Joshua Kushner Joshua Kushner é um dos possíveis investidores na FFE. Foto: BRENDAN SMIALOWSKI/AFP via Getty Images Joshua Kushner é um dos possíveis investidores no projeto da FFE. Foto: BRENDAN SMIALOWSKI/AFP via Getty Images

“SAF” da Copa: quem é o bilionário da IA por trás do plano de Infantino

Publicado em Esporte

New Jersey — A Copa do Mundo pode estar prestes a viver a maior transformação financeira em 96 anos de história. Não por causa de um novo formato, da ampliação do número de seleções ou de uma mudança nas regras do jogo. Pela primeira vez, a Fifa estuda dividir com investidores privados parte da exploração comercial do principal evento do esporte mais popular do planeta.

 

No futebol brasileiro, a comparação é inevitável: não está fácil para ninguém. A “SAF” chegou à Copa do Mundo. Estamos diante de uma possível “Sociedade Anônima da Copa”, uma “SAC”. Brincadeiras à parte e guardadas as proporções, Gianni Infantino prepara uma abertura simbólica ao capital privado do maior ativo da Fifa. A diferença é fundamental: a entidade não pretende vender o controle do torneio, mas criar uma empresa para explorar comercialmente suas receitas e atrair parceiros estratégicos.

 

À frente da operação aparece Joshua Kushner. O bilionário construiu fortuna apostando em empresas capazes de transformar mercados e agora enxerga na Copa do Mundo um dos ativos mais valiosos do planeta.

 

Aos 41 anos, Kushner pertence à geração de investidores que ajudou a moldar a economia digital. Enquanto o irmão mais velho, Jared Kushner, tornou-se conhecido mundialmente pela atuação política ao lado de Donald Trump, Joshua preferiu outro caminho. Longe dos holofotes de Washington, construiu carreira no mercado financeiro e se tornou um dos nomes mais respeitados do Vale do Silício.

 

Em 2009, fundou a Thrive Capital com uma estratégia simples: identificar empresas capazes de mudar setores inteiros da economia antes de se tornarem gigantes.

 

Foi assim com Instagram, Spotify, Stripe, GitHub, Twitch e Databricks. Nos últimos anos, tornou-se um dos maiores investidores externos da OpenAI, consolidando uma fortuna estimada em US$ 5,2 bilhões.

 

O próximo investimento pode ser ainda mais simbólico.

 


Personagem | Quem é Joshua Kushner

Idade: 41 anos

Fortuna estimada: US$ 5,2 bilhões

Fundador: Thrive Capital

Formação: Harvard University e Harvard Business School

Casado com: Karlie Kloss

Investimentos: Instagram, Spotify, Stripe, GitHub, Twitch, Databricks e OpenAI.

No esporte: acionista minoritário do Memphis Grizzlies (NBA) e do San Francisco Giants (MLB).

Perfil: um dos investidores mais influentes do Vale do Silício, especializado em identificar empresas capazes de transformar mercados.


 

Segundo o The Times e o Financial Times, a Fifa estuda criar uma empresa avaliada em cerca de US$ 20 bilhões para administrar os direitos comerciais da Copa do Mundo e de outras competições. A ideia é vender até 20% dessa nova companhia a investidores privados. Joshua Kushner lidera o grupo interessado. Isso não significa comprar a Copa do Mundo. A propriedade do torneio continuará pertencendo à Fifa.

 

O que muda é a forma de explorar comercialmente um patrimônio capaz de movimentar bilhões de dólares em direitos de televisão, patrocínios, hospitalidade, licenciamento e marketing. Na prática, Gianni Infantino pretende transformar uma receita concentrada a cada quatro anos em um ativo permanente gerador de liquidez imediata.

 

Em vez de esperar o próximo Mundial para arrecadar, a Fifa receberia bilhões de dólares pela venda de uma participação minoritária na empresa responsável pela exploração comercial do torneio. A lógica lembra a de grandes grupos empresariais que monetizam parte dos ativos sem abrir mão do controle.

 


Jogada ensaiada | O plano de Gianni Infantino

O que é a Fifa Forward Enterprise (FFE)?

Uma empresa criada para administrar os ativos comerciais da Copa do Mundo e de outras competições da Fifa.

A Fifa venderá a Copa?

Não.

Continuará proprietária do torneio e manterá o controle sobre regulamentos, calendário e organização.

O que será vendido?

Até 20% da empresa responsável pela exploração comercial das competições.

Quais receitas entram?

  • Direitos de TV
  • Patrocínios
  • Hospitalidade
  • Licenciamento
  • Marketing
  • Novos produtos comerciais

Quanto a Fifa pode arrecadar?

Cerca de US$ 4 bilhões, mantendo o controle da Copa.


 

Para Kushner, a operação também faz sentido. Depois de enriquecer apostando na inteligência artificial, ele passou a defender que alguns ativos jamais poderão ser substituídos pela tecnologia. Uma Copa do Mundo. Uma Olimpíada. Uma franquia esportiva centenária. São propriedades únicas, escassas e capazes de mobilizar bilhões de pessoas.

 

Mas reduzir essa operação a uma simples captação de recursos seria enxergar apenas parte do tabuleiro. A criação da Fifa Forward Enterprise também fortalece politicamente Gianni Infantino. Quanto mais recursos a Fifa distribuir às 211 associações nacionais filiadas, maior tende a ser sua influência sobre o colégio eleitoral da entidade. No Congresso da FIFA, Brasil, Alemanha, San Marino, Butão ou Ilhas Cook têm exatamente o mesmo peso: um voto. A FFE amplia justamente esse poder.

 


A receita | Como Infantino pretende repartir o dinheiro

O objetivo vai muito além de fortalecer o caixa da Fifa.

A estratégia é ampliar a capacidade de investimento da entidade e reforçar a influência política.

Os recursos poderão ser destinados a:

  • aumento dos repasses do FIFA Forward;
  • construção de centros de treinamento;
  • infraestrutura;
  • categorias de base;
  • desenvolvimento do futebol feminino;
  • apoio às federações de menor poder econômico;
  • redução da dependência financeira da Copa disputada a cada quatro anos.

Quanto maior a capacidade de distribuir recursos, maior tende a ser também a influência política da Fifa.


 

O momento é estratégico. Nos próximos anos, o Congresso da Fifa deverá decidir temas capazes de redefinir o futebol mundial. Entre eles estão a proposta da Conmebol de ampliar a Copa do Mundo de 2030 para 64 seleções, a escolha da sede da Copa de 2038, as próximas sedes da Copa do Mundo de Clubes inaugurada em 2025, futuras Copas do Mundo Femininas e a distribuição de partidas entre os países organizadores. Cada uma dessas decisões dependerá do voto das 211 associações nacionais.

 

O alcance da FFE, porém, pode ir além do mandato de Gianni Infantino. Embora a Fifa não trate publicamente do tema, dirigentes e observadores da política do futebol internacional enxergam a nova empresa como uma estrutura capaz de preservar a influência do idealizador mesmo depois da saída da presidência da entidade. Caso venha a ocupar um cargo executivo na FFE, Infantino continuaria ligado ao principal ativo comercial do futebol mundial, ainda que outro dirigente passe a comandar a FIFA. Não há qualquer decisão oficial nesse sentido, mas a hipótese ganhou força nos bastidores justamente pelo desenho da operação.

 


Barganha | As moedas de troca de Infantino

Nos próximos congressos da FIFA estarão em jogo:

  • possível Copa de 2030 com 64 seleções;
  • sede da Copa do Mundo de 2038;
  • próximas sedes da Copa Feminina;
  • sedes do Mundial de Clubes;
  • distribuição de jogos entre países-sede;
  • criação de novos torneios;
  • ampliação do FIFA Forward.

Mais dinheiro significa também maior capacidade de influência nessas decisões.


 

É justamente aí que cresce a resistência da Uefa. A preocupação dos dirigentes europeus não se limita à entrada de investidores privados na Copa do Mundo. Nos bastidores, há o temor de que a FFE se transforme em um novo centro de poder no futebol internacional, capaz de manter Gianni Infantino influente mesmo após o fim de seu mandato na Fifa.

 

O receio não se limita à entrada de investidores privados. A preocupação é que novos sócios passem a pressionar por calendários mais extensos, mais competições e formatos capazes de aumentar receitas, enquanto Infantino amplia sua influência política por meio da distribuição de recursos. Uma possibilidade é a Copa do Mundo — masculina e feminina — passarem a ser disputadas a cada dois anos, antes ou depois da edição de 2034 na Arábia Saudita.

 

Há outra hipótese discutida nos bastidores do futebol internacional. Embora a FIFA jamais tenha tratado publicamente do assunto, a criação da FIFA Forward Enterprise também abre caminho para que Gianni Infantino permaneça influente depois de deixar a presidência da entidade. Como idealizador da operação e principal articulador do projeto, ele poderia, em tese, ocupar um cargo executivo na empresa responsável pelos ativos comerciais da Copa do Mundo.

 

Não existe qualquer decisão oficial nesse sentido, mas a possibilidade ajuda a explicar por que a FFE é vista por muitos dirigentes como algo maior do que uma simples reorganização financeira. Se isso ocorrer, a sucessão na presidência da Fifa não significará necessariamente o fim da influência de Gianni Infantino sobre os rumos comerciais do futebol mundial.

 


Contramão | Por que a UEFA resiste

  • entrada de investidores privados no principal ativo da FIFA;
  • pressão por novas competições e mais receitas;
  • fortalecimento político de Gianni Infantino;
  • perda de protagonismo econômico da UEFA;
  • receio de que interesses financeiros passem a influenciar decisões estratégicas do futebol mundial.

 

A entrada de Joshua Kushner pode ser o fato novo. Mas a verdadeira notícia é outra. Gianni Infantino tenta transformar a Copa do Mundo no ativo financeiro mais valioso do esporte e, ao mesmo tempo, ampliar o poder político da FIFA sobre o futebol global. Se conseguir, não terá apenas encontrado um investidor. Terá ajudado a criar uma estrutura capaz de sobreviver ao próprio mandato. No fim das contas, a disputa não é apenas por bilhões de dólares. É pelo controle da próxima era do futebol.

 


Linha do tempo | A escalada de poder de Infantino

2015 — Fifagate liderado pelo FBI escancara escândalo de corrupção na Fifa. Joseph Blatter cai

2016 — Gianni Infantino vence eleição, assume a Fifa e lança o programa FIFA Forward.

2017 — Congresso aprova a expansão da Copa do Mundo para 48 seleções.

2023 — Fifa confirma o novo Mundial de Clubes com 32 times.

2025 — EUA recebe a primeira edição da Copa do Mundo de Clubes

2026 — Primeira Copa do Mundo com 48 seleções.

2026 — Surge o projeto da FIFA Forward Enterprise (FFE).

2027 – Eleição presidencial em 27/3. Infantino tem direito a mais um mandato

2030 — Antes da Copa, há três debates relevantes: criação da FFE, Copa com 64 seleções e sede de 2038


 

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