
Melhorar a libido raramente tem a ver com soluções glamourosas, já que o desejo é mutável e sensível a uma quantidade quase interminável de variáveis — da relação com o próprio corpo às oscilações hormonais, passando por pequenas irritações cotidianas, como algo incômodo que o parceiro disse sem pensar. As soluções, muitas vezes, são práticas: cortar hábitos danosos e prestar mais atenção em si e no parceiro. Mesmo assim, não existe uma receita de bolo que culmine em uma resposta fácil e rápida.
Por isso, não surpreende que diferenças de desejo estejam entre os principais motivos que levam casais à terapia. Ainda assim, persiste a expectativa de que a libido funcione como um botão de liga e desliga. Emily Morse, educadora sexual e apresentadora do podcast Sex with Emily, observa que essa crença costuma gerar culpa e frustração quando o desejo não aparece como ‘deveria’. “Não acho que a libido seja algo que você melhora ou conserta”, afirma Morse. “É algo para o qual você cria as condições.”
A psicóloga e terapeuta sexual Kate Balestrieri, autora de What Happened to My Sex Life?, ainda observa que, muitas vezes, o baixo desejo está ligado a bloqueios emocionais mais profundos. Mudar o horário também faz diferença, conforme propõe a educadora sexual Joan Price, autora de Naked at Our Age: Talking Out Loud About Senior Sex, que recomenda observar atentamente, por uma ou duas semanas, em que momentos do dia há mais relaxamento ou abertura para o prazer.
Para a sexóloga Alessandra Araújo, o primeiro passo para melhorar a libido quando o desejo parece bloqueado é identificar os freios. “Na sexologia, entende-se que a libido funciona em um sistema de controle dual: temos aceleradores (estímulos que excitam) e freios (estímulos que inibem, como estresse, medo ou insegurança). Muitas vezes, o desejo não está “baixo”, mas sim bloqueado por um freio muito forte. Antes de tentar “acelerar” com novidades, é preciso remover o que está travando o sistema, seja uma preocupação financeira, um conflito mal resolvido ou o cansaço extremo”, afirma.
Mas como investir na libido?
Grandes novidades, como fantasias complexas ou acessórios inusitados, podem gerar ansiedade de desempenho sexual ao invés de facilitar a interação, conforme Alessandra. “A pessoa se preocupa tanto em ‘fazer certo’ que perde a conexão com o prazer”, justifica. A solução encontra-se em pequenas mudanças: trocar o horário do sexo da noite para a manhã, ou mudar o local da casa quebram a previsibilidade sem criar a pressão de uma super produção. “O cérebro responde melhor a novidades sutis que não o coloquem em estado de alerta.”
O toque sem intenção de sexo pode ser um aliado da excitação, já que é fundamental para reconstruir a segurança afetiva. “Quando todo toque visa o sexo, a pessoa com menos desejo começa a evitar qualquer carinho para não “dar esperança” ao parceiro, gerando distanciamento”, a sexóloga explica. As recomendações são carícias, abraços e beijos sem a intenção da penetração. “Isso reduz a pressão e permite que o corpo relaxe, abrindo espaço para que o desejo responsivo (aquele que surge durante o estímulo) apareça.”
O diálogo aberto com o parceiro sobre o que atrapalha o apetite sexual também deve ser praticado sem expectativa de culpa ou conflito. “A técnica é usar a comunicação não-violenta, focando em si mesmo e não no erro do outro”, alerta a especialista. Em vez de usar frases como “você nunca me ajuda e por isso não quero transar”, Alessandra sugere abordagens como “eu tenho me sentido muito exausta com a rotina e isso tem pesado no meu desejo”. Assim, o outro é convidado como um aliado na resolução do problema, e não como o culpado do transtorno.
No roteiro sexual, a excitação pode ser reacendida por simples mudanças já no começo da interação. “Se o sexo sempre começa com um beijo no sofá e termina na cama, tente começar pelo banho ou inverta a ordem das preliminares”, exemplifica. “Outra ideia é o sexo lento, focando em partes do corpo que geralmente são negligenciadas. O objetivo é quebrar a sequência automática que o cérebro já decorou, forçando a mente a estar presente no momento.”
Caso o sexo tenha se tornado uma obrigação, um fardo ou motivo de briga, Alessandra aconselha dar uma pausa e investir em outras formas de intimidade. Segundo a especialista, os campos intelectuais, emocionais e físicos-não-sexuais também são merecedores de atenção.
Bloqueadores do tesão
Não adianta reclamar da falta de desejo se sua ausência é resultado de costumes prejudiciais. Entre hábitos cotidianos que enfraquecem a libido, a especialista aponta o uso de telas antes de dormir como danoso para os receptores de dopamina e, consequentemente, para o ímpeto sexual. “Outro hábito silencioso é o sedentarismo, que diminui a circulação sanguínea pélvica e a consciência corporal”, acrescenta. “Além disso, o consumo excessivo de café ou álcool pode mascarar o cansaço real, impedindo que o corpo relaxe o suficiente para que a libido se manifeste.”
Outro inimigo da libido é o cansaço — físico e mental. No corpo, ele eleva o cortisol e reduz a testosterona, quando o cérebro prioriza a sobrevivência e o descanso em vez da reprodução ou do prazer. “Para minimizar isso, o casal deve parar de deixar o sexo para o final do dia, quando as energias já acabaram”, sugere Alessandra. “Priorizar janelas de tempo em momentos de descanso e dividir as tarefas domésticas de forma justa são intervenções diretas que liberam espaço mental para a libido.”
Sendo o desejo responsivo a estímulos, vale atentar-se aos sinais do próprio corpo para entender quando ele tende a surgir com mais facilidade. “Observe em quais momentos você se sente mais bonita(o), relaxada(o) ou confiante”, instrui a sexóloga. Àqueles que menstruam, observar as fases do ciclo e como o tesão reage aos hormônios também pode ser revelador. “Além disso, note se certos tipos de conversas, músicas ou mesmo um ambiente limpo e organizado funcionam como gatilhos positivos para o seu bem-estar sensorial.”
Por fim, a pressão por desempenho é um dos maiores vilões da sexualidade. Alessandra sugere uma tática controversa: tirar o orgasmo do pedestal. A estratégia, porém, é embasada. “Quando o orgasmo é o único objetivo, qualquer coisa abaixo disso é vista como falha. Ao focar no prazer da pele, no beijo e na conexão, o corpo relaxa”, resume. Somando todas as dicas na prática, a libido pode encontrar um respiro para existir longe das preocupações externas.

