{"id":10,"date":"2016-01-05T17:50:14","date_gmt":"2016-01-05T19:50:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=10"},"modified":"2016-04-14T17:59:52","modified_gmt":"2016-04-14T20:59:52","slug":"e-quando-morte-chegar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/e-quando-morte-chegar\/","title":{"rendered":"&#8220;E quando a morte chegar?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Nasci com medo da morte. N\u00e3o da minha exatamente, mas da dos que me cercam e de quem amo profundamente. Minha maior neurose, desde muito crian\u00e7a, era perder meu pai. Aos 60 anos, diab\u00e9tico, sedent\u00e1rio e fumante, o defino, infelizmente, como uma bomba-rel\u00f3gio. A qualquer momento, o cora\u00e7\u00e3o dele pode pedir socorro, decorr\u00eancia de um estilo de vida nada saud\u00e1vel. Mas nunca imaginei que a morte levaria meu marido de 38 anos. Fiquei vi\u00fava aos 34. Em mar\u00e7o pr\u00f3ximo, completa um ano que convivo com essa condi\u00e7\u00e3o e, pela primeira vez, tenho que aprender a aceitar o inexor\u00e1vel \u00f4nus de respirar: o luto.<\/p>\n<p>N\u00e3o fomos preparados para a despedida de um ser amado. Eu n\u00e3o fui. Voc\u00ea certamente tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9. Ou acha que \u00e9. Por isso, admiro a iniciativa de um grupo de amigos, \u00f3rf\u00e3os de um algu\u00e9m, que criaram uma plataforma digital para falar sobre o tema. O projeto Vamos falar sobre o luto? re\u00fane pais, irm\u00e3os, maridos e esposas que enterraram os seus e se juntaram para abrir o cora\u00e7\u00e3o na rede e contar como enfrentam a perda. Cada um tem seu pr\u00f3prio caminho e usa armas muito particulares para sobreviver a esse duro momento.<\/p>\n<p>Quando uma pessoa que amamos morre,\u00a0 parte da gente vai embora tamb\u00e9m. A aus\u00eancia de quem se foi \u00e9 a maior presen\u00e7a que voc\u00ea vai ter de aprender a lidar da\u00ed para a frente. Algu\u00e9m, meses depois, me perguntou: \u201cE a\u00ed, superou o luto?\u201d Fui incapaz de responder. N\u00e3o sei definir ainda o que \u00e9 o luto. Reconhe\u00e7o apenas que \u00e9 um per\u00edodo de bipolaridade emocional, de inseguran\u00e7a com o futuro, de desafio de reinventar a pr\u00f3pria vida, de romper com cren\u00e7as e se perguntar por que voc\u00ea tem o direito de ficar enquanto o outro se foi. At\u00e9 mesmo a insana raiva de quem te deixou. N\u00e3o consigo imaginar quanto tempo dura, mas me apego aos que j\u00e1 o enfrentaram isso e dizem que vai doer menos. Um dia.<\/p>\n<p>Nos depoimentos apresentados pelo trabalho Vamos falar sobre o luto?, tem marido que brigou com Deus; m\u00e3e que se apegou aos amigos do filho; pai que se resigna com a chance de ter convivido alguns anos com primog\u00eanito morto; mo\u00e7a que \u00e9 acalentada ao ouvir da boca de outrem hist\u00f3rias do pai e assim manter viva a lembran\u00e7a dele. A tese da iniciativa \u00e9 que dividir a dor, a emo\u00e7\u00e3o e a supera\u00e7\u00e3o ajuda e conforta e \u201ctorna a experi\u00eancia menos triste e solit\u00e1ria\u201d, defendem.<\/p>\n<p>Para mim, dif\u00edcil n\u00e3o \u00e9 falar da morte depois que ela acontece. Falo do Luciano todos os dias, como se ele estivesse por aqui, como esteve ao meu lado por 16 anos. Conto hist\u00f3rias, imagino o que ele falaria ou pensaria em determinadas situa\u00e7\u00f5es. Cruel mesmo \u00e9 lidar com a morte quando ela espreita, quando \u00e9 s\u00f3 um aviso. N\u00e3o sei se o ser humano comum \u00e9 capaz de lidar com isso com naturalidade.<\/p>\n<p>O Luciano recebeu um diagn\u00f3stico incur\u00e1vel de c\u00e2ncer de c\u00e9rebro. As estat\u00edsticas m\u00e9dicas, nesse caso, d\u00e3o a chance de mais ou menos dois anos de vida ao paciente. O dia da not\u00edcia, foi quando come\u00e7amos a elaborar nosso luto velado. Cada um com o cora\u00e7\u00e3o dilacerado a seu modo. Em sil\u00eancio, em um p\u00e2nico contido para n\u00e3o desesperar o outro. Havia esperan\u00e7a,de que ele fosse a exce\u00e7\u00e3o \u00e0 impiedosa regra, mas eu e ele sab\u00edamos que a morte estava anunciada, ao lado todo o tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tivemos coragem de nos despedir literalmente. \u00c9 uma tarefa muito dolorosa abrir a porta da sua casa para a morte e convid\u00e1-la a sentar-se no sof\u00e1 de casa. Sua presen\u00e7a era sentida em todos os momentos, por\u00e9m. Por mim e por ele, mas n\u00e3o pudemos falar dela. A despedida estava nas entrelinhas, como quando e deu um solit\u00e1rio de ouro com rubi. Sabia que, para ele, aquilo era um s\u00edmbolo da sua presen\u00e7a para sempre. Eu entendi e s\u00f3 disse: \u201cN\u00e3o vou tirar nunca do dedo.\u201d Sem maiores debates, ele me respondeu: \u201cEu espero que sim\u201d.<\/p>\n<p>Sabia que estava indo embora quando ele, com tr\u00eas tumores letais no c\u00e9rebro, chorava e repetia seguidas vezes com pesar, olhando dentro dos meus olhos: \u201cCoitada de voc\u00ea!\u201d A generosidade dele foi t\u00e3o grande que se esquecia da pr\u00f3pria dor para pensar na que eu sentiria quando ele me deixasse. E ele me deixaria. Nos \u00faltimos meses de luta contra o c\u00e2ncer, j\u00e1 n\u00e3o falava mais e chorava todas as vezes em que o beijava. Eu chorava tamb\u00e9m, sem podermos dizer nada. N\u00e3o sab\u00edamos quanto tempo mais poder\u00edamos tocar um no outro, sentir o cheiro um do outro ou ficar de m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>Ele nunca disse adeus. Falar da morte era como se apressasse a, j\u00e1 anunciada, chegada dela. Mas ele se preocupou em apagar todos os dados de seu computador e do celular. Descobri depois de ele ter ido embora. N\u00e3o teve coragem de me dar senhas de banco, de falar de dinheiro, de fazer qualquer sugest\u00e3o sobre meu futuro, que, naquela ocasi\u00e3o, parecia mais longo do que o dele. Eu tamb\u00e9m me acovardei. Continuava pedindo que fosse mais forte que aquela doen\u00e7a que, nitidamente, tirava dele a autonomia, a mem\u00f3ria e at\u00e9 as fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>At\u00e9 que chegou o dia que avisou que ia partir, mesmo sem poder falar nada por causa do c\u00e9rebro que j\u00e1 estava comprometido. Pela m\u00e3o, me conduziu ao banheiro. A dificuldade de andar n\u00e3o levou embora sua dignidade. Ali, me apontou a cadeira de rodas de banho, pronta para ser usada pela primeira vez, e balan\u00e7ou a cabe\u00e7a em sinal de nega\u00e7\u00e3o. Naquele momento, desde o dia do diagn\u00f3stico, um ano e meio antes, tive coragem de pegar na m\u00e3o da morte: \u201cEu apoio voc\u00ea no que decidir. N\u00e3o precisa mais passar por isso\u201d, falei. E fui me deitar com ele na cama, de onde foi levado direto para o hospital, onde passou 18 dias, e nunca mais voltou.24<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasci com medo da morte. N\u00e3o da minha exatamente, mas da dos que me cercam e de quem amo profundamente. Minha maior neurose, desde muito crian\u00e7a, era perder meu pai. Aos 60 anos, diab\u00e9tico, sedent\u00e1rio e fumante, o defino, infelizmente, como uma bomba-rel\u00f3gio. A qualquer momento, o cora\u00e7\u00e3o dele pode pedir socorro, decorr\u00eancia de um estilo de vida nada saud\u00e1vel. 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