Blog Drible de Corpo
Marcos Paulo Lima
Esporte 4 min de leitura
Matheus Cunha resgata a mística do “Fergie Time” no Teatro dos Sonhos
A virada do Manchester United construída com dois gols de Matheus Cunha tem um peso histórico que talvez nem ele saiba dos tempos dourados de Sir Alex Ferguson
O relógio pode até ser inimigo da maioria dos times, mas sempre teve um significado diferente para o Manchester United de Sir Alex Ferguson. Em Old Trafford, os minutos finais não representavam necessariamente a contagem regressiva para o fim de uma partida. Muitas vezes, anunciavam o início de um pesadelo para os adversários. O Fergie Time virou uma marca registrada de uma equipe especialista em desafiar o impossível, empurrada pela tradição, pela atmosfera do estádio e pela convicção de nunca desistir. Contra a Roma, essa velha identidade deu sinais de vida.
A expressão ganhou espaço no vocabulário do futebol inglês nos anos 1990. A primeira referência registrada pelo jornal The Guardian apareceu em março de 1998, numa provocação sobre os minutos adicionais supostamente generosos destinados ao Manchester United. A fama, entretanto, vinha de antes. Em abril de 1993, Steve Bruce marcou dois gols nos instantes finais contra o Sheffield Wednesday, em Old Trafford, numa vitória fundamental para a caminhada rumo ao primeiro título da Premier League sob o comando de Ferguson.
Mas foi em Barcelona, em 26 de maio de 1999, que a mística alcançou dimensão universal. Na decisão da Liga dos Campeões, o Bayern de Munique vencia por 1 x 0 até os acréscimos. Teddy Sheringham empatou aos 46 minutos do segundo tempo. Pouco depois, Ole Gunnar Solskjaer aproveitou a cobrança de escanteio de David Beckham e decretou a virada por 2 x 1. Em aproximadamente três minutos, o United conquistou a Europa e completou a histórica tríplice coroa, com os títulos inglês e da Copa da Inglaterra. Sir Alex Ferguson havia transformado a insistência em uma virtude coletiva.
A vitória por 3 x 2 sobre a Roma recuperou um pouco daquela atmosfera. O Manchester United foi para o intervalo perdendo por dois gols, depois de sofrer com os próprios erros e a eficiência italiana. A reação começou com Bruno Fernandes, de pênalti, e ganhou contornos épicos nos minutos finais. Matheus Cunha marcou duas vezes, aos 38 e aos 41 da etapa complementar, para inverter o placar em Old Trafford. Uma noite de redenção para uma equipe pressionada por nove partidas sem vencer.
O brasileiro assumiu o papel principal. Em oito minutos, concentrou praticamente todos os ingredientes de uma história improvável: balançou a rede duas vezes, tirou a camisa para comemorar com a torcida, recebeu o primeiro cartão amarelo e acabou expulso após nova advertência por uma falta. Uma participação tão intensa quanto contraditória. Herói da reação, Cunha deixou o gramado antes do apito final. A explosão de alegria quase cobrou um preço alto demais.
Há algo de emblemático nessa sequência. Cunha personifica um Manchester United capaz de produzir momentos de enorme intensidade, mas ainda sujeito a episódios de descontrole. O talento individual resolveu uma partida complicada; a expulsão, por sua vez, lembrou a importância do equilíbrio emocional em uma equipe submetida a tanta pressão. O brasileiro foi protagonista da noite, tanto pela capacidade de decisão quanto pelo excesso na comemoração.
A referência a Ferguson vai além da coincidência de uma virada nos instantes derradeiros. O escocês construiu uma cultura competitiva na qual a persistência fazia parte do repertório. Os times dele não precisavam dominar os 90 minutos para continuar acreditando na vitória. Sabiam transformar a urgência em combustível, ocupar o campo adversário e fazer o relógio trabalhar a favor da pressão. O Fergie Time não era apenas uma discussão sobre acréscimos. Era uma mentalidade.
A noite contra a Roma oferece ao torcedor uma lembrança dessa herança. Também impõe uma reflexão: recuperar a mística é diferente de reconstruir uma identidade. Uma vitória espetacular pode devolver confiança, aproximar arquibancada e equipe e criar um ambiente favorável à retomada. A consistência, entretanto, depende de trabalho, organização e continuidade. Nenhum clube vive indefinidamente de lembranças, por mais gloriosas que sejam.
O Manchester United ainda tem uma longa caminhada para voltar ao patamar de excelência estabelecido por Sir Alex Ferguson. Mas noites como essa ajudam a alimentar a esperança. Em Old Trafford, a Roma descobriu da maneira mais dolorosa uma velha lição: enquanto houver tempo no cronômetro, o United não pode ser considerado derrotado.
Desta vez, a assinatura da virada foi brasileira. Matheus Cunha escreveu o nome dele em uma noite de inspiração, excessos e emoção. O Fergie Time ganhou uma nova versão. E Old Trafford voltou a acreditar.