IMG_6568 Rebatizada de Futebol Forte União, a FFU tem mais de 30 times associados. Foto: Divulgação/FFU Rebatizada de Futebol Forte União, a FFU tem mais de 30 times associados. Foto: Divulgação/FFU

Quem é Rafael Galvão, acusado de intimidar clubes da FFU

Publicado em Esporte

A reunião da CBF com os 40 clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro na última segunda-feira sem a presença de investidores da Liga do Futebol Brasileiro (LIBRA) ou da Futebol Forte União (FFU) pode ter uma justificativa: a possível perda do controle por parte de um dos blocos econômicos sobre atos de intermediários no relacionamento com os times.

 

A gestão do produto futebol passa uma fase de profissionalização, mas os bastidores do Condomínio Forte União (CFU) revelam uma face no mínimo preocupante sobre como o dinheiro tem sido usado como ferramenta de controle político.

 

Uma série de denúncias, que agora integram uma Ação Civil Pública movida pelo SINAFUT em trêmite no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) aponta para uma pressão sistemática de pressão sobre alguns clubes vinculados à Futebol Forte União.

 

Enquanto investidores discutem cifras bilionárias, no cotidiano dos clubes, o rosto da pressão é Rafael Galvão, identificado como funcionário de Carlos Gamboa, fundador da Life Capital Partners, umas das parceiras da Sports Media Entertainment (SME), um dos braços da FFU. Ele tornou-se o executor de um padrão coercitivo via WhatsApp.

 

Prints anexados ao processo mostram mensagens enviadas “todo fim de mês”, condicionando o repasse de verbas de direitos de transmissão — pertencentes aos clubes — à assinatura de atas e documentos de interesse dos investidores.

 

Em um dos registros, Galvão é categórico: “Somente estamos autorizados a realizar repasses aos clubes que estejam com todas as assinaturas devidamente regularizadas”. Dirigentes ouvidos sob anonimato classificam a prática como forma de “quase coação” para forçar a concordância com atos de gestão.

 

Embora a Ação Civil Pública indique o laço de Rafael Galvão com a Life Capital Partners, ele se apresenta na rede de relacionamentos LinkedIn como Senior Associate, “Associado Sênior) da Alvarez & Marsal. Inclusive, se apresenta assim em uma das abordagens:

 

“Boa tarde, presidente, tudo bem? Rafael Galvão da Alvarez & Marsal. Queria tratar de 2 itens da LFU com você”, introduz na conversa com um dos interlocutores.

 

A pressão não se limita a funcionários de nível operacional. O CEO da Sports Media Entertainment, Bruno Pimenta, é denunciado pelo Amazonas FC por enviar mensagens pressionando o clube a desistir de ações judiciais que pediam transparência sobre contratos com XP e BTG Pactual. O executivo questiona: “Qual vai ser sua posição? Vai retirar?”, evocando potenciais retaliações financeiras caso o processo continuasse.

 

Soma-se a isso um possível conflito de interesses: a LiveMode, agência comercial do condomínio, é também sócia do fundo investidor e proprietária da CazéTV.

 

Segundo os relatos na ação, a agência estaria em uma posição na qual comercializa os direitos dos clubes e, simultaneamente, os adquire para sua própria plataforma de transmissão. Isso tem levantado dúvidas internas sobre a imparcialidade nas negociações.

 

O ponto mais crítico da estrutura do Condomínio Forte União é a sua validade: o contrato amarra os clubes até o ano de 2074. Como mostrou o blog em um post anterior, juristas alertam que essa arquitetura fere a autonomia esportiva protegida pela Constituição.

 

A gravidade da situação levou o Ministério do Esporte a divulgar a Nota Técnica n.º 4/2026. O documento reconhece que a cessão de direitos por 50 anos a investidores financeiros apresenta “risco concreto de incompatibilidade” com o ordenamento jurídico, configurando a alienação do principal ativo econômico dos clubes.

 

Especialistas alertam para as nulidades deste contrato. Ingo Sarlet afirma que a estrutura de 50 anos representa uma “burla” ao Código Civil, que limita o prazo de indivisão de condomínios a 5 anos. Wladimyr Camargos reforça que o arranjo viola a “soberania intergeracional”, impedindo que futuras gerações de dirigentes decidam sobre o clube.

 

O argumento ganha respaldo no Supremo Tribunal Federal (ADI n.º 2.937/DF), que entende o esporte como um direito individual. A autonomia das entidades existe para servir ao cidadão e ao espetáculo, e não para ser “capturada” por interesses puramente lucrativos que asfixiam a integridade esportiva.

 

Além da Justiça Comum, o CADE investiga indícios de gun jumping (queima na largada) na operação. Se confirmada a consumação do ato antes da aprovação regulatória, todo o arcabouço contratual pode ser declarado nulo, com multas que chegam a R$ 60 milhões.

 

Segundo os especialistas em direito desportivo, o que está em jogo não é apenas uma assinatura em uma ata, mas o direito dos clubes de gerirem os próprios destinos sem que o “mensalão” dos repasses via WhatsApp seja usado como coleira. Como mostrou o blog, Em contrapartida, a FFU se blinda com um parecer dos advogados Fábio Ulhoa Coelho e Rodrigo Rocha Monteiro de Castro concluindo pela legalidade do condomínio.

 

O outro lado

 

O blog entrou em contado com Rafael Galvão, iniciou conversa, mas ele não respondeu ao questionamento se ele atesta a veracidade dos prints de WhatsApp publicados na Ação Civil Pública na qual ele pressiona dirigentes de times de futebol. O espaço segue aberto ao executivo.

 

O blog também acionou a Sports Media Entertainment sobre a atuação de Rafael Galvão na Futebol Forte União e obteve a seguinte resposta:

 

A Sports Media Entertainment (SME) informa que não foi citada na referida ação até o momento. Também esclarece que o Sr. Rafael Galvão integra a equipe da Alvarez & Marsal, consultoria contratada pelo Condomínio Forte União (CFU) para dar suporte à estrutura do mesmo. A SME reafirma que todas as suas atividades seguem rigorosos padrões de conformidade e legalidade, refutando veementemente qualquer alegação de pressão ou irregularidade na condução de seus acordos junto aos clubes.

 

E a Liga do Futebol Brasileiro (LiBRA)?

O outro bloco econômico, do qual fazem parte clubes como Flamengo e Palmeiras, não tem investidores ou intermediários. Sócios da Codajas Sports Kapital, Flavio Zveiter e Lawrence Magrath se distanciaram depois da venda dos direitos de tevê referentes ao grupo à TV Globo. O BTG também desembarcou sem ter bater martelo com o fundo árabe Mubadala.

 

A LiBRA tem assessoria jurídica do escritório de advogacia Carvalho, Sica, Muszkat, Vidigal e Carneiro (CSMV) e do publicitário Silvio Matos. O blog apurou que nenhum desses representantes foi convidado nem esteve na última segunda-feira no Hotel Hilton, na Barra do Tijuca, na reunião entre a CBF e os 40 clubes.

 

Leia também

Ação no TJDFT expõe racha entre investidores e clubes da liga FFU

 

X: @marcospaulolima

Instagram: @marcospaulolima.jor