Neymar na última aparição na Copa: lágrimas após eliminação contra a Croácia em 2022. Foto: Nelson Almeida/AFP
Neymar só foi confrontado — e esteve na berlinda — duas vezes em 16 anos na Seleção Brasileira: a primeira no início da carreira, aos 18 anos, quando desejava disputar a Copa do Mundo em 2010. O técnico Dunga não levou nem ele nem Paulo Henrique Ganso à África do Sul. Ambos tiveram um início de ano fantástico. A segunda é agora, a caminho do fim de carreira, na gestão do italiano Carlo Ancelotti.
Mano Menezes, Luiz Felipe Scolari, Tite e Fernando Diniz orbitaram em torno de Neymar. Dorival Júnior não conseguiu chamá-lo uma única vez, mas começou a perder o cargo ao dizer, há um ano, que planejou o Brasil para jogar em torno de Neymar.
Lançado em 2009 no Santos, Neymar levou o time alvinegro ao título do Paulistão contra o Santo André em parceria com o meia Paulo Henrique Ganso. Na sequência, brindou o time com a conquista da Copa do Brasil contra o Vitória. Dunga não se sensibilizou com ele.
“O desenvolvimento desses jogadores (Neymar e Ganso) se deu em fevereiro e março. Vocês acham que o jogador, por maior potencial que tenha, vai estar preparado para uma pressão de Copa do Mundo? Pode até ser que tenha, mas pela experiência de outras Copas não é isso que se vê”, argumentou Dunga no dia da convocação para a Copa de 2010.
Neymar deixou de ir à primeira Copa com menos de 20 anos. Frustrou-se e frustrou quem desejava vê-lo no mínimo no frágil banco de reservas montado por Dunga e Jorginho para a Copa do Mundo de 2010. Felipão foi o primeiro a levá-lo em 2014, aos 22 anos.
O tempo passou. Neymar também disputou a Copa em 2018 e 2022 como dono da Seleção nos seis anos e meio de trabalho do Aderno Leonardo Bachi, o Tite. Nem psicólogo havia na comissão técnica porque o camisa 10 não gostava. O treinador da Seleção contava com uma assessoria externa quando precisava, tamanho o empoderamento do astro do time.
Neymar tem 34 anos. Partiu dele a iniciativa de começar a falar em pendurar as chuteiras em meio a uma luta dele — com ele mesmo — contra as lesões, a falta de condicionamento e um certo cansaço físico e mental para entregar a melhor versão possível. Carlo Ancelotti notou isso e está levando o único fora de série do Brasil nos últimos 16 anos ao limite para entender se ele realmente deseja disputar a Copa do Mundo pela última vez na carreira.
Incrível notar a diferença entre os dois momentos nos quais Neymar ficou nas cordas. Em 2010, o Brasil inteiro estava com ele. Desejava vê-lo na Copa da África do Sul. Dunga manteve a convicção dele contra tudo e todos. Apanhou da torcida e da imprensa.
Dezesseis anos depois, a ida de Neymar para a Copa de 2026 não tem a unanimidade de 2010. Não haverá manifestação na Esplanada de Ministérios, na Avenida Paulista ou na Orla de Copacabana se Carlo Ancelotti decidir não o convocar em 18 de maio. Neymar virou símbolo até de questões políticas. Quem o ama é de direita, quem odeia é da esquerda.
Neymar está nas cordas pela segunda vez na relação com a Seleção. Em 2010, dependia da boa vontade do Dunga para ir à África do Sul. Em 2026, está entregue à própria sorte. Depende de si para sair do canto no ringue e convencer o “árbitro” Carlo Ancelotti de que a luta para embarcar rumo aos Estados Unidos não acabou. A areia da ampulheta aponta que o maior artilheiro da história da Seleção tem 10 jogos até o anúncio da lista final.
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