{"id":120,"date":"2016-05-02T13:47:27","date_gmt":"2016-05-02T16:47:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=120"},"modified":"2016-05-02T15:57:38","modified_gmt":"2016-05-02T18:57:38","slug":"na-balada-brasiliense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/na-balada-brasiliense\/","title":{"rendered":"Na balada brasiliense"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">J\u00e1 era fim de festa quando desbravei um caminho entre aquela gente animada at\u00e9 a cadeira que vi ao longe. Parecia um o\u00e1sis. A adrenalina j\u00e1 tinha baixado e aumentava meu sono e meu cansa\u00e7o. O medo era sentir t\u00e9dio e acabar com a festa da amiga que me acompanhava. Com a cerveja na m\u00e3o, a noite dela prometia muito mais do que a minha.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Passei s\u00f3 a observar: o cara bonito com alian\u00e7a no dedo que, apesar de dar umas olhadelas para o lado, n\u00e3o aprontou nada que amea\u00e7asse a fidelidade dele. A mo\u00e7a de cabelos compridos e escuros que mordiscou a bochecha do sarado, assim que se esbarraram. Estranhei o descaso dele diante da euforia dela. A bela parecia jogar charme. Ele retribuiu o abra\u00e7o, mas permaneceu im\u00f3vel. Minutos depois, ele continuava parado e ela, aos beijos com uma loira igualmente sensual.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Meu ouvido j\u00e1 ardia. N\u00e3o era s\u00f3 a m\u00fasica alta que come\u00e7ava a incomodar. Na tentativa de interagirmos, minha amiga tinha que falar ao p\u00e9 da minha orelha, ou melhor, quase dentro dela. Co\u00e7ava. \u00c0s vezes, concordava com o assunto que n\u00e3o ouvi s\u00f3 para n\u00e3o ter que sentir de novo aquele chiado agudo. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Fazia tempo que eu n\u00e3o enfrentava a noite. Tinha me esquecido de que as filas s\u00e3o os primeiros obst\u00e1culos para lutar por um espa\u00e7o na pista de dan\u00e7a. Se a anima\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 a mil, o risco \u00e9 perder o humor e o tes\u00e3o antes mesmo de entrar. Por isso, fomos cedo. Melhor comer e beber em paz. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o me lembrava mais de que n\u00e3o existe qualquer tranquilidade em um ambiente escuro e barulhento. Mesmo com o balc\u00e3o vazio, \u00e9 preciso gritar para que o gar\u00e7om nos ou\u00e7a. Ele nos atende. Um problema a menos!<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Faz tempo que n\u00e3o sou adolescente, mas acho que nunca fui exatamente uma. Minha idade cronol\u00f3gica anda em descordo com a minha idade emocional. Ando disposta a experimentar, a conhecer uma Bras\u00edlia que nunca curti. Aos meus 15 anos, badala\u00e7\u00e3o era matin\u00ea na boate Scaramouche ou festas na Academia de T\u00eanis. Tinha ainda Carnaval no Iate Clube, animado pelo grupo de nome de gosto duvidoso Batom da Cueca. M\u00fasica baiana estava no auge. Para dan\u00e7ar, tinha Micar\u00ea e Salute Salvador. No \u00faltimo, fui uma vez porque minha m\u00e3e n\u00e3o sonhava que era uma festa de ax\u00e9 com dezenas de adolescentes b\u00eabados. Pipoca de micareta, nunca pisei. Em outras baladas, marcava presen\u00e7a espor\u00e1dica, com hora para ir e para voltar.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Isso para dizer que nunca fui do agito nem nova, que dir\u00e1 depois de velha. Mas vamos l\u00e1! Escolhi um pub famoso para estrear. Redescobri que a lei da f\u00edsica n\u00e3o se aplica a essas boates apertadas. Dois corpos, ou pelo menos dois p\u00e9s (e um deles n\u00e3o \u00e9 o seu), s\u00e3o obrigados a dividir o mesmo espa\u00e7o. A clientela animada chegava louca para beber. Na minha cabe\u00e7a, era solavanco de ombro, cotovelo e suvaco de gente pedindo bebida no balc\u00e3o, antes, t\u00e3o civilizado. Agora, n\u00e3o adiantava mais gritar o gar\u00e7om. Para ser atendido, era preciso fazer m\u00edmicas, empurrar a folgada que entrou na sua frente ou ficar na ponta dos p\u00e9s para que, pelo menos o topo de sua cabe\u00e7a, ficasse vis\u00edvel atr\u00e1s do cara de quase 2m de altura.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">A noite n\u00e3o poderia ser ruim. Estava disposta a me divertir. No palco, a banda tocou rock pop dos anos 1990. Letras internacionais e cantores daqui, como Renato Russo e Capital Inicial. O som me animou. O triste era n\u00e3o conseguir me mover. Eu n\u00e3o suava, escorria. Como \u00e9 poss\u00edvel dan\u00e7ar com algu\u00e9m quando voc\u00ea parece ter sa\u00eddo de um chuveiro de \u00e1gua salgada? <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Sem perder o humor, fomos para o andar de cima. No trajeto, era bundada, bolsada, empurr\u00e3o&#8230; L\u00e1, casais apaixonados te tiram o direito de ser discreto. O jeito \u00e9 disfar\u00e7ar que n\u00e3o v\u00ea o beijo profundo dos namorados. A faixa et\u00e1ria tamb\u00e9m me confundiu, De repente, coroas com pinta de garot\u00e3o encheram o lugar. Nada contra, mas confesso que eu me perguntei aonde devem ir as pessoas da minha idade. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Com o passar das horas, parecia que o som tinha ficado mais alto. Tudo estava mais cheio, os caras mais b\u00eabados e abusados. Ainda h\u00e1 quem se sinta no direito de pegar em voc\u00ea sem te conhecer? Amigo, tira j\u00e1 a m\u00e3o da\u00ed! Mas jurei que n\u00e3o ia perder a gra\u00e7a. Decidi, ent\u00e3o, que era hora de ir pra casa. <\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 era fim de festa quando desbravei um caminho entre aquela gente animada at\u00e9 a cadeira que vi ao longe. Parecia um o\u00e1sis. A adrenalina j\u00e1 tinha baixado e aumentava meu sono e meu cansa\u00e7o. O medo era sentir t\u00e9dio e acabar com a festa da amiga que me acompanhava. 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