta descrever a sensa\u00e7\u00e3o de enterrar a esposa, parceira de d\u00e9cadas. T\u00e3o afoita em encontrar meus iguais, que comprei o relato duas vezes. Me esqueci que j\u00e1 tinha, mas li s\u00f3 as primeiras p\u00e1ginas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Entender o sentimento dessas pessoas, me faz sentir normal dentro da anormalidade que representa o per\u00edodo de luto e reconstru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade. A viuvez tem particularidades que n\u00e3o pertencem a uma m\u00e3e que perde um filho ou a um filho que perde o pai. Longe de fazer, aqui, compara\u00e7\u00f5es. Mas, perder um companheiro \u00e9 ter arrancado para sempre um peda\u00e7o dos seus planos de vida, que s\u00f3 existiam porque eram feitos a dois. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">N\u00e3o me comparo a qualquer escritor renomado, mas tem dias que meu cora\u00e7\u00e3o se agita e pede para ser esvaziado. Contar minha hist\u00f3ria \u00e9 uma forma de fazer isso. N\u00e3o escrevo para ganhar a compaix\u00e3o de ningu\u00e9m. Ali\u00e1s, n\u00e3o quero nada. E se n\u00e3o te interessa saber como algu\u00e9m enfrenta essa ruptura irrevers\u00edvel, pare de ler por aqui.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Dessa vez, minha mem\u00f3ria foi instigada pela hist\u00f3ria da irlandesa Amy Molloy. O livro dela estava em uma pilha de t\u00edtulos duvidosos, descartados, ontem, por minha chefe, durante uma limpeza feng shui feita na sala dela. A capa \u00e9 uma mulher na sombra, vestida com uma camisola de seda e uma das al\u00e7as escorregando pelo bra\u00e7o. O nome da obra pessoal era nada sugestivo, ainda mais quando associado \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o: \u201cMuito prazer, Amy\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O que me chamou a aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, foi a palavra REAL, que saltou no subt\u00edtulo: \u201cUma hist\u00f3ria real sobre amor, sexo e recome\u00e7o\u201d. Apesar de n\u00e3o ter absolutamente nada a ver com Amy, nossas hist\u00f3rias se coincidem. Ao folhear o livro, descobri que era a narrativa de uma jornalista que ficou vi\u00fava aos 23 anos. O marido forte, lindo e surfista, perdeu a batalha para um agressivo tumor de pele que tinha se alastrado para o c\u00e9rebro e tirado a vida dele em poucos meses. Ele tinha 36.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Como eu, ela precisava escrever e decidiu contar que, tr\u00eas meses depois de ganhar o cruel t\u00edtulo de vi\u00fava, j\u00e1 tinha dormido com 27 caras. Queria dizer como retomou sua vida diante da fatalidade. Amy n\u00e3o se orgulha da vida bandida que assumiu ap\u00f3s perder o amor que escolheu, mas interpreta o sexo, naquele momento, como a busca por algum tipo de prazer, de qualquer sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fosse a dor de ver quem a gente ama morrer um pouco a cada dia. \u201cN\u00e3o percebi que era apenas a adrenalina que estava fazendo com que eu seguisse em frente. Todos fazemos o que \u00e9 preciso para sobreviver.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">N\u00e3o fiz o mesmo que ela fez, mas entendi perfeitamente o que quis dizer e o que buscava em tantas camas an\u00f4nimas. Compreendi a necessidade que tinha de ser abra\u00e7ada, beijada, de se sentir uma jovem com uma vida o mais perto da normalidade poss\u00edvel. Carregar um caix\u00e3o, dentro uma bagagem acumulada em t\u00e3o pouco tempo de vida, \u00e9 pesado demais e ocupa um espa\u00e7o exagerado, acreditem. Acompanhar algu\u00e9m que sabe estar se despedindo da vida, te torna invis\u00edvel. Durante meses, s\u00f3 o medo e o pavor te conduz. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais dona das suas escolhas e n\u00e3o h\u00e1 nada que voc\u00ea possa fazer. Voc\u00ea \u00e9 simplesmente nada diante de decis\u00f5es t\u00e3o grandiosas: da medicina, do universo, de Deus. A prioridade n\u00e3o s\u00e3o seus sentimentos. E como seriam, se diante de voc\u00ea tem algu\u00e9m amado morrendo?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Eu mesma, dois meses depois de ficar vi\u00fava, me vi em um roof top em Nova York, com um macac\u00e3o de renda branco, decotado nas costas \u2014 um dos mais lindos que j\u00e1 usei, a ponto de ser parada por mulheres de todas as nacionalidades para ouvir elogios e saber onde eu o havia comprado \u2014 dan\u00e7ando freneticamente.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">N\u00e3o era alegria. Era vontade de agitar o corpo e de dizer a minha mente, a meus bra\u00e7os, a minhas pernas e a meu cora\u00e7\u00e3o que eu ainda estava vida. Apesar de tudo. Meu corpo sentia a m\u00fasica. Eu dan\u00e7ava. Fui julgada por quem achava que eu estava feliz demais ao sorrir nas fotos postadas em redes sociais. Amy conta que tamb\u00e9m foi criticada ao namorar. \u201cEsperam uma vi\u00fava em um pedestal\u201d, ela disse. Sei o que ela sentiu. O sorriso nessa fase incomoda tanto quanto o choro. Ali\u00e1s, a presen\u00e7a de uma vi\u00fava incomoda. Ela lembra aos outros que somos mortais e impotentes. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">H\u00e1 o desejo de quem est\u00e1 a sua volta de medir sua dor por seus atos. Ningu\u00e9m conseguir\u00e1 faz\u00ea-lo, porque nem voc\u00ea pr\u00f3pria tem poder disso. Nem eu conseguia entender como comprava maquiagem na Times Square enquanto apareciam na minha cabe\u00e7a flashes do meu marido no caix\u00e3o. Desviar o pensamento para as cores, para o que era vivo e brilhante me fazia lembrar que eu estava viva. Apesar de tudo.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Reler o relato de Amy Molloy ontem me fez chorar. Meu est\u00f4mago revirou. Perdi o sono. Vociferei improp\u00e9rios ao destino. Maldisse meu azar de ter me apaixonado por um homem com um tumor maligno na cabe\u00e7a. Amy viveu epis\u00f3dios que tamb\u00e9m enfrentei. S\u00f3 as jovens vi\u00favas os enfrentam. A viuvez \u00e9 um clich\u00ea da maturidade. No meu caso, no dessa inglesa e no de tantas outras mulheres, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 assim que a hist\u00f3ria foi escrita. Ela chegou bem mais cedo do que a obviedade da vida prometeu. Isso n\u00e3o nos faz coitadas, melhores, nem piores, mas nos faz c\u00famplices em sentimentos que s\u00f3 quem ganhou esse t\u00edtulo nessa fase da vida consegue compreender. O resto das pessoas podem tentar, mas s\u00f3 alcan\u00e7am ser solid\u00e1rias ou julgadoras. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Em comum, eu e Amy vimos nossos lindos e fortes maridos serem derrotados pela crueldade do c\u00e2ncer. Ela falava do medo de dormir e ele passar mal; do p\u00e2nico de como seria o dia da morte, quando os m\u00e9dicos disseram que o diagn\u00f3stico era incur\u00e1vel. Eu tamb\u00e9m tinha. Todos os dias eu lutava ao lado do meu marido por sua vida, mas dentro de mim tamb\u00e9m me preparava para quando ele partisse.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Amy se casou tr\u00eas semanas antes de o esposo morrer. Casada no cart\u00f3rio, adiei meu casamento religioso um m\u00eas antes de ele acontecer, assim que soubemos do diagn\u00f3stico fatal. Amy n\u00e3o conseguia olhar seu vestido de noiva depois da partida do marido porque lhe lembrava um dia feliz que nunca mais poderia ter. Eu nunca consegui buscar o meu na loja porque me lembraria o dia que eu nunca pude viver.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Amy praguejou a felicidade alheia, enquanto convivia com a desgra\u00e7a. \u201cPor que os outros pareciam caminhar em rosas e ela em espinhos?\u201d Tamb\u00e9m me fiz essa pergunta in\u00fameras vezes desde a descoberta da doen\u00e7a. At\u00e9 hoje, um ano e alguns meses ap\u00f3s a morte dele, \u00e0s vezes me fa\u00e7o. Odiava quem estava feliz demais. Como voc\u00ea pode estar t\u00e3o bem, ser t\u00e3o indiferente a minha dor? N\u00e3o entendia. N\u00e3o admitia. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O livro da jornalista inglesa me fez lembrar dos dias no hospital, de ver nossos companheiros perder a consci\u00eancia. Ela conta que tem uma caixa com as coisas do marido guardadas, incluindo um celular com a voz dele gravada na caixa postal. Eu tamb\u00e9m tenho. Ela embalou uma camisa para que o cheiro n\u00e3o tivesse para onde fugir. Fiz o mesmo com a almofada na qual o meu marido cochilava no sof\u00e1 e ainda tem o cheiro do suor dele. Tem dias, que ligo para o celular desligado s\u00f3 para ouvir a voz dele. Depois que vamos embora, al\u00e9m de momentos que s\u00e3o s\u00f3 nossos, essas s\u00e3o as pequenas coisas que ficam.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Por muito tempo, ela evitou olhar as fotos do marido. Eu, depois de todo esse tempo, ainda n\u00e3o olho com leveza. Ela tentou n\u00e3o pensar nos momentos bons que viveram juntos para que a saudade n\u00e3o fosse ainda mais dilacerante. Tamb\u00e9m usei essa t\u00e1tica, mas n\u00e3o h\u00e1 como deixar de lado a lembran\u00e7a de uma vida dividida.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Amy se lembra da \u00faltima noite do marido no hospital. Eu tamb\u00e9m. Como eu, ela tinha medo quando chegasse a hora do \u00faltimo suspiro. Eu tinha pavor, na verdade. Mas, como eu, ela descobriu que essa n\u00e3o seria a pior parte. Quando vem uma doen\u00e7a dessa, o maior sofrimento \u00e9 v\u00ea-la levando embora, a cada dia, um pouquinho daquela pessoa pela qual nos apaixonamos e rouba tanto de n\u00f3s que, quando chega o fim, j\u00e1 n\u00e3o a reconhecemos mais. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Ela conta a sensa\u00e7\u00e3o de \u201csoco no est\u00f4mago\u201d quando teve que atualizar a certid\u00e3o de casamento e assumir legalmente que era vi\u00fava. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o me esque\u00e7o da vontade de chorar ao ler que na minha descri\u00e7\u00e3o para o Estado que eu era \u201cbrasileira, 35 anos, jornalista e vi\u00fava\u201d. N\u00e3o era isso tinha planejado viver. N\u00e3o com 34 anos. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Amy fala da pena que as pessoas sentem das vi\u00favas com pouca idade. Eu e ela, por\u00e9m, temos o cora\u00e7\u00e3o partido por nossos mortos t\u00e3o jovens. Eu e ela, at\u00e9 que nos provem o contr\u00e1rio, podemos refazer a nossas vidas. Eles, nunca mais. Desde que Amy escreveu o livro, l\u00e1 se v\u00e3o seis anos. Vi ontem pelo Instragram dela que se casou novamente e espera um beb\u00ea. Sabia que ela se refaria, assim que comecei a ler sua hist\u00f3ria. Assim como tenho certeza que refarei a minha. Estou viva! Apesar de tudo!<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SIGA NO FACEBOOK: (In) Confid\u00eancias<\/p>\n<p>ESCREVA: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe\u00e7o desculpas antecipadamente por voltar a esse assunto. H\u00e1 quem entenda como excesso tristeza, um bocado de peso, quando o leve mundo da fantasia nos pede para manter a felicidade todas as horas do dia. J\u00e1 fui acusada de autocomisera\u00e7\u00e3o, de carente de aten\u00e7\u00e3o ao dividir minha dor. Perdoe de antem\u00e3o se voc\u00ea tamb\u00e9m pensa assim. 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