{"id":117,"date":"2016-04-28T17:24:23","date_gmt":"2016-04-28T20:24:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=117"},"modified":"2016-04-28T18:08:11","modified_gmt":"2016-04-28T21:08:11","slug":"o-homem-ta-virando-tatu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/o-homem-ta-virando-tatu\/","title":{"rendered":"Quase tatus"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Por causa da minha pressa distra\u00edda, me vi, pela primeira vez na vida, impedida de exercer meu leg\u00edtimo direito de entrar em minha pr\u00f3pria casa. Troquei as bolas, troquei as chaves e pronto! N\u00e3o podia mais abrir a porta. Pedi socorro ao porteiro. Munido de ferramentas diversas e muita boa vontade, ele bem que tentou me ajudar. Come\u00e7ou delicadamente, concentrado na miss\u00e3o de soltar a chave tetra emperrada, mas, logo, estava esmurrando a fechadura. Tive medo de ele derrubar a porta, o que at\u00e9 teria sido bom porque, assim, conseguiria entrar em casa. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, s\u00f3 imaginava o preju\u00edzo e a confus\u00e3o que seria caso isso acontecesse.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Moro no quinto andar e no primeiro piso j\u00e1 dava para ouvir a briga feia que ele travou com a fechadura. Apesar do au\u00ea no corredor do pr\u00e9dio, nenhum vizinho abriu a porta. Nem por curiosidade, menos ainda por solidariedade. Fiquei pensando o que teria acontecido se, ao inv\u00e9s de o funcion\u00e1rio do pr\u00e9dio, quem estivesse tentando derrubar minha porta fosse um bandido. Ali\u00e1s, os marginais devem saber que podem provocar estardalha\u00e7o na casa alheia que n\u00e3o ser\u00e3o incomodados.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Mascarados pela falsa premissa de que \u201cn\u00e3o querem invadir a privacidade alheia\u201d, as pessoas est\u00e3o cada vez mais preocupadas s\u00f3 com o pr\u00f3prio umbigo. Quem se importa com a algazarra e os murros na porta de quem mora a seu lado e voc\u00ea sequer sabe o nome? Problema \u00e9 seu e n\u00e3o dele! Por tr\u00e1s da aparente discri\u00e7\u00e3o, na verdade, escondem a falta de preocupa\u00e7\u00e3o com o outro. N\u00e3o ligam a m\u00ednima se voc\u00ea est\u00e1 precisando de ajuda ou se algu\u00e9m quer invadir a sua casa. Uma das minhas vizinhas nunca se dignou a me cumprimentar no elevador. Meu lado infantil\u00a0emburrou tamb\u00e9m. Agora, finjo que n\u00e3o a vejo. Isso\u00a0\u00e9 problema dela e n\u00e3o meu!<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Estamos todos nos transformando em tatu-bola, que, a qualquer inc\u00f4modo ou amea\u00e7a, tem a capacidade de se transformar em uma bola e se esconder dentro da pr\u00f3pria armadura. As pessoas est\u00e3o se protegendo dentro de carapa\u00e7as, com medo de sofrerem com a dor alheia ou de oferecerem solidariedade, como se carinho fosse bem finito, daqueles que acabam se voc\u00ea der demais. Mas \u00e9 o contr\u00e1rio: amor e aten\u00e7\u00e3o, acredito, voc\u00ea recebe de sobra quanto mais entrega. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O mundo est\u00e1 cada vez mais regido pelo hedonismo, pela filosofia de que toda a realiza\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 baseada no prazer individual. A ideia est\u00e1 sendo mal interpretada, por\u00e9m, e estamos criando uma sociedade de tatus-humanos ego\u00edstas. Somos caramujos solit\u00e1rios dentro de nossas pr\u00f3prias conchas, mas com o discurso aparentemente bem resolvido de \u201cque \u00e9 muito feliz sozinho.\u201d Estamos cada vez mais narcisistas. Gostamos de receber, mas estamos mesquinhos para dividir. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Todos os dias escuto que as pessoas fazem ioga, terapia, artes manuais e tamb\u00e9m artes marciais para cuidar de si mesmas, para se colocarem em primeiro lugar. Esse \u00e9 o discurso vigente: vamos nos amar infinitamente porque ningu\u00e9m mais far\u00e1 isso por n\u00f3s. Eu tamb\u00e9m estou no div\u00e3 para aprender a n\u00e3o me preocupar em demasia o outro ou, ao menos, n\u00e3o mais do que comigo. O problema \u00e9 que compartilho o discurso j\u00e1 clich\u00ea de Tom Jobim, de que \u201c\u00e9 imposs\u00edvel ser feliz sozinho.\u201d N\u00e3o consigo ser indiferente a quem tem dores, d\u00favidas, ang\u00fastias e alegrias; diferentes ou iguais \u00e0s minhas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O segredo pode ser o equil\u00edbrio. Uma sa\u00edda pode ser matematizar os sentimentos. Decidi que s\u00f3 vou me doar a quem tamb\u00e9m pode me oferecer algo. N\u00e3o \u00e9 exatamente uma troca, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pretendo virar Madre Teresa de Calcut\u00e1. Ningu\u00e9m deve! Ali\u00e1s, nunca tive voca\u00e7\u00e3o para santa, ent\u00e3o, tenho feito minhas malas facilmente, batido a porta e abandonado, sem olhar para tr\u00e1s, amizades interesseiras, amores unilaterais. O autoconhecimento \u00e9 resultado do relacionamento com o outro e n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria, s\u00f3 existe ser for uma parceria. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Meu ego\u00edsmo tem se restringido a limitar amizades ego\u00edstas, a diminuir a oferta de aten\u00e7\u00e3o para quem n\u00e3o se esfor\u00e7a em retribuir afeto. Mas, ainda n\u00e3o consegui me manter dentro de minha confort\u00e1vel concha quando a casa do vizinho estiver a ponto de ser destru\u00edda. Isso se define como a capacidade de se colocar no lugar do outro, de fazer o que gostaria que fizessem por voc\u00ea. Eu ainda abro a porta, seja por curiosidade ou por preocupa\u00e7\u00e3o. Esse sentimento pode ser traduzido como empatia, uma palavrinha que, em pouco tempo, deixar\u00e1 de existir no dicion\u00e1rio por simples falta de uso.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SIGA NO FACEBOOK: In Confid\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por causa da minha pressa distra\u00edda, me vi, pela primeira vez na vida, impedida de exercer meu leg\u00edtimo direito de entrar em minha pr\u00f3pria casa. Troquei as bolas, troquei as chaves e pronto! N\u00e3o podia mais abrir a porta. Pedi socorro ao porteiro. Munido de ferramentas diversas e muita boa vontade, ele bem que tentou me ajudar. 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