A cada dois meses, o Conic vira palco de hedonismo com a Festa Lust. Polêmica para alguns e atrativa para outros, o evento que carrega o nome de luxúria se propõe a ser um espaço de libertação sexual sem julgamentos, coincidindo com datas comemorativas que viram o tema da edição. Seis festas anuais são realizadas em Brasília, e, no último sábado, (7/2), foi a vez do tema carnaval assumir o protagonismo da ambientação.
Segundo Igor Albuquerque, sócio da Lust e do Birosca, a estrutura da festa é criada a partir do tema escolhido — que já contemplou Natal, Halloween, BDSM e Disco, entre outros. “A edição de aniversário é um momento em que eu consigo brincar com cenografia e iluminação sem ficar atrelado a um tema específico”, relata. E o público da festa é diverso. “Pessoas gordas, pessoas magras, pessoas feias, mulheres, lésbicas, gays, trans”, exemplifica.
O dark room é um dos cômodos mais procurados da casa. Lá, a liberdade sexual é incentivada em todos os fetiches. É um ambiente escuro onde o sexo pode ser praticado com certa privacidade — mas também disponivel para quem só gosta de olhar. “Apesar da temática de liberdade sexual, é uma festa que, se você preferir, você não tem nenhum contato com o sexo também. Você pode ficar na pista e curtir um som dos DJs, assistir performances surreais”, acrescenta o idealizador.
Pertencimento também é uma questão que Igor visa abordar no evento. “Vejo aqui muito pessoal da cena BDSM, do Pet Play e do transformismo que se descobriu aqui e vive isso, têm a festa como uma casa mesmo”, narra. Com isso, os fetiches mais diversos são abraçados, mas sempre com consentimento.
Nas redes sociais, Igor constantemente reforça que a sua liberdade termina onde a do outro começa. “Ou seja, existe o consentimento aí”, resume. A nudez total é permitida, mas encostar no outro sem consentimento não. “Essa é a grande máxima. Às vezes, algumas pessoas não entendem isso, mas essa é a conduta.” Atualmente com a conta do Instagram da Lust derrubada, o idealizador se preocupa em como disseminar a mensagem do limite.
A arte erótica é outro atrativo da Lust, onde artistas encontram um espaço livre para expressar a sexualidade — até envolvendo o sexo explícito. “Já tivemos sim performances que foram muito impactantes e de difícil digestão por parte do público”, lembra Igor. “Então a minha orientação nessas horas é que a gente também não pode impressionar muito, porque é um momento de iniciação.” Atualmente, performances envolvendo fluidos corporais são evitadas.
Na curadoria musical do evento, Igor busca evidenciar DJs atuais, undergrounds e queers do Brasil. Já para selecionar os artistas das performances, o idealizador nota uma dificuldade de encontrar pessoas dispostas a exposição sexual. “Nós fizemos um chamamento para pessoas que gostavam de se exibir para ver se elas teriam interesse em se aventurar no mundo do BDSM. E assim começou-se a montar um elenco”, aponta. “Nossas performances são todas conectadas entre si durante a noite, elas contam uma história.”
Fetichismo livre: a experiência do público
Ver corpos livres e confortáveis vivendo suas experiências sem julgamentos é o que mais excita Emily Alves, 25 anos, na experiência de frequentar a Lust. “É uma festa onde você pode ver pessoas vivenciando seus fetiches em qualquer lugar, isso pode ser um tanto chocante”, descreve. “Cenas de sexo e BDSM são comuns, tanto dos artistas que trabalham na festa quanto do próprio público. Sempre bom ir de mente aberta e deixar os pensamentos de julgamento de fora.”
Em todas as edições, Emily destaca que algo a marca ou a deixa em choque — seja performances ou apenas o público se soltando. “Eu já participei de performances interativas que a própria festa oferece, onde o artista que ia performar chamava várias pessoas que estavam no rolê para subir no palco e ter uma experiência interativa com ele. Foi muito excitante pois eram pessoas que nunca tinha conhecido”, narra. “Também vivenciei experiências a três com alguns amigos, que foi algo mais intimista, mas mesmo assim incrível.O clima é propício para se jogar em experiências diferentes, com pessoas novas ou pessoas que já conheço.”
Na edição de BDSM, uma piscina de golden shower foi posicionada perto do banheiro do dark room, onde muitas pessoas fazem xixi para evitar as filas das cabines. Segundo Emily, uma pessoa performa dentro da piscina, mas a entrada é permitida para qualquer um que deseja receber um jato de urina.
Em relação a segurança, Emily reforça que a Lust tem tolerância zero para assédios. “Qualquer caso que você chamar o segurança o assediador vai ser expulso”, afirma. No entanto, ultimamente a frequentadora nota pessoas que não são o público alvo da festa causando situações desconfortáveis. “É bom lembrar que esses homens que causam essas situações não são o público alvo do rolê”, completa.
Já Liz, de 37 anos, conheceu a festa por convite de amigos em um período emocionalmente frágil de sua vida, e não sabia o que esperar da festa. “Tinha pessoas sambando totalmente sem roupa. Achei aquilo que era o Cirque du Soleil de gente pelada. Foi muito mágico. Desde então, eu nunca mais deixei de ir”, lembra.
Como artista, Liz admira a experimentação estética e liberdade que o evento propõe. “É um ambiente seguro para mim enquanto mulher, para eu poder vivenciar, estar com pouca ou nenhuma roupa, com glitter da cabeça aos pés ou vestida apenas de pintura corporal e não ter um olhar de desrespeito”, explica. “Eu não me sinto desrespeitada, eu me sinto prestigiada. As pessoas valorizam a entrega de uma boa fantasia — em todos os sentidos da palavra.”
Uma das experiências que a marcaram durante a festa foi ficar com um casal — não pelo contato em si, mas por como o público a acolheu quando o sexo ultrapassou o que desejava. Liz pediu que o homem parasse com o toque íntimo, quando todos do dark room prestaram atenção para garantir que ela seria respeitada.
Liz define o início da vivência como um momento de descoberta pessoal, em que o contato com múltiplas pessoas não gerou culpa nem desconforto, mas sensação de cuidado e pertencimento. “Me senti respeitada e querida”, diz. Ao mesmo tempo, reconhece que cada mulher vive a festa de maneira distinta, atravessada por questões como estética, corpo, visibilidade e desejo.
A sexualidade aparece como um campo fluido e afetivo, especialmente nas relações com outras mulheres. Um reencontro inesperado com uma garota com quem havia se encantado anteriormente foi uma das experiências mais intensas vividas na festa, atravessada por desejo, memória e contexto coletivo. Na ocasião, ambas estavam fantasiadas de gato, mas a outra contava com um detalhe especial: uma cinta peniana.
“Eu sentei nela, rebolei no cintaralho e gozei muito. Não me incomodo com as pessoas olhando com tanto que respeitem o consentimento de se aproximar com calma. Ver se eu convido. Se eu não convidar, não vem.” Ela associa essa tranquilidade à própria miopia, que permite uma concentração intensa na pessoa com quem está envolvida, diminuindo a percepção do entorno.
Antes de participar ativamente, ela descreve a experiência de observar como fundamental. É nesse contexto que identifica o voyeurismo como uma fonte legítima de prazer, especialmente por perceber, ali, corpos vivendo sensações reais — algo que ela não reconhece na pornografia tradicional.
A Lust não aparece apenas como espaço de experiências episódicas, mas também como lugar de construção de vínculos duradouros. Foi ali que Liz conheceu o parceiro atual, relação que alterou sua dinâmica dentro da festa, tornando-a mais exibicionista, porém menos disponível para múltiplas relações. “Eu conheci o amor da minha vida na Lust”, celebra.
Ao comparar a Lust com casas de swing e festas heteronormativas, Liz destaca a inversão das lógicas de poder e desejo. Na festa, diz se sentir valorizada, protegida e central, em contraste com ambientes onde percebe a mulher como objeto de consumo masculino. “Na Lust, os homens estão lá para me servir. Eles me olham como se eu fosse algum tipo de divindade”, expõe.
Por fim, ela descreve a festa como uma espécie de suspensão do cotidiano, um mergulho intenso que não se mistura completamente com a vida fora dali, ainda que gere vínculos afetivos e amizades recorrentes.
Música, pista e cultura queer
Para o Dj e administrador da Lust Pedro*, o principal fator de excitação na festa não é a lotação da pista, mas a percepção de um ambiente seguro, onde as pessoas se sentem à vontade para explorar desejos sem medo ou julgamento dentro da cultura queer. “Já aconteceu de levar amigos pela primeira vez que tinham um pouco de medo da festa”, confessa.
A relação entre música e sexualidade, segundo Pedro, não acontece de forma isolada, mas está inserida em um contexto cultural LGBT+, cujos códigos, comportamentos e expressões influenciam diretamente a forma de tocar e de construir a pista. Mesmo com o sexo como diferencial, Pedro descreve a música da Lust como uma das melhores da cena. “E nos momentos que eu quis curtir mais de outras formas, também não vi nenhum problema. Inclusive é comum encontrar mulheres de topless, mulheres bem à vontade”, conta.
Pedro reforça que o consentimento está profundamente enraizado na dinâmica da festa. Para ele, os limites são claros, orgânicos e respeitados, justamente por fazerem parte de uma cultura em que o “não” é compreendido e aceito sem conflito.
As performances aparecem como um dos pontos mais intensos da experiência, funcionando como espelho e provocação. Ao observá-las, Pedro relata um processo constante de autoavaliação sobre desejos, limites pessoais e desconfortos possíveis. “Eu já presenciei algumas performances que me fizeram questionar quais eram os meus limites e perceber também até onde as pessoas vão dentro dos desejos dela”, avalia. “Você vê o que encaixa para você, o que não encaixa. E é isso, se você está incomodado, você se retira.”
Em determinados momentos, Pedro deixou de ocupar os papéis de DJ e administrador para viver a festa de forma mais pessoal — experiência descrita como libertadora e marcada pela suspensão da culpa associada ao desejo. “Eu acho que a gente tem que naturalizar o desejo”, argumenta. “A Lust é resistência. Resistência contra hipocrisia, resistência da cultura queer.”
*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado
Lust vs. Meta: processo em andamento
Oito anos de trabalho e mais de 17 mil seguidores foram perdidos quando a Meta deletou a conta da Lust no Instagram. De acordo com Igor, o perfil não compartilhava conteúdos explícitos ou ofensivos, mas sim corpos e beijos LGBTQIA+. Por isso, o idealizador agora move um processo contra a Meta na Justiça, determinando que a empresa restaure a conta na rede social — liminar não cumprida e nem amparada pelos envolvidos.
Igor reforça que, pelas redes sociais, as normas de consentimento e segurança são divulgadas, além do anúncio da própria festa. “O nosso processo deixa claro que não se trata de erro técnico, nem de decisão pontual de um moderador. Trata-se de um viés estrutural da rede. A própria Meta vem adotando políticas globais cada vez mais permissivas com discursos discriminatórios de ódio. Enquanto isso, conteúdos heterossexuais muito mais explícitos seguem circulando livremente”, lamenta.
“A Lust é uma festa de música eletrônica underground, inspirada nos principais clubes LGBTs de Berlim, onde a liberdade sexual não é tratada como tabu, mas como parte da cultura queer. E quando a gente fala em liberdade, falamos de liberdade para ser, para dançar, para desejar, para se exibir, para olhar, para vestir — ou não vestir. É um espaço seguro, baseado em consentimento, respeito e expressão”, finaliza Igor.


