
Rafinha (5): titular de Felipão no último amistoso antes da Copa de 2014
Crédito da imagem: AFP PHOTO / ALEXANDER JOE
O lateral-direito Rafinha, do Bayern de Munique, deve estar sendo chamado pelos pachecos de plantão de traidor, vira-casaca, antipatriota… Ouço até palavrões impublicáveis dos mais exaltados depois da carta de renúncia do jogador de 30 anos à convocação de Dunga para as partidas contra o Chile e a Venezuela pelas Eliminatórias para a Copa de 2018. Mas, quem ainda sofre horrores pela Seleção Brasileira, às vezes, tem memória curta. Nao tenho procuração para defender Rafinha, mas aconselho: morda a língua antes de criticá-lo.
Rafinha foi convocado pela primeira vez por Dunga para um amistoso contra a Suécia, em 2008. Entrou durante a partida no lugar de Daniel Alves e agradou. Na época, o capitão do tetra também comandava a Seleção Olímpica e viu no jogador do Schalke 04, à época com 22 anos, uma excelente opção para a lateral direita nos Jogos Olímpicos de Pequim. Além de bom jogador, tinha no currículo a experiência do quarto lugar no Mundial Sub-20 de 2005.
Ao ser convocado para as Olimpíadas de Pequim, Rafinha comprou, talvez, a maior briga de sua carreira. O Schalke 04 não aceitou liberá-lo para defender a Seleção Brasileira. Convicto de que aquela era a oportunidade da sua vida, peitou o clube alemão e se apresentou a Dunga na Ásia. Rafinha passou 35 dias com a delegação. O Schalke 04 não se deu por vencido. Ameaçou cobrar multa de 700 mil euros devido à quebra de um dos itens do contrato.
O “fugitivo” deu de ombros para o Schalke. Houve imensa repercussão durante a fase de treinos da Seleção, em Pequim. “Eu não posso pagar essa multa. Quem tinha que pagar é a Fifa, que sempre me orientou a ir para a Olimpíada sem problemas, já que eu tenho menos de 23 anos. Nem eu nem a CBF vamos pagar esse valor. O Schalke, se quiser receber, que vá procurar a Fifa”, desabafou Rafinha. “Estou tranquilo, não vou pagar nada. Fiz o correto, o que tinha que ser feito. Se eu tiver outra oportunidade de servir à Seleção, vou sem dúvida”. Na época, Kaká e Robinho, maiores xodós de Dunga, não tiveram a mesma coragem de Rafinha. Não compraram briga com seus clubes europeus para ocupar as vagas acima dos 23 anos em Pequim, e irritaram Dunga. Amargurado e enfraquecido, o técnico teve que engolir a convocação de Ronaldinho Gaúcho, anunciada em primeira mão no Jornal Nacional pelo então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira.
Prejudicado pela campanha que levou o Brasil à medalha de bronze em Pequim, Rafinha e outras decepções de Dunga nas Olimpíadas caíram no esquecimento. Maicon e Daniel Alves se consolidaram como homens de confiança do técnico para a Copa do Mundo de 2010. Rafinha, que comprara briga pelo sonho de vestir a Amarelinha, sofria a primeira frustração depois de exalar a palavra que Dunga ama: comprometimento.
Seis anos depois da primeira convocação, surgiu outra oportunidade de servir à Seleção Brasileira. Rafinha chamou a atenção de Luiz Felipe Scolari em 2014. Estava comendo a bola na lateral direita do Bayern de Munique sob o comando de Pep Guardiola. Acabara de levar o clube alemão aos títulos da Liga dos Campeões da Europa, do Campeonato Alemão e da Copa da Alemanha. Tríplice coroa.
Entrevistei Rafinha em 24 de fevereiro de 2014 e perguntei sobre a multa que quase teve de tirar do bolso para defender a Seleção. “Eles ameaçaram, mas, no fim, não teve multa não. Pela Seleção Brasileira, a briga sempre vale a pena. Era a chance de disputar uma Olimpíada e pelo fato de os alemães não estarem qualificados, eles não conseguiam entender por que isso era tão importante para nós”, disse ao Correio.
Questionei se Rafinha se sentia frustrado depois de tanto esforço. “Eu fui chamado pelo Dunga após as Olimpíadas, para os jogos contra o Chile e Bolívia nas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Depois, não fui mais chamado. Entendo que temos bons laterais direitos e eles (Dunga e Jorginho) preferiram chamá-los”.

Rafinha ao Correio em 2014: “Pela Seleção Brasileira, a briga sempre vale a pena”
Rafinha se deu uma segunda chance. Deu à Seleção Brasileira uma segunda oportunidade. Parecia um conto de fadas. Foi titular de Felipão no último amistoso antes da convocação para a Copa de 2014. Vestiu a camisa 5 no Soccer City, nos 5 x 0 sobre a África do Sul. Felipão gostou tanto dele que não quis substituí-lo. Ousou até um teste: Daniel Alves na lateral esquerda no lugar de Marcelo. Na hora da convocação, mais uma decepção. Felipão, Maicon e Daniel Alves frustraram o sonho de Rafinha.
Renegado pela Seleção, o jogador que um dia peitou o próprio clube — e quase pagou multa do bolso — pelo sonho de defender a Seleção Brasileira não quis se iludir pela terceira vez. Afinal, não é todo dia que se ouve do capitão aposentado da seleção da Alemanha, Philip Lahm, que Rafinha é seu sucessor na lateral direita dos atuais campeões do mundo. A Eurocopa de 2016, na França, está muito mais próxima da realidade de Rafinha do que a Copa do Mundo de 2018 pelo Brasil. Ele sabe disso…
Seja feliz com a camisa da Alemanha, Rafinha. E tape os ouvidos para quem cantar a capela aquele trecho do Hino Nacional que você tanto lutou para ouvir em casa, perfilado com a Seleção Brasileira que fracassou na Copa de 2014. “(…)Verás que um filho teu não foge à luta (…)”. Aquele time do 7 x 1 não merecia você. A Alemanha merece. Se a Fifa permitir. Afinal, as participações no Mundial Sub-20 de 2005 e nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008 podem ser um problema…

