Memphis Depay e
FBL-LIBERTADORES-CORINTHIANS-ROSARIO Memphis Depay e Breno Bidon: os caras do bando de loucos na vitória. Foto: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians Memphis Depay e Breno Bidon: os caras do bando de loucos na vitória. Foto: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

O Alienista explica: a noite machadiana do Corinthians na Libertadores

Publicado em Esporte

O Corinthians não descobriu agora a própria loucura. A torcida canta isso há décadas: “Aqui tem um bando de louco (…)”. É praticamente a placa na porta.

Peço licença a Machado de Assis e a Simão Bacamarte para trocar a cor da fachada. Onde o escritor criou a Casa Verde, em Itaguaí, o Corinthians poderia perfeitamente instalar a Casa Alvinegra.

E não apenas porque o verde pertence ao rival. No Parque São Jorge, a loucura ganhou identidade própria.

O Corinthians é um hospício no qual a insanidade nunca se apresenta da mesma maneira. A cada dia, surge um diagnóstico novo. O que era definitivo deixa de ser. O que parecia absurdo passa a fazer sentido. Uma decisão tomada ontem pode ser desmentida hoje sem que ninguém precise assumir a autoria do diagnóstico anterior.

Bacamarte teria material de sobra.

A última experiência atende pelo nome de Memphis Depay.

Primeiro, o holandês estava fora dos planos. O Corinthians decidiu dispensá-lo. Depois, recuou. Mudou o diagnóstico. Memphis voltou a fazer parte dos planos e a renovação do contrato entrou novamente no horizonte.

O jogador que era problema passou a ser solução.

Machado provavelmente pediria uma cadeira.

Em O Alienista, Simão Bacamarte se dedica a identificar os loucos de Itaguaí. O problema é que, quanto mais avança na experiência, mais difícil fica estabelecer quem está dentro ou fora da normalidade. O critério muda. O diagnóstico muda. Aquilo que parecia razão pode, algumas páginas depois, parecer loucura.

No Corinthians, existe uma diferença fundamental: o diagnóstico costuma depender do placar.

Memphis não servia? Serve.

O contrato estava praticamente encerrado? Pode continuar.

A crise parecia administrativa? Talvez não seja tão grave.

O jogador estava fora do projeto? Então que bata a falta.

Foi assim contra o Rosario Central.

Memphis cobrou a bola parada. Breno Bidon apareceu para mandar a bola para a rede e decretar a vitória. Em poucos segundos, o jogador que atravessara uma crise contratual virou parte da jogada que produziu o resultado.

A Casa Alvinegra respirou.

Eis a especialidade do Corinthians: a loucura está sempre surpreendendo.

Bacamarte provavelmente passaria algumas semanas no Parque São Jorge tentando entender como uma decisão definitiva pode ser revista antes de produzir qualquer consequência. Talvez interrogasse dirigentes, jogadores e conselheiros. Talvez pedisse acesso às atas. Talvez tentasse descobrir em qual momento a razão deixou o prédio.

No fim, poderia concluir que o Corinthians não tem exatamente um problema de loucura.

Tem excesso de diagnósticos.

Cada derrota cria uma teoria. Cada crise produz um culpado. Cada vitória ressuscita uma decisão que parecia errada. E cada gol oferece à Casa Alvinegra uma nova oportunidade de provar que, afinal, todos estavam certos.

O mais machadiano de tudo é que ninguém parece completamente certo — nem completamente errado.

Memphis talvez não fosse o problema. Também não virou automaticamente a solução porque cobrou uma falta. Breno Bidon não resolveu a crise corintiana ao marcar o gol. Mas o futebol tem essa capacidade extraordinária de transformar uma noite em argumento.

Uma falta cobrada pelo jogador que estava sendo dispensado, um gol do garoto e uma vitória bastaram para reorganizar temporariamente a realidade.

Temporariamente.

Porque a Casa Alvinegra não fecha.

E o próximo diagnóstico está sempre à espera.

Machado de Assis criou a Casa Verde para descobrir quem era louco em Itaguaí. No Corinthians, talvez Simão Bacamarte tivesse uma dificuldade maior.

Precisaria descobrir quem está fazendo os diagnósticos.

No fim das contas, talvez a loucura corintiana não esteja em mudar de ideia.

Loucura é acreditar que a próxima decisão será definitiva.

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