{"id":126,"date":"2016-05-05T16:50:31","date_gmt":"2016-05-05T19:50:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=126"},"modified":"2016-05-05T16:50:31","modified_gmt":"2016-05-05T19:50:31","slug":"na-balada-brasiliense-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/na-balada-brasiliense-parte-2\/","title":{"rendered":"Na balada brasiliense. Parte 2"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">N\u00e3o tinha como dar errado. A festa prometia ser a aposta certa para acalmar a comich\u00e3o que, h\u00e1 tempos, me deixava inquieta para dan\u00e7ar. Na programa\u00e7\u00e3o musical, estavam os sons entoados nos anos 1980: ano em que nasci, cresci e me diverti. Reconheceria as m\u00fasicas, esbarraria com as pessoas de mesma idade e com afinidade pelo tema. A \u00faltima vez em que fui a um evento desses, deve ter pelo menos 10 anos. Tanto tempo que Thammy, o filho transg\u00eanero de Gretchen, ainda atendia pelo artigo feminino e rebolava com desenvoltura no palco, ao lado da m\u00e3e.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Justamente por ser da gera\u00e7\u00e3o 80, dif\u00edcil mesmo foi encontrar companhia. Meus amigos trint\u00f5es est\u00e3o casados, com filhos, com pregui\u00e7a ou simplesmente sem saco para baladas. Mas n\u00e3o desanimei! Um casal de queridos solteiros e sem beb\u00eas aceitou me acompanhar naquela que prometia ser uma noite, no m\u00ednimo, engra\u00e7ada. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Fomos! A boate estava relativamente cheia para ser 23h. Eu me lembrava de que as festas come\u00e7avam depois da hora em que todos viram ab\u00f3bora. Estava tudo muito escuro. Estranhe! Mas a m\u00fasica era boa. De cara, algo como <i>A-ha<\/i> ou <i>Tear<\/i><i>s<\/i><i> for Fears<\/i> animavam a festa. Quando os flashes de luz iluminaram aqueles rostos, me dei conta de que eu e meus amigos, passados h\u00e1 meia d\u00e9cada dos 30, \u00e9ramos quase umas crian\u00e7as ali. A festa que tocava sucesso dos anos 1960, 1970, tinha atra\u00eddo gente nascida 50, 60, qui\u00e7\u00e1 70 anos atr\u00e1s. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Foi uma boa surpresa, por\u00e9m! Saiba que tem muito senhor e senhora, passados dos 60, que est\u00e3o dando um show de energia em mim, em meus amigos e em voc\u00ea juntos. Logo notei um homem \u2014 cujas rugas denunciavam que deveria ser mais velho do que meu pai, ao menos na apar\u00eancia \u2014 atr\u00e1s de mim, que se sacudia freneticamente. Ele tinha ritmo. Parecia estar se divertindo como nos tempos da juventude h\u00e1 tanto ida. T\u00e3o animado, que quase dei um passo em dire\u00e7\u00e3o a ele, a fim de entrar naquela dan\u00e7a, mas logo recuei quando o vi agarrar apaixonadamente a senhora que o acompanhava.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Aos beijos, eles me deixavam com inveja de ganhar chamego com tamanho arroubo. Uma paix\u00e3o longe de ter esfriado com a maturidade. Mas, ao mesmo tempo, esses festeiros idosos, ao menos por defini\u00e7\u00e3o, me enchiam de entusiasmo por saber que amor e vontade de dan\u00e7ar \u00e9 algo que n\u00e3o tem idade e muito menos diminui com ela.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Cantaram <span style=\"color: #000000\">Michael Jackson, Cindy Lauper, Madonna. Tamb\u00e9m me sentia uma jovem senhora lembrando meus tempos de adolesc\u00eancia. Sobrava anima\u00e7\u00e3o <\/span><span style=\"color: #000000\">em<\/span><span style=\"color: #000000\"> mim e <\/span><span style=\"color: #000000\">em <\/span><span style=\"color: #000000\">meus acompanhantes. Ele n\u00e3o quis beber. Ela me prop\u00f4s <\/span><span style=\"color: #000000\">o<\/span><span style=\"color: #000000\"> desafio de virar <\/span><span style=\"color: #000000\">o<\/span><span style=\"color: #000000\"> shot de tequila. Um! D<\/span><span style=\"color: #000000\">ois<\/span><span style=\"color: #000000\">! Tr\u00eas! Bebida suficiente para que, <\/span><span style=\"color: #000000\">em seguida,<\/span><span style=\"color: #000000\"> transform\u00e1ssemos a garrafa de \u00e1gua em microfone. J\u00e1 n\u00e3o sabia <\/span><span style=\"color: #000000\">mais o<\/span><span style=\"color: #000000\"> rumo <\/span><span style=\"color: #000000\">que<\/span><span style=\"color: #000000\"> tinha tomado o casal de mais idade que dan\u00e7ava atr\u00e1s de mim. Alguns baladeiros de cabe\u00e7a branca j\u00e1 escolhiam um sof\u00e1 confort\u00e1vel para recuperar as energias. Eu e minha amiga, ao contr\u00e1rio, anim\u00e1vamos mais. Fizemos passinhos rid\u00edculos da adolesc\u00eancia. Demos bundadas <\/span><span style=\"color: #000000\">m\u00fatuas<\/span><span style=\"color: #000000\">. Sensualizamos com as m\u00e3os para o alto. <\/span><span style=\"color: #000000\">Rodamos. Rebolamos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\">Eu, por estar altinha. Ela, por parceria e <\/span><span style=\"color: #000000\">por<\/span><span style=\"color: #000000\"> divers\u00e3o. Descontrolada como uma menina que tem a permiss\u00e3o do pai para a ir a uma festa depois de muito tempo, queria aproveitar ao m\u00e1ximo m\u00fasica. Olhar para o lado n\u00e3o <\/span><span style=\"color: #000000\">ia<\/span><span style=\"color: #000000\"> rende<\/span><span style=\"color: #000000\">r mesmo<\/span><span style=\"color: #000000\">. N\u00e3o consegui colocar em pr\u00e1tica o ensinamento precioso de uma <\/span><span style=\"color: #000000\">prima solteira<\/span><span style=\"color: #000000\"> descolada. Ela batizou <\/span><span style=\"color: #000000\">a t\u00e1tica<\/span><span style=\"color: #000000\"> de \u201colhar de pedreiro\u201d. Basicamente, voc\u00ea fixa o olhar <\/span><span style=\"color: #000000\">e<\/span><span style=\"color: #000000\"> encara firmemente o alvo. <\/span><span style=\"color: #000000\">El<\/span><span style=\"color: #000000\">e fica t\u00e3o sem gra\u00e7a que n\u00e3o tem outra escolha a n\u00e3o ser retribuir. \u201cO resultado tem 90% de aproveitamento\u201d, ela me garantiu. Mas, naquela festa, paquera n\u00e3o era o forte. Diferen\u00e7a de idade tem limites, minha gente.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"> <span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Fui curtir sozinha. Com um salto de 15cm, decidi\u00a0<\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\">exibir os passos aprendidos na sensual aula de stiletto. Bate cabelo, joga quadril, faz quadradinho de oito, roda a amiga, pede a ela o namorado emprestado para dan\u00e7ar um bocadinho com um homem da tua idade. Juntas, voc\u00eas descem at\u00e9 o ch\u00e3o. Ela te acompanha. Eu insisto, por achar que sou dan\u00e7arina da Beyonc\u00e9, por falta de no\u00e7\u00e3o do rid\u00edculo e por excesso de tequila. Minha amiga se cont\u00e9m. Eu continuo descendo. As minhas pernas perdem o embalo. Como seu eu tivesse 70 ou 80 anos, perco o equil\u00edbrio, n\u00e3o me levanto mais e, para n\u00e3o cair, decido me sentar no ch\u00e3o. \u201cIsso j\u00e1 aconteceu comigo. Para evitar, levante sempre com a bunda bem empinada\u201d, depois me explicou minha prima, a solteira descolada.<\/span> <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\">Tarde demais. J\u00e1 tinha sido humilhada. Sem conhecer o segredo, tive de ser i\u00e7ada pelo meu casal de amigos. Cada um deles pega em um dos meus bra\u00e7os. Eles levam na brincadeira. Eu nem ligo. Mas \u00e9 hora de ir embora para evitar vexame. No outro dia, fico rindo sozinha do epis\u00f3dio. E concluo: \u201cQue mico! Justamente eu, que jurava ser a novinha da festa, foi quem perdeu as for\u00e7as e foi parar, literalmente, no ch\u00e3o.\u201d Zero pra mim. Dez para os vov\u00f4s dan\u00e7arinos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o tinha como dar errado. A festa prometia ser a aposta certa para acalmar a comich\u00e3o que, h\u00e1 tempos, me deixava inquieta para dan\u00e7ar. Na programa\u00e7\u00e3o musical, estavam os sons entoados nos anos 1980: ano em que nasci, cresci e me diverti. Reconheceria as m\u00fasicas, esbarraria com as pessoas de mesma idade e com afinidade pelo tema. 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