Blog Drible de Corpo

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Marcos Paulo Lima

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Kane e a Bola de Ouro: a resistência e reinvenção do camisa 9 raiz

Em tempos de falso nove, o atacante do Bayern de Munique e da Inglaterra preserva a força dos autênticos centroavantes ao vencer o prêmio de melhor do mundo na temporada 2026/2027

Harry Kane fez 73 gols, deu 8 assistências e foi linear em todos os torneios para ganhar a Bola de Ouro. Foto: Franck Fife/AFP

 A Bola de Ouro consagra pela segunda vez, em cinco anos, um centroavante melhor do mundo. Em 2022, o francês Karim Benzema. Quatro anos depois, o inglês Harry Kane. Dois estilos diferentes, mas símbolos da resistência aos tempos de devoção ao falso nove. Das oito seleções campeãs mundiais, apenas duas têm titulares com essas características: a Inglaterra de Kane e a Itália de Sebastiano Esposito.  

Olhem para os grandes clubes da Europa. Raphinha é o centroavante postiço do Barcelona. Mbappé é a referência do Real Madrid. Dembélé é o dono da posição no PSG, atual bicampeão da Champions League. Kai Havertz foi transformado em centroavante. Há exceções. Uma delas, óbvio, o Bayern de Munique de Kane. O Manchester City desfruta de Erling Haaland. A Internazionale conta com Marcus Thuram e Lautaro Martínez.

Os centroavante autênticos têm sofrido horrores. No Brasil, Pedro disputa espaço com Bruno Henrique. Flaco López sabe o quanto caminhou para atingir o status de ídolo do Palmeiras. No ano passado, Pablo Vegetti ficou no banco de reservas em troca de Rayan.

Willian José amarga reserva no Bahia. A tolerância da torcida do Botafogo é zero com Arthur Cabral. Carlo Ancelotti inicia a Copa do Mundo contra Marrocos com Igor Thiago e desiste dele depois da estreia. Matheus Cunha virar arco e flecha no restando do torneio.

A conquista inédita de Harry Kane é justamente por esse motivo. O nove dos novos tempos não pode se limitar à área, ou seja, um jogador fixo em torno do qual o time orbita. Aos 33 anos, o inglês entrega participação intensa e quase total em várias posições.

Kane é centroavante raiz. Balançou a rede 73 vezes na temporada 2025/2026. A conta inclui bolas na rede com a camisa da seleção inglesa. Mas Kane também recua com extremo talento para cumprir o papel de meia. A prova disso? Oito assistências! Benzema fez menos gols em 2021/2022 (49), porém entregou mais assistências (16) na comparação com Kane.

Os jurados da Bola de Ouro acertam na escolha de Kane ao aferir a regularidade do craque na temporada de 2025/2026. Ele jogou muito no Campeonato Alemão, na Copa da Alemanha, na Champions League e na Copa do Mundo.

Por falar no torneio da Fifa, eu defendo sempre que o evento quadrianual da Fifa tem prêmios próprios. Rodri foi eleito o melhor. Justo, mas poderia ter sido Mbappé, Messi ou o próprio Kane. O mérito da Bola de Ouro foi colocar na balança a temporada inteira — e não somente 39 dias de performance. O sindicato dos camisas 9 raiz agradece.

Em tempo, lembro que outro baita centroavante, o polonês Robert Lewandowski, ganhou duas vezes o Fifa The Best, mas não ganhou a Bola de Ouro. Foi vice de Messi em 2021.