Sexo transcentrado: prazer, desejo e afeto como ato político

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Desmistificar a transexualidade como um corpo que apenas sofre também é uma pauta a ser destacada no Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29/1). Na luta por igualdade, inserção social e respeito, o prazer muitas vezes acaba ficando em segundo plano. Nas relações, as vivências e recortes de gênero também se cruzam, e é nesse cenário que o sexo transcentrado surge como um espaço de liberdade.

“Tudo tem que ser leve, sem amarra social, porque isso dificulta o prazer em todas as áreas de relação própria ou com outras pessoas”, conta Lia Vinic, de 24 anos, ao resumir o que ainda precisa mudar no imaginário social sobre sexo e corpos trans para que o prazer não seja tratado como exceção.

Ao experienciar o sexo com outra pessoa trans, Lia encontrou um escape do pensamento e vivencia cisgênero, no qual, muitas vezes, se sentia cobrada a aparentar e perfomar sexualmente uma mulher cis. “É uma aceitação e liberdade de que eu não preciso seguir essa norma, esse roteiro de uma mulher cis. Até porque eu não sou cis”, descreve.

“Para mim, viver sendo uma pessoa trans é algo de corpo, mente e alma. No início da transição me cobrei com expectativas de padrões sociais e de gênero de corpos cis femininos, o que já é impossível para mulheres cis seguirem, quem dirá para uma mulher trans”, define Lia sobre as experiências mediadas por expectativas cisnormativas. Atualmente, ela comemora ter se desprendido de padrões cisnormativos, pois “jamais deixariam eu ser uma mulher.”

No âmbito sexual, Lia relembra como via as relações de forma performática diante das cobranças, não as enxergando nem como sexo. Para ela, não existe uma regra a se seguir, mas sim apenas ser e sentir.

“Por mais que ser um corpo trans seja maravilhoso — porque finalmente sou quem eu quero ser, ainda que não totalmente —, ele também machuca, porque deprecia. Infelizmente, somos nós mesmas que acabamos nos barrando diante da cisnormatividade, que está sempre batendo à porta e nos cobrando perfeição dentro de um padrão de sexo cis. Isso gera disforia e acaba nos levando, às vezes, a tomar atitudes extremas para sermos vistas e tratadas como mulheres”, relata Lia.

Prazer, autonomia e bem-estar são elementos que a jovem encontrou no afeto trans centrado. No entanto, ainda existem desafios. “Acredito que a violência e o silenciamento são fatores que acabam causando a fetichização e a invalidação de pessoas trans aos olhos dos outros, por sermos corpos considerados “diferentes” do habitual”, aponta.

Apesar de celebrar as relações trasncentradas, Lia alerta para a objetificação de corpos trans: “Com isso, somos totalmente retiradas da condição de humanas e passamos a ser tratadas como objetos de desejo proibidos e vergonhosos. Tanto que muitas pessoas não assumem relacionamentos com pessoas trans por vergonha,”

Para Lia, o mais importante ao se relacionar com uma pessoa trans é amá-la em todas as fases da vida, e acolher a disforia quando ela chega. “Sentir orgulho da pessoa que está se relacionando e mostrar que ama essa pessoa independente de qualquer coisa”, conclui.

Psiquiatria como acolhimento LGBT

Um processo de violência continuada é como Diego Gardenal — psiquiatra e psicoterapeuta com enfoque LGBTQIA+ — define a condição de existência trans. “Então, é muito comum, nos atendimentos em saúde mental, ouvirmos inseguranças relacionadas ao momento do sexo”, relata. “Muitas vezes, se não quase todas, essas inseguranças são consequência das violências que elas sofrem continuamente ao longo da vida. Assim, pessoas trans vão experienciar uma vivência sexual profundamente marcada pelas violências, pelos traumas e pelas inseguranças que foram introjetadas nelas.”

No consultório, o especialista busca separar o que é externo e interno do paciente. “Nesse processo, vamos percebendo que, no final, quase tudo é externo. São verdades criadas por outras pessoas, que as pessoas trans acabam tomando para si como verdades. Ao longo do processo, vamos descobrindo que isso não é real”, aponta.

Diante disso, o sexo transcentrado surge como uma forma de blindagem  — “Que nem sempre funciona, porque existe transfobia e diversas formas de violência inclusive dentro da comunidade LGBTQIAPN+, e até mesmo dentro da própria comunidade trans”, contrapõe Gardenal. Ainda assim, o sexo entre pessoas trasn é como uma proteção. “Vejo isso como um respiro, uma possibilidade de experienciar um lugar seguro.”

“O prazer para pessoas trans não é banido apenas no campo da sexualidade ou do ato sexual. As pessoas trans são continuamente proibidas de sentir prazer. É muito comum, na clínica, encontrarmos pessoas trans que nunca tiveram uma experiência sexual em que alcançaram o orgasmo, ou em que se sentiram completamente confortáveis, ou em que ocuparam um papel no qual foram vistas e reconhecidas como realmente são, sem fetichização, sem serem tratadas como objeto de experimentação, como teste ou tentativa. Falas como “vamos ver como é transar com um homem trans, tenho curiosidade” são extremamente violentas e transfóbicas.”

A privação dentro da sexualidade resulta na insegurança, no medo, na falta de consciência corporal e na disforia. O psiquiatra percebe que a falta de repertório de pessoas cis ao relacionarem-se com as trans implica um cercamento de liberdade. “Por mais que um ambiente protegido gere segurança, eu penso que pessoas trans podem e deveriam transar com qualquer pessoa, em qualquer situação que desejarem, desde que haja consentimento. Compreendo que existam inúmeras violências e entendo o medo, mas, dentro de um processo reflexivo, é preciso ter cuidado para não gerar mais privação do que autonomia”, reflete.

Vale ressaltar que o sexo não envolve apenas órgãos genitais, e sim pessoas, corpos e histórias de vida. “Nesses casos, a condição trans se dissolve, no sentido de que a pessoa compreende a outra a partir da identidade existente. Por exemplo, ao se relacionar com uma mulher trans, a pessoa a vê como uma mulher trans, e isso transcende a questão da genitália ou do corpo em transição. Há amor, prazer e conexão independentemente da condição da transgeneridade”, argumenta Gardenal.

Por fim, o especialista propõe a celebração: “ Apesar de toda a violência existente, penso que é fundamental nos conectarmos com as vitórias, com as conexões e com as partilhas que têm feito bem às pessoas trans. Acima de tudo, celebrar a existência, retirar as pessoas trans de um discurso centrado apenas no sofrimento e na angústia, e trazer à tona a potência da vitalidade que lhes foi tão roubada.”

Cuidado mútuo e reconhecimento afetuoso

Dj e produtora nas festas brasilienses, Marceline enxerga a sexualidade transcentrada como um espaço de reconhecimento próprio. “Acho de extrema importância ser afetuosa com quem passa pelo que eu passo, e o fato de passarmos por coisas relativamente parecidas que se diferencia de se relacionar com pessoas cis: o vínculo em comum”, descreve.

No sexo com pessoas trans, a Dj analisa a quebra de estigmas de gênero colocado em seus corpos. “Poder me relacionar sexualmente com outra pessoa trans pra mim é algo revolucionário”, destaca. “O sexo transcentrado quebra estereótipos que já existem a muito tempo. A maioria das pessoas ficam em choque ao ver duas pessoas trans se amando. Não é de hoje que nós pessoas trans nos relacionamos entre nós mesmas, sendo um relacionamento hétero ou homoafetivo, acho de extrema importância que nós não tenhamos medo de sermos afetuosas.”

A versatilidade e a conexão é o que mais desperta desejo em Marceline ao sair do roteiro cisnormativo. “Pessoas tendem a gostar de coisas em comum, e eu acredito que quando se vive uma “narrativa” parecida, inevitavelmente se desperta mais interesse”, explica.

Assim, esse Dia Nacional da Visibilidade Trans reafirma que a existência de pessoas trans passa também por romper com narrativas que as aprisionam exclusivamente ao sofrimento. Falar de prazer, desejo, afeto e bem-estar é um gesto político, porque devolve humanidade a corpos historicamente violentados e silenciados. Tornar visível essa dimensão é insistir que vidas trans não apenas resistem: elas sentem, se conectam, amam e têm direito ao prazer.

Bianca Lucca

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