DDI para Baku: o dia em que o capita me atendeu para falar sobre o Azerbaijão

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Foram muitas entrevistas com Carlos Alberto Torres. A maioria por telefone. Eu, de Brasília, ele do Rio. Mas um bate-papo não sai da memória. O capitão do tri resolveu se aventurar como técnico da seleção do Azerbaijão nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006. Sugeri a pauta ao então editor Marcelo Agner e agendei uma conversa sobre o novo desafio. Eu trabalhava no Jornal de Brasília na época. Pedi para a secretária Cleide Baia fazer uma ligação internacional para Baku e ela tomou um tremendo susto. “Pra onde???” Baku, repeti. Foi divertido. Do outro lado da linha ele estava esperando no horário combinado.

Carlos Alberto Torres gentilmente atendeu direto da capital da ex-república soviética. Conversamos um tempão sobre a cultura do Azerbaijão, política, futebol, como ele foi parar lá… Antes de desligar, fez até um convite para que desse um pulinho lá para ver o trabalho dele de perto e conhecer o Azerbaijão. Carlos Alberto Torres comandou o Azerbaijão de 18 de fevereiro de 2004 a 4 de junho de 2005. Das 18 partidas sob seu comando, ganhou duas, empatou seis e perdeu 10, aproveitamento de 11,1%. Nas Eliminatórias, deu o azar danado de cair no grupo da Inglaterra, que tinha um timaço comandado por Sven-Goran Eriksson. Mesmo assim, perdeu em casa só de 1 x 0 e orgulhou a torcida.

Minha última lembrança de Carlos Alberto Torres não é uma entrevista dada a mim, mas aos colegas André Rizek e Roberto Avallone, no programa Redação SporTV. Na edição do último dia 18, Rizek pediu para o capita comentar, um a um, sobre técnicos que o treinaram na Seleção Brasileira, e ele soltou a língua. Entrou no túnel do tempo. Disse que Vicente Feola não acrescentou nada em sua carreira, detonou a bagunça da CBD nos preparativos para a Copa do Mundo de 1966, fez elogios a João Saldanha e a Mário Jorge Lobo Zagallo, mas deixou claro que o melhor “professor” com quem trabalhou foi Elba de Pádua Lima, o Tim. Em alguns momentos, parecia até uma entrevista de despedida.

Reproduzo a seguir o que disse Carlos Alberto Torres a Rizek e Avallone no Redação SporTV…


» Vicente Feola

“Era um bom comandante, mas não no aspecto técnico. Era um treinador que, para mim, com toda a honestidade, com todo o respeito, não acrescentou nada. Não porque não tenha me levado para a Copa de 1966, que aquilo ali foi um grande erro da CBD. A grande verdade é essa, só que ninguém fala. O que nós sacamos naquela época é que a CBD achou que seria tricampeã mundial com os bicampeões mundiais, campeões em 1958, na Suécia, e bi em 1962, no Chile. Tinha jogador que sinceramente não tinha condição de acompanhar. Principalmente, porque foi ali que começou a revolução da educação física no futebol. Eu lembro que eu tinha 21 anos de idade, eu ia, passava por trás do gol e ainda chegava na frente do zagueiro (risos) e não me levaram. Ninguém entende até hoje por que não me levaram”.

» Aimoré Moreira
“Era um bom comandante disciplinarmente falando, mas tecnicamente…Nós fizemos uma excursão à Europa com ele e foi a primeira vez que a Seleção teve a ousadia de não convocar o Pelé para ver como a Seleção se comportaria sem ele. Foi um bom treinador, enxergava bem o jogo. Ele não tinha muito esse negócio de colocar jogador para marcar, mas convencia, cobrava reação quando o time adversário atacava nem que fosse para atrapalhar”.

» João Saldanha
“Foi uma experiência muito boa. Aprendi muito com o João Saldanha. Talvez, não em termos técnicos, mas nas atitudes que ele tomava no sentido de unir o grupo. Ele tinha cada tirada que na hora você ficava olhando assim… O grupo gostava dele. O momento em que o Saldanha assumiu a Seleção, levando-se em conta as circunstâncias, foi igual agora. Totalmente desacredita. A torcida não acreditava, a imprensa… Aí, o João Havelange teve uma ideia genial. Vou colocar o João Saldanha porque aí eu vou ter ao meu lado a imprensa e a torcida. Todo mundo gostava do João Saldanha. Ele entrou escalando o time titular, dizendo que queria 22 feras. Ganhou a torcida, a imprensa… A base eram seis jogadores do Santos, dois do Botafogo, dois do Cruzeiro e o Félix (Fluminense). Em 1969, ele teve a grande ideia de escalar os melhores jogadores naquele momento para disputar as Eliminatórias. Em 1970, ele deixa de convocar o Djalma Dias, que era o maior zagueiro central do Brasil. Não sei por que. O Rildo era o melhor lateral-esquerdo, ele não quis chamar também. Ele mudou tudo. Escalou um time que não conseguia se entrosar. Aí, a imprensa amiga dele, começou a criticar. Fomos fazer um jogo contra o Bangu, empatamos por 1 x 1 e todos criticavam nosso estilo. Foi quando João Havelange disse que tinha que mudar e mudou.

» Mário Jorge Lobo Zagallo
“Um cara muito inteligente, tinha sido ex-jogador e jogou conosco, com a maioria de nós jogadores da Copa de 1970. Então, nós tínhamos o Zagallo como nosso companheiro mais experiente. Tudo o que ele fazia conversava com os jogadores, perguntava o que nós achávamos. Deu certo. Foi um treinador sensacional”

» Elba de Pádua Lima, o Tim
“O maior treinador que eu tive, que, se trabalhasse hoje, com todos esses recursos tecnológicos, seria o maior de todos os tempos, pra mim, é o Tim. Ele mudava o jogo assim com uma facilidade… Se o jogador seguisse a orientação que o Tim nos dava, principalmente no intervalo dos jogos. O Fluminense foi campeão carioca em 1964. Ele dizia no intervalo vamos fazer isso que vamos virar o jogo, e virava mesmo”.

Marcos Paulo Lima

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