Do Orlando City ao Flamengo: o dia em que Léo Pereira foi lateral e a resistência ao 3-5-2

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Rogério Ceni jura que projetou o Flamengo com linha de quatro defensores — e não três —no empate por 2 x 2 com a Liga Deportiva Universitaria (LDU) pela penúltima rodada da fase de grupos da Libertadores. Resumindo: alegou que Léo Pereira era lateral-esquerdo, não beque. Vi diferente. Quando tinha a bola, o time formava linha de três, sim. Sem ela, quatro.

O sistema tático 3-5-2 consagrou Carlos Bilardo (Argentina), Franz Beckenbauer (Alemanha) e Luiz Felipe Scolari (Brasil) na Copa do Mundo. Há pelo menos dois vícios no Brasil. Considerar que três zagueiros ou três volantes é retranca, como se fosse uma verdade absoluta. Nào necessariamente. Não havia retranca naquelas seleções. Todas foram campeãs com o melhor ataque: 14, 15 e 18 gols marcados, respectivamente. Entretanto, a resistência ao modelo impressiona. A vergonha de sair do armário e assumi-lo, também.

O técnico do Flamengo não admitiu o protótipo de 3-5-2. Explicou na entrevista coletiva pós-jogo: Léo Pereira cumpriu a função de Filipe Luis numa linha com quatro. Argumentou que o beque jogou nessa posição. Verdade. Mas é quase uma exceção no currículo dele. Léo Pereira passou pelo Orlando City em 2017. Tinha 21 anos. Estava emprestado ao clube dos EUA.

Em 30 de março de 2017, o Orlando City B perdeu por 3 x 1 para o Louisville City pela USL Championship.  O técnico Anthony Pulis escalou o time no 4-4-2. A linha defensiva do Orlando tinha Aiston, Donovan, Carroll e… Léo Pereira no papel de lateral-esquerdo (assista ao jogo no vídeo que encerra o post).

Independentemente do sistema tático, noto implicância com o sistema 3-5-2 e suas variáveis no Brasil. Encheram o saco do Hernán Crespo no São Paulo. Torraram a paciência do Abel Ferreira no Palmeiras. Questionaram Vágner Mancini por recorrer ao formato no Corinthians. Rogério Ceni foi detonado nas redes sociais por usar o esquema no primeiro tempo.

A questão não é o 3-5-2, mas, sim, quem o executa. Tanto o técnico como os jogadores. Esse sistema consagrou a Argentina campeão da Copa de 1986, no México. Os três beques eram Cuciuffo, Brown e Ruggeri. Levou a Alemanha ao tri em 1990, na Itália. Buchwald, Aughenthaler e Kohler formavam as três torres. Brindou o Brasil com o penta em 2002 com a trinca formada por Lúcio, Edmílson e Roque Júnior. Não havia retranca. Muito pelo contrário. Os três esquadrões eram muito ofensivos. Deu para entender?

Vou explicar: três zagueiros exigem outro patamar de… zagueiros. Rogério Ceni conhece bem o sistema. Foi campeão da Libertadores e Mundial em 2005 no 3-5-2 sob a batuta de Paulo Autuori. Empilhou o tricampeonato no Brasileirão com o São Paulo com três zagueiros em 2006, 2007 e 2008 na Era Muricy Ramalho. Funcionou porque havia material humano qualificado.

Rogério Ceni escalou Bruno Viana, Gustavo Henrique e Léo Pereira. Ele, o elenco e a torcida do Flamengo têm confiança zero neles. O melhor dos beques para esse tipo de sistema vive no departamento médico. Rodrigo Caio foi volante antes de virar zagueiro. Tem noção. E nem coloquei Willian Arão em questão. Aliás, a história do jogo poderia ter sido outra se ele, que atuou como volante contra a LDU, não tivesse sido expulso. O sistema com três zagueiro poderia, inclusive, estar sendo aplaudido, hoje, se o Flamengo não tivesse ficado com 10 durante longos e quase intermináveis 80 minutos no confronto válido pela Libertadores.

Defendo sempre que times precisam ter repertório. Mais de uma forma de jogar. Duas ou três variações de sistema tático. Rogério Ceni não está errado ao testar um jeito diferente de armar o Flamengo. O equívoco gravíssimo é colocá-lo em prática com as peças escolhidas — e em um jogo valendo classificação para as oitavas de final da Libertadores. Havia lateral-esquerdo especializado no banco de reservas. Promissor, por sinal. Mas ele pediu para tomar pau da crítica e da torcida. Merecido.

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Marcos Paulo Lima

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