Falar sobre prazer feminino é, essencialmente, dialogar sobre a desconstrução de séculos de silenciamento, culpa e desinformação. No Dia das Mulheres (8/3), discutir desejo, corpo e liberdade sexual também é reconhecer o direito de cada mulher de entender, expressar e viver o próprio prazer sem julgamentos. “Quando uma mulher assume o controle do próprio prazer, ela não está apenas mudando a dinâmica do quarto; ela está desafiando uma estrutura social inteira”, defende a sexóloga e psicóloga Alessandra Araújo.
O mito da passividade feminina resultou, conforme a especialista, no incômodo social da expressão sexual ativa das mulheres. “Historicamente, o papel da mulher foi o de objeto do desejo (aquela que é escolhida) e não o de sujeito do desejo (aquela que escolhe). Quando uma mulher diz exatamente o que quer e como quer, ela retoma a agência sobre seu corpo. Isso assusta porque quebra a hierarquia de poder tradicional, onde o homem detém o conhecimento e a condução do ato”, argumenta.
Para a sexóloga, não existe liberdade plena enquanto houver o policiamento interno do julgamento. “Se uma mulher propõe algo, mas passa o resto da noite se perguntando se o parceiro a acha depravada ou fácil, a mente dela não está no prazer, está na autovigilância”, aponta Alessandra. “A verdadeira liberdade sexual exige o desaprendizado da vergonha. É um processo de entender que o seu prazer não diminui o seu valor moral.”
Por isso, a mulher que deseja subverte o papel do controle. “A autonomia feminina começa quando o ‘eu quero’ se torna mais importante do que o ‘o que vão pensar'”, crava. Nesse cenário, o prazer surge como ato político. “Porque o controle sobre o corpo e o prazer das mulheres sempre foi uma ferramenta de controle social e reprodutivo. Reivindicar o orgasmo, o fetiche e o “eu quero assim” é uma forma de dizer que seu corpo não pertence ao Estado, à igreja ou ao parceiro, mas a você mesma. É uma rebeldia contra a ideia de que a mulher deve ser apenas cuidadora ou mãe, reafirmando-se como um ser de desejo e prazer”, diz a especialista.
Pensando nisso, o Blog Daquilo compilou relatos de mulheres reais sobre fantasias, desejos, experiências e descobertas de suas vidas sexuais. De diferentes orientações sexuais e idades, as mulheres compartilham da busca pela autonomia de seus corpos e da vivência do prazer em plenitude. Confira:
Tesão e desejo são processo extremamente mentais para F., mulher lésbica de 22 anos. “O flerte me desperta muito mais o desejo sexual do que o visual”, resume. “O flerte com as palavras é mais interessante pra mim do que receber um nude, por exemplo.” F. analisa o jogo de interesse muito mais excitante do que qualquer outra coisa.
Assumida desde os 13 anos, F. sempre observou o desejo homoerótico como um tabu, e as relações em segredo despertavam desejo. “Depois de me assumir, senti que isso se dissipou. Hoje me sinto muito mais atraída pela ideia de estar exposta, de viver algo à luz do dia com alguém, do que permanecer escondida à noite. Como lésbica, o que me intriga e me dá tesão é justamente a casualidade, o dia a dia, o cotidiano. Acho que isso tem relação com o fato de termos sido privadas disso por tanto tempo. Enquanto mulheres, o prazer é negado. E, quando se trata de mulheres lésbicas, muitas vezes ele é tratado como algo proibido.”
Sentir atração no que era dito proibido ainda é um fator que aumenta o tesão de F.: “Somos ensinadas a nos atrair por um tipo específico de homem — cis, branco, forte. E como é quando isso não acontece? Ou quando também se rompe com padrões de só se relacionar com pessoas magras ou brancas? Hoje vivo minha vida sexual de forma muito mais tranquila, compreendendo sem pudor o que me atrai e o que não me atrai. Existem expectativas sobre o que homens ou mulheres deveriam desejar, mas percebi que não preciso me encaixar em nenhum desses padrões.”
Foi quando iniciou sua vida sexual que F. notou que não tinha contato com uma educação sexual que fosse compatível ao tipo de sexo que estava praticando. “Tudo era muito heterocentrado, e faltava entendimento sobre como seria se relacionar com outro corpo. Muitas vezes dizem que é um corpo igual ao seu, mas não é: todos os corpos são diferentes, com suas próprias peculiaridades”, opina.
F. também afirma existir preconceitos dentro da própria comunidade LGBTQIABN+. “Eu, por exemplo, sou uma mulher que não performa tanta feminilidade e, visualmente, me aproximo do que socialmente se espera de um homem”, relata. “Isso levanta a questão: quais papéis deveriam existir numa relação, se é que eles precisam existir? Em alguns momentos, já fui colocada nesse lugar de quem não pode sentir prazer, apenas proporcionar. Para algumas pessoas essa lógica faz sentido, mas não necessariamente para mim. Sou observativa, passiva, versátil. Já me senti reprimida nesse sentido: por causa de uma característica visual, como se eu só pudesse sentir prazer de uma forma ou proporcionar prazer de outra.”
A tatuadora Amanda Morais, 27 anos, vivia imersa no mundo religioso na época da adolescência e tinha dificuldade de acessar sua sexualidade pelo medo de pecar. Até a masturbação gerava o sentimento de culpa. “Eu tinha na cabeça que Deus ia arrumar o homem da minha vida e eu ia me casar, e só aí eu ia começar a explorar minha sexualidade”, lembra.
Ao perceber discordâncias com a fé e seus próprios ideais, Amanda deixou a igreja e se permitiu fazer coisas antes ditas proibidas. “E uma delas, que eu morria de medo, era sexo. Na minha primeira vez eu me libertei de todas as culpas cristãs que eu tinha. Primeiro que não foi ruim. Diferente da primeira experiência de várias mulheres, foi uma experiência massa. Foi com um amigo meu, uma pessoa em quem eu confiava muito e é meu amigo até hoje.”
Finalmente, o que libertou a tatuadora foi notar que, no dia seguinte, a vida continuou normal. “Não caiu um raio na minha cabeça igual os crentes falavam que ia cair. Deus não começou a me odiar”, brinca. Atualmente, ela leva a vida sexual como experimentações longe de limitações.
“E aí veio a grande descoberta do século: homem é uma merda”, narra. Segundo Amanda, ela sempre foi bissexual — orientação que todos seus amigos sabiam, menos ela. Assim, a tatuadora percebeu ter várias outras opções disponíveis para se relacionar. “Quando você percebe que a pior mulher que você vai escolher é o melhor homem do mundo…”, reflete. “A gente acha que porque é mulher empoderada não vai passar por nada. E homem é um lixo porque a sociedade é feita pra eles. Eles entram na nossa mente de qualquer jeito.” Após sucessivas decepções masculinas, Amanda encontrou conforto sexual nas amigas.
C., 23 anos e heterossexual, perdeu a virgindade com o primeiro namorado aos 20. “Foi gradual: fui me descobrindo junto com ele, porque nenhum dos dois tinha experiência, e fomos entendendo como as coisas funcionavam, o que despertava desejo, o que dava prazer”, conta. “Muitas vezes fazia coisas que não me sentia confortável, mas percebi que ir pelo parceiro era algo que dava prazer. Comecei a entender a questão de sentir prazer e perceber que também mereço ser agradada durante a relação.”
Após término e um período celibatário, C. teve novas expeiências que a ajudaram a criar uma noção das coisas que gosta. “Isso influenciou minha postura como mulher, meu reconhecimento pessoal e a forma de demonstrar afeto e prazer a outra pessoa, independente do nível da relação”, celebra. “Aprendi, por exemplo, a sensação de deixar a outra pessoa dominar o momento, mas mantendo controle da situação. Coisas como ser enforcada ou tocar e ser tocada em lugares inesperados, passar a mão pela cintura durante o ato, ou prestar atenção em cheiros e sensações, contribuem muito para o prazer.”
Para ela, o despertar sexual acontece antes do ato em si. “O desejo começa no tratamento, na forma como a pessoa te trata, na sinceridade do gesto. A gente percebe quando é algo sincero ou apenas performático”, diz. Tímida, C. ainda relata certa dificuldade em expressar desejos e dar sinais claros, e credita isso à forma como a vida sexual feminina não é incentivada.
J., 35 anos, diz que a inteligência é o que mais desperta seu interesse em um homem. Mas não se refere a títulos ou currículo. “É aquela inteligência que aparece na conversa, na curiosidade, na forma como a pessoa transita por diferentes assuntos sem precisar posar de ‘sabe-tudo’”, explica. Para ela, é especialmente sedutor quando alguém se entusiasma ao compartilhar o que sabe e, ao mesmo tempo, se mostra aberto a aprender. “Um homem curioso, atento e espirituoso me conquista muito mais do que qualquer padrão de beleza.”
A forma como é tratada também pesa muito na construção do desejo. J. gosta de se sentir escolhida e valorizada nas pequenas atitudes do cotidiano. “Flores, presentes inesperados, abrir a porta do carro, puxar a cadeira no restaurante, segurar minha mão em público. Essas gentilezas me desarmam”, conta. Independente, ela afirma que sabe cuidar de si mesma, mas justamente por isso considera excitante quando um homem faz esse tipo de gesto por vontade própria. “Para mim, não existe combinação mais irresistível do que carinho misturado com safadeza. Essas duas coisas, na medida certa, são o tempero perfeito.”
Na intimidade, ela valoriza a construção lenta do momento. “Gosto muito de pele com pele, de sentir que existe uma tensão sendo criada”, relata. Gestos simples, segundo ela, podem ser extremamente provocantes. “Quando o homem chega devagar, encosta sem pressa, como quem não quer nada… uma mão que desliza pelas costas, um carinho no bumbum, dedos brincando no cabelo.” J. diz que cafuné é capaz de desmontá-la rapidamente, assim como beijos demorados no pescoço. “E tem algo que sempre me faz perder o controle: quando ele chupa meus seios. Quando é feito com atenção e vontade, às vezes me provoca um prazer que supera até o sexo oral.”
A fantasia também faz parte de seu imaginário. “A ideia de ser observada, ou pelo menos de imaginar que alguém poderia estar olhando, dá um tesão delicioso”, revela. Muitas vezes, explica, não é necessário que haja realmente alguém por perto. “Só a sugestão, a fantasia compartilhada, já aumenta a temperatura.”
J. também reconhece em si um lado aventureiro. Ambientes abertos e em contato com a natureza costumam intensificar sua experiência. “Lugares com água por perto, como rios, lago ou mar, e um céu estrelado. Esses cenários despertam algo mais instintivo em mim.” Nesses momentos, diz que gosta de uma intensidade maior. “Uma pegada mais firme, mãos que seguram com vontade, um puxão de cabelo, um toque mais forte no pescoço.” Para ela, o ambiente acaba liberando um lado mais selvagem — e é justamente isso que torna a experiência ainda mais prazerosa para ela.
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