Opinião: Futebol passa pano no racismo

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Justiça desportiva contraditória a nossa, hein! Para educadamente dizer o mínimo. Em 2014, excluiu o Grêmio da Copa do Brasil por unanimidade (5 x 0) nas oitavas de final devido às injúrias raciais da torcedora tricolor Patricia Moreira contra o goleiro negro Aranha, do Santos, na Arena, em Porto Alegre. Sete anos depois, passa o pano. Ameniza por 5 x 2 a pena do Brusque na Série B do Campeonato Brasileiro no episódio em que o réu confesso Júlio Antônio Petermann — presidente do Conselho Deliberativo do clube catarinense —, ofendeu o jogador Celsinho, do Londrina, em 28 de agosto, no Estádio Augusto Bauer, com “vai cortar o cabelo, seu cachopa de abelha”.

Neste Dia Nacional da Consciência Negra, lamento admitir que, ao menos no futebol, regredimos. Há sete anos, o Grêmio era eliminado da Copa do Brasil. Imagens flagraram parte da plateia, especificamente Patricia Moreira, ofendendo o goleiro Aranha. Mandante da partida disputada naquele 0 x 0 de 28 de agosto de 2014 — curiosamente a mesma data das ofensas a Celsinho em 2021 —, o clube gaúcho foi responsabilizado pelos atos da torcedora.

À época, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) excluiu o Grêmio, aplicou multa de R$ 50 mil e os agressores identificados ficaram impedidos de entrar em praças desportivas por 720 dias. A relevância histórica do julgamento foi exaltada. Houve quem acreditasse que, depois da condenação severa ao Grêmio, as cenas de racismo jamais se repetiriam.

Aconteceu novamente, sim. Em um estádio pequeno. Vazio. Sem ruídos. Com acústica ótima para o agressor, o agredido e quem mais quisesse ouvir. Celsinho estava no banco de reservas. Escutou “vai cortar o cabelo, cachopa de abelha” e não se calou. Interrompeu o jogo. Chamou a arbitragem. O dirigente foi identificado e testemunhas comprovaram as ofensas. A arbitragem relatou a apuração na súmula.

Em setembro, o STJD havia punido o Brusque com perda de três pontos e multa de R$ 60 mil. A pena do dirigente: afastamento da função por 360 dias e pagamento de R$ 30 mil.

O castigo mudou na quinta. Os três pontos foram devolvidos ao Brusque. Ajudaram o clube a escapar da queda, ontem, com a vitória sobre o Operário-PR. O time perderá um mando de campo em 2022. Os auditores Felipe Bevilacqua, Mauro Marcelo, Luiz Felipe Bulus, Ivo Amaral e Sérgio Martinez votaram pela redução da pena. Vencidos, Maurício Neves Fonseca (relator) e Paulo Sérgio Feuz pediram desculpas a Celsinho.

A incrível reviravolta deixa quem acompanha os bastidores do futebol e da política com uma pulga atrás da orelha. O Brusque tem como patrocinador máster Luciano Hang — dono da Havan e um dos principais apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Logo, cair para a Série C não seria um bom negócio a essa altura do início da corrida eleitoral.

*Coluna publicada na edição deste sábado (20/11/2021) do Correio Braziliense.

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Marcos Paulo Lima

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