A inversão dos papéis: como o Brasil passou de exportador a importador de técnicos portugueses

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Houve um tempo em que o sonho natalino de consumo do brasileiro era bacalhau, vinho português e uns pasteizinhos de Belém na sobremesa. Em contrapartida, os patrícios cobiçavam nossos pés e mãos de obra qualificados. As grandes navegações vinham buscar os melhores jogadores de futebol e — acredite — os técnicos também.

Otto Glória levou Portugal à terceira posição na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Guiou o Benfica ao vice contra o Manchester United na Copa dos Campeões da Europa em 1968 — atual Champions League. Luiz Felipe Scolari brindou a seleção lusitana com o quarto lugar no Mundial da Alemanha, em 2006, e o segundo na Euro-2004.

Paulo Autuori comandou o Benfica. Flávio Costa, Dorival Knipel, vulgo Yustrich, Paulo Amaral, Aymoré Moreira e Carlos Alberto Silva lideraram o Porto. Paulo Emílio e Marinho Peres foram donos da prancheta do Sporting. Abel Braga passou por Famalicão, Belenenses e Vitória de Setúbal. Paulo César Gusmão e outros profissionais daqui tiveram dias de rei lá na terrinha.

O tempo passou. A balança comercial está desequilibrada. Continuamos querendo bacalhau, vinho, pastel de Belém e, agora, adicionamos no carrinho de compras técnicos portugueses. A torcida do Palmeiras idolatra Abel Ferreira, campeão da Copa do Brasil (2020) e bi da Libertadores (2020 e 2021). A “nação rubro-negra” aguarda a segunda vinda de Jorge Jesus — protagonista de cinco títulos na passagem pelo Flamengo: Libertadores, Brasileiro, Supercopa do Brasil, Recopa Sul-Americana e Carioca.

Ingenuidade nossa achar que o sucesso dos treinadores lusitanos é obra e graça tão somente do suor do trabalho deles. Há toda uma engenharia nos bastidores. Os empresários portugueses começam a dominar o mercado brasileiro. Vou dar um exemplo. O agente de Abel Ferreira chama-se Hugo Cajuda. Ele é dono da FIA Football & Management. Em 2020, o executivo de 42 anos tinha dois técnicos no Brasileirão: Abel Ferreira (Palmeiras) e Ricardo Sá Pinto (Vasco). No mesmo período, levou para São Januário o lateral Léo Matos.

A lista de candidatos portugueses ao cargo de técnico do Flamengo tem dois xarás: Paulo Sousa, atual comandante da seleção da Polônia, e o desempregado Paulo Fonseca, com passagem por Roma, Shakhtar Donetsk e Porto.

Há um elo entre os Paulos Sousa e Fonseca. O empresário. O nome dele? Hugo Cajuda! Coincidência, não?! Sim, o mesmo de Abel Ferreira. Se Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, o competente Cajuda redescobriu o eldorado.

Há quem insista na tese de que não há técnicos brasileiros na Europa por causa da barreira do idioma. Tá, mas por que paramos de exportar treinadores para Portugal? Porque regredimos. Lembra que listei no início do texto treinadores daqui responsáveis pela evolução do futebol d’Além Mar? Agora, nós os queremos desesperadamente. Paramos no tempo. Involuímos. E você aí, contando piada de português…

Coluna publicada na edição de sábado (18/12) do Correio Braziliense.

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Marcos Paulo Lima

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