Blog Drible de Corpo

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Marcos Paulo Lima

Análises, opinião e lembranças do arco-da-velha sobre o futebol. 5.172 publicações

5 min de leitura

Racismo concentra 20% do conteúdo ofensivo na Copa de 2026

Fifa identifica 240 mil publicações e comentários ofensivos após revisão humana; mais da metade das pessoas amparadas pelo serviço de proteção recebeu ao menos uma mensagem desse tipo.

Aviso de combate ao racismo durante a Copa do Mundo de 2026. Foto: Reprodução/Fifa

A violência contra jogadores, treinadores e árbitros não termina quando o jogo acaba. Na Copa do Mundo de 2026, disputada no Canadá, no México e nos Estados Unidos, o ambiente digital também foi palco de racismo, xenofobia e ameaças. Às vésperas do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, a Fifa divulgou o Relatório do Serviço de Proteção nas Redes Sociais, um balanço da dimensão do problema.

Segundo a entidade máxima do futebol, mais de 17,1 milhões de publicações e comentários relacionados ao Mundial foram analisados. Desse universo, 477 mil passaram por revisão humana e 240 mil foram identificados como ofensivos.

O racismo respondeu por 20% do conteúdo ofensivo classificado em categorias específicas, sem incluir as manifestações de caráter geral. Na fase de grupos, a proporção havia sido de 11%. O relatório também identificou ameaças violentas em 14% dos casos e ataques xenofóbicos em 12%.

O retrato do ódio nas redes

Tipo de ataquePercentual
Racismo20%
Ameaças violentas14%
Xenofobia12%

Fonte: FIFA. Percentuais relativos ao conteúdo ofensivo classificado nas categorias específicas descritas no relatório.

Os números revelam a dimensão do desafio enfrentado pela entidade para conter manifestações de ódio contra os protagonistas do futebol. Mais da metade das pessoas que receberam apoio do serviço de proteção foi alvo de pelo menos uma mensagem ofensiva durante o torneio.

Inteligência artificial e revisão humana

A estratégia da Fifa combina ferramentas automatizadas, análise humana e cooperação com as plataformas digitais. Durante a competição, o sistema de moderação examinou automaticamente 60,7 milhões de mensagens publicadas nos canais oficiais da entidade e nos espaços de comunicação das federações nacionais participantes.

Desse total, 9,2 milhões de mensagens — 15% das interações monitoradas por essa ferramenta — foram bloqueadas antes de chegar ao público. O filtro abrangeu conteúdo nocivo, spam e indícios de fraude associados a contas automatizadas.

É importante distinguir os indicadores: os 60,7 milhões correspondem às mensagens submetidas à moderação automática, enquanto os mais de 17,1 milhões representam publicações e comentários relacionados ao Mundial analisados no levantamento específico. As 477 mil manifestações revisadas por pessoas integram outra etapa do processo.

A evolução tecnológica ampliou a capacidade de moderação automática. Na Copa do Catar, em 2022, a ferramenta havia analisado 13,7 milhões de mensagens, ante 60,7 milhões em 2026. Já o volume submetido à revisão humana passou de 434 mil para 477 mil.

A Fifa também informou ter detectado imagens ofensivas geradas por inteligência artificial que escaparam dos sistemas de moderação das plataformas. Segundo a entidade, o conteúdo foi removido após a intervenção.

Casos encaminhados às autoridades

O relatório mostra que o serviço não se limita a ocultar publicações. Durante a Copa, foram identificadas 2.905 contas que preenchiam os requisitos para uma possível investigação criminal. Desse total, 786 foram encaminhadas às autoridades policiais para avaliação.

Entre elas, 232 divulgaram conteúdo considerado especialmente grave e ameaçador, com potencial de representar risco à segurança. Esses casos receberam prioridade nas investigações.

A proteção também alcançou integrantes da arbitragem contra o doxing, prática que consiste na divulgação maliciosa de dados pessoais ou privados para expor alguém e incentivar perseguições.

Diretor da Subdivisão de Arbitragem da Fifa, Pierluigi Collina defendeu que os árbitros possam se concentrar no trabalho dentro de campo sem sofrer assédio nas redes. O dirigente ressaltou ainda que as mensagens ofensivas ficam expostas a familiares e amigos das vítimas.

O impacto sobre a saúde mental

Além dos números, a entidade chama atenção para as consequências humanas do cyberbullying. Jogadores, treinadores, árbitros, integrantes das delegações e seus familiares podem ser atingidos por ataques que ultrapassam o ambiente esportivo.

A Fifa alerta que o assédio virtual pode agravar o sofrimento emocional e aumentar o risco de ansiedade, estresse crônico e depressão. A divulgação do balanço às vésperas do Dia Mundial da Saúde Mental reforça a discussão sobre a responsabilidade das plataformas, das entidades esportivas e dos próprios usuários na construção de ambientes digitais mais seguros.

Presidente da Fifa, Gianni Infantino afirmou que a entidade continuará investindo em tecnologias para combater mensagens de ódio, incluindo conteúdos produzidos com inteligência artificial. Segundo ele, o serviço está disponível para apoiar as 211 federações-membro e as confederações.

O balanço evidencia que a tecnologia pode ampliar a detecção e a prevenção de abusos, mas não elimina o problema. O desafio permanece: impedir que o racismo, as ameaças e a perseguição virtual façam parte da rotina de quem trabalha ou compete no futebol.