No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, falar sobre prazer feminino também é uma forma de questionar séculos de silêncio e desinformação sobre o corpo das mulheres. Embora seja o único órgão humano dedicado exclusivamente ao prazer, o clitóris foi historicamente ignorado por pesquisas médicas, omitido em materiais de educação sexual e cercado por mitos que contribuíram para o apagamento da sexualidade feminina.
Os primeiros estudos documentados sobre o clitóris surgiram durante o Renascimento, no século XVI, quando anatomistas europeus começaram a dissecar corpos humanos para compreender melhor a anatomia. No entanto, o estudo do clitóris foi marcado por controvérsias e retrocessos: alguns anatomistas, como Andreas Vesalius, chegaram a afirmar que mulheres saudáveis não possuíam esse órgão, o que contribuiu para décadas de confusão e negligência científica.
Apenas mais tarde, em 1672, o médico holandês Regnier de Graaf descreveu de forma mais sistemática sua anatomia, e no século XIX o anatomista alemão Georg Ludwig Kobelt produziu estudos detalhados com dissecações que esclareceram grande parte de sua estrutura interna. Foi só em 1998 que a urologista Helen O’Connell mapeou a estrutura completa e interna do órgão.
“Sabemos mais sobre a superfície de Marte do que sobre o clitóris há muito menos tempo”, aponta a psicóloga clínica e sexóloga especialista em atendimento à mulher, Alessandra Araújo. Segundo ela, o apagamento deriva da incapacidade reprodutiva do órgão que serve estritamente para o prazer.
Alessandra desmistifica o maior mito sobre o clitóris: achar que ele é apenas um “botãozinho” externo. “Na verdade, aquilo é apenas a pontinha de uma estrutura muito maior que se ramifica para dentro do corpo”, expõe. A parte visível e extremamente sensível é chamada de glande, cujas 8 mil terminações nervosas representam o dobro das do pênis, e é protegida pelo capuz. Internamente, existem os bulbos e os ramos. “Duas “pernas” de tecido erétil que abraçam o canal vaginal por dentro e podem chegar a 10-12 centímetros de comprimento”, descreve.
Além disso, o orgasmo vaginal — termo popularizado por Freud, que chamava o orgasmo clitoriano de imaturo — é apenas o estímulo das estruturas internas do clitóris através da parede da vagina. Ou seja, não existe divisão de orgasmos. “Cerca de 70% a 80% das mulheres precisam de estímulo direto na parte externa (glande) para atingir o clímax. Não há nada de errado nisso; é apenas a biologia funcionando”, acrescenta Alessandra.
A falta de informação cria o chamado “Pleasure Gap” (Lacuna do Prazer), resultando em muitas mulheres que não atingem o orgasmo com a penetração julgando-se defeituosas. “Quando a mulher entende sua anatomia, ela para de se culpar e passa a guiar o parceiro. Saber onde e como tocar é o primeiro passo para não aceitar um sexo que não seja satisfatório para os dois”, aponta a especialista.
Erros comuns de parceiros que se relacionam com pessoas com clitóris envolvem não considerar a sensibilidade extrema do órgão. A sexóloga exemplifica equívocos:
- Ir direto ao ponto: A glande é sensível demais. Começar com pressão forte e direta sem lubrificação ou preliminares pode causar dor em vez de prazer.
- Achar que é um botão de liga/desliga: O clitóris precisa de variação de ritmo, intensidade e, principalmente, paciência.
- Ignorar o entorno: Estimular os grandes lábios e o capuz antes de chegar à glande ajuda a preparar o órgão, que também fica erétil (envolvido por sangue).
“Conhecer o próprio clitóris é um ato de empoderamento porque rompe com a ideia de que o corpo da mulher pertence ao prazer do outro ou à procriação. É assumir que o seu prazer tem valor próprio, independente de qualquer outra pessoa”, finaliza Alessandra.



