Odaxelagnia: a inusitada forma de prazer com os dentes

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Vampiros brincam com o imaginário sexual de muitas pessoas não apenas pelo visual sexy, mas também pelo erotismo da mordida — que envolve possuir corporalmente a vítima.  Fora da ficção, as mordidas são o ponto alto do sexo para algumas pessoas. A odaxelagnia é um desejo sexual que envolve mordidas. É uma forma leve de sadomasoquismo, e o nível de força da mordida depende da tolerância à dor de cada pessoa.

A excitação sexual do ato de morder, ou ser mordido, é uma resposta sensorial ligada ao tato e à dor leve, que, para algumas pessoas, amplia a excitação e o envolvimento sexual, segundo a sexóloga e psicóloga Alessandra Araújo. Quando praticada de forma saudável e consensual, a odaxelagnia pode ser considerada um fetiche. Já a parafilia é descrita pela especialista como um desejo disfuncional e compulsivo. “Portanto, a mesma prática pode ser vista como um fetiche ou uma parafilia, dependendo do contexto em que se manifesta e dos impactos que tem na vida do sujeito”, explica.

Se você, leitor, sente prazer com mordidas durante o sexo, pode ficar tranquilo: Alessandra destaca que é comum. “O corpo humano possui uma vasta rede de terminações nervosas na pele, especialmente em regiões erógenas, e o contato físico mais intenso — como mordidas — pode ativar a liberação de endorfinas, dopamina e adrenalina, substâncias que aumentam o prazer”, argumenta. No entanto, isso não caracteriza necessariamente a odaxelagnia.

O tesão por mordidas não dialoga com o BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) obrigatoriamente. Embora muitos adeptos do BDSM incluam mordidas na dinâmica sexual, a odaxelagnia não é exclusiva desse universo. “Ela pode aparecer em relações afetivo-sexuais diversas, com ou sem dinâmicas de poder envolvidas”, afirma a sexóloga. “O ponto comum é o prazer gerado pela mordida, seja em um contexto lúdico, sensual ou estruturado por regras específicas de dominação e submissão.”

Vale lembrar que a prática oferece riscos físicos, principalmente quando há exagero na força ou ausência de cuidado. Mordidas muito intensas podem causar hematomas, lacerações, lesões na pele e até riscos de infecções, especialmente se houver rompimento da pele ou exposição a fluidos corporais. A especialista ressalta que é importante observar sinais do corpo e estabelecer limites claros, além de manter cuidados básicos de higiene.

Já em casos de parafilia – que Alessandra pontua causar sofrimento psíquico, interferir nas relações interpessoais, ser compulsiva ou envolver práticas não consensuais – é recomendável buscar o apoio de profissionais para compreender a dinâmica emocional envolvida. “Se a pessoa não consegue obter excitação sexual de nenhuma outra forma, ou sente culpa e angústia profunda em relação a esse desejo, pode ser um sinal de conflito interno que merece atenção”, discorre.

Antes de morder, converse!

Para a especialista, a comunicação sexual é uma das chaves para uma vida íntima saudável. Ao abordar o tema com o parceiro, Alessandra sugere escolher um momento apropriado — fora do ato sexual — e falar com clareza, sensibilidade e sem pressa. “O importante é escutar o outro com abertura e sem julgamento. Mesmo que a prática não seja imediatamente aceita, o casal pode negociar formas de se aproximar do desejo com cuidado e confiança mútua”, opina.

No ponto de vista da psicologia, é possível que certas experiências sensoriais vividas na infância influenciem, inconscientemente, as preferências sexuais na vida adulta. “A formação do desejo humano é complexa e multifatorial, envolve aspectos biológicos, psíquicos, relacionais e culturais. No entanto, isso não significa que toda preferência tenha uma ‘causa’ ou origem traumática”, diz.

A linha tênue entre dor e prazer é um fenômeno bem documentado tanto na neurociência quanto na sexologia. Conforme a especialista, a dor, quando controlada e percebida como segura, pode ativar os mesmos circuitos cerebrais que o prazer, especialmente quando associada a estados emocionais de confiança e entrega. Durante o sexo, o corpo pode liberar substâncias como dopamina e endorfina, que atenuam a dor e intensificam o prazer.

Alessandra relembra que a segurança e o consentimento são pilares fundamentais em qualquer prática sexual: “Para que a odaxelagnia seja vivida de forma saudável, o ideal é que os parceiros conversem previamente sobre seus desejos, limites e sinais de desconforto”. Ela recomenda começar com mordidas suaves e ir ajustando a intensidade conforme o feedback do outro, evitar regiões sensíveis e escutar afetivamente.

Bianca Lucca

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