Blog Drible de Corpo

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Marcos Paulo Lima

Análises, opinião e lembranças do arco-da-velha sobre o futebol. 5.179 publicações

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O recorde de Adson e o cala-boca do Vasco na Bombonera

Atacante chega a cinco gols na Sul-Americana, marca inédita em uma mesma competição na carreira, e decide a vitória por 1 x 0 sobre o Boca Juniors; com um jogador a menos, Vasco resiste à pressão argentina

Adson: cinco gols nesta edição da Copa Sul-Americana. Foto: JUAN MABROMATA / AFP

La Bombonera tem fama de intimidar visitantes. O Vasco, porém, encontrou uma maneira de transformar a pressão argentina em combustível para uma noite de afirmação. Com organização, personalidade e resistência depois de perder um jogador, o time cruz-maltino venceu o Boca Juniors por 1 x 0 nesta terça-feira e deu um passo importante rumo à final da Copa Sul-Americana. O resultado também entrou para a história do confronto: foi a primeira vitória vascaína sobre os argentinos na temida arena xeneize.

O gol teve assinatura de Adson. O atacante aproveitou o cruzamento de Andrés Gómez e cabeceou para as redes no início do primeiro tempo. Foi o quinto dele na edição de 2026 da Sul-Americana, recorde pessoal em uma única competição. A marca confirma o protagonismo do meia-artilheiro cruz-maltino em uma campanha na qual tem sido decisivo nos momentos importantes.

De Andrés Gómez a Adson

Adson havia balançado as redes contra o Olimpia e o Barracas Central, adversário argentino diante do qual marcou duas vezes. Também fez gol no confronto com o Olimpia pelo mata-mata. Contra o Boca, voltou a decidir. Cinco gols em uma mesma edição de torneio representam um novo patamar para quem é acostumado a dar assistências.

O lance decisivo nasceu da participação de Andrés Gómez. O colombiano ofereceu profundidade ao ataque e colocou a bola na medida para Adson concluir de cabeça. A importância do colombiano para o Vasco não se resume à assistência: é uma peça relevante na construção ofensiva e na capacidade de acelerar as jogadas pelos lados.

A noite de Andrés Gomez teve uma reviravolta. Expulso no segundo tempo, ele deixou a equipe em inferioridade numérica e obrigou o Vasco a mudar as prioridades. A partir do cartão vermelho displicente, a vantagem mínima exigiu outro tipo de atuação: menos espaço para atacar, mais compactação e atenção redobrada às investidas do Boca.

A expulsão foi um ponto de inflexão. Até então, o Vasco conseguia competir sem se limitar à defesa. Depois, precisou administrar o resultado em um ambiente programado para empurrar o Boca contra os adversários. Gómez será uma ausência importante na sequência da série semifinal.

Sosa e Saldivia: resistência

A vitória não se explica apenas pelo gol de Adson nem pela capacidade de suportar a pressão. Santiago Sosa e Alan Saldivia tiveram atuações de alto nível e ajudaram a dar consistência à proteção da área. Os dois se destacaram pela leitura defensiva, pela firmeza nos duelos e pela atenção aos movimentos dos atacantes argentinos.

Sosa foi importante para fechar espaços e manter o equilíbrio da equipe. Saldivia respondeu com segurança nos enfrentamentos e nas ações de cobertura. Quando o Boca aumentou a presença no campo ofensivo, a concentração dos defensores passou a ser tão importante quanto a vantagem construída no primeiro tempo.

Com um jogador a menos, o Vasco precisou reduzir as distâncias entre os setores e proteger os corredores. A equipe recuou, aceitou ceder terreno e concentrou esforços em impedir que a pressão argentina se transformasse em chances claras em sequência. O Boca chegou a acertar a quina da trave, mas não conseguiu superar a resistência cruzmaltina.

Dois jogos en um só

A leitura tática exige separar os momentos da partida. Antes da expulsão, o Vasco conseguiu pressionar a saída adversária e disputar a posse em condições competitivas. Em diferentes fases, apresentou uma estrutura próxima do 4-4-2 variável para 5-3-2, com movimentações mutantes de acordo com a localização da bola e a necessidade de fechar os espaços.

Depois do cartão vermelho, a equipe se reorganizou para defender com 10 jogadores, aproximando as linhas e deixando menos gente à frente da bola. O desenho passou a se assemelhar a um 4-4-1 em determinados momentos, com a prioridade de proteger a área e evitar que o Boca encontrasse brechas entre os setores.

Não se tratava apenas de recuar. Era preciso manter a concentração, disputar as segundas bolas e impedir que cada cruzamento se transformasse em uma nova oportunidade para os donos da casa. Sosa e Saldivia foram fundamentais nessa missão, assim como o esforço coletivo para fechar os caminhos até o gol.

Para poucos…
Times brasileiros que venceram em La Bombonera
1963: Santos (Libertadores)
2003: Paysandu (Libertadores)
2008: Internacional (Libertadores)
2020: Internacional (Sul-Americana)
2026: Vasco (Libertadores)

O Boca cresceu territorialmente após a expulsão, mas a superioridade numérica não bastou. O Vasco suportou a pressão sem perder de vista o que havia conquistado. A trave também entrou na história, como costuma acontecer em partidas decididas nos detalhes, mas o resultado foi sustentado por uma equipe valente. O Vasco soube adaptar o plano de jogo ao cenário.

A vitória não encerra a semifinal. Deixa, entretanto, o Vasco em posição favorável para a partida de volta: um empate garante a classificação à decisão. Adson sai de Buenos Aires com um recorde pessoal; Sosa e Saldivia, com a confirmação de uma atuação de alto nível; e o time de Pedro Manuel, com a prova de que consegue competir mesmo diante de uma adversidade que poderia mudar o rumo do confronto.

La Bombonera não ficou em silêncio durante os 90 minutos. Mas, na primeira parte da semifinal, o Vasco fez o Boca ouvir o recado do placar.