Inter, Abel e a velha mania dos times brasileiros de fazer escolhas afetivas

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O que Abel Braga fez recentemente para merecer assumir o líder isolado do Brasileirão? Maus trabalhos no Flamengo, Cruzeiro e Vasco. A diretoria do Internacional sabe disso – ou, talvez, faça vista grossa por um motivo simples: a escolha do sucessor de Eduardo Coudet é muito mais afetiva do que racional.

Abel deu ao clube o Mundial de Clubes e a Libertadores em 2006. Dois títulos do Campeonato Gaúcho nas edições de 2008 e 2014. A escolha por Abel é uma guinada em relação aos conceitos do técnico argentino, mas o coração colorado falou mais alto.

O Internacional não é o primeiro nem será o último a tomar decisões passionais. A temporada está cheia dessas histórias. Quem era o técnico do Botafogo até pouco tempo? Paulo Autuori, mentor do último título brasileiro do time alvinegro. Brilhou em 1995. Não necessariamente teria sucesso na sexta passagem pelo clube carioca, mas a diretoria cria que sim por causa de um passado distante, ou seja, de 25 anos atrás. Autuori saiu. Hoje, comanda o Athletico-PR.

Em meio a uma crise sem fim, o Vasco recorreu a Antônio Lopes para o papel de coordenador técnico. A diretoria tinha razões afetivas de sobra para contratá-lo. Uma delas, o título da Copa Libertadores da América de 1998. Não levou isso em conta ao dispensá-lo no mesmo pacote da comissão técnica comandada à época por Ramon Menezes.

O Palmeiras também fez escolha afetiva. Pensou evitar ao abrir negociação com Jorge Sampaoli e lembrou a história da relação de Vanderlei Luxemburgo com o clube alviverde. O professor acumula dois títulos brasileiros no currículo à frente do time (1993 e 1994), um Torneio Rio-São Paulo (1993) e cinco do Campeonato Paulista (1993, 1994, 1996, 2008 e 2020).

O Cruzeiro também fez escolha afetiva. Embora tenha largado o trabalho no time celeste para assumir a Seleção Brasileira em 2001, Luiz Felipe Scolari deixou portas abertas no clube ao chegar às semifinais da Copa João Havelange 2000 e ao título da Copa Sul-Minas em 2001.

Não há certeza de que Abel Braga dará certo no Inter. Também é injusto cravar que será fiasco com base nos desempenhos recentes no Flamengo e no Cruzeiro. É curioso, no entanto, notar a mudança de discurso.

Abel costumava recusar convites para assumir times com o bonde andando, ou seja, com a temporada em andamento. Disse sim ao Cruzeiro em setembro de 2019. Diz sim ao Inter em novembro de 2020. Aquela convicção do treinador de que trabalho bom é desde o começo foi para o ralo.

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Marcos Paulo Lima

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