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Assuntos ligados à intimidade continuam cercados por silêncio, mesmo em um contexto social mais aberto ao debate sobre sexo. Para muitas pessoas, expor dúvidas, inseguranças ou desejos ainda é desconfortável. É justamente nesse ponto que a inteligência artificial começa a ganhar espaço como alternativa de escuta.
Dados reunidos no relatório anual de 2026 da Lovehoney, com base em uma pesquisa realizada em 2025, ajudam a dimensionar esse comportamento. Entre mais de 2 mil participantes, 15% afirmaram conversar com IA sobre sexo. Dentro desse recorte, 52% disseram procurar os chatbots especificamente para obter conselhos sexuais.
Quando comparadas a outras formas de troca, a preferência chama atenção: entre esses mesmos usuários, 32% disseram buscar orientação com amigos e apenas 20% com parceiros. O cenário indica uma migração gradual para a IA como uma espécie de “terapeuta sexual”, percebida como mais acessível e menos constrangedora.
O papel da tecnologia, no entanto, vai além das dúvidas íntimas. Segundo a Lovehoney, os chatbots também vêm sendo utilizados como apoio em interações afetivas, funcionando como conselheiros em tempo real durante conversas: “Antes você talvez se angustiasse com uma troca de mensagens ou discutisse com amigos, agora você pode obter feedback instantâneo da IA. Você pode pedir que ela explique o contexto mais profundo de uma resposta e até mesmo perguntar qual a melhor maneira de responder”, diz o relatório.
Esse tipo de uso já ganhou um nome próprio: “chatfishing”, uma variação de “catfishing” — prática de criar perfis falsos com fotos de outras pessoas — combinada ao universo dos chats automatizados. Em alguns casos, a interferência da IA é tão profunda que perfis inteiros passam a ser construídos com seu auxílio, desde ajustes em imagens até a elaboração de biografias e a condução contínua das conversas.
Em situações mais extremas, há quem estabeleça relações afetivas e até sexuais com esses sistemas. O impacto disso já aparece no mercado: segundo a Appfigures, os gastos com aplicativos de acompanhantes de IA, como Replika, Nomi.ai e Kindroid, cresceram 200% no primeiro semestre de 2025 em comparação ao mesmo período do ano anterior, atingindo US$ 78 milhões. Paralelamente, a OpenAI anunciou que pretende liberar, ainda este ano, a geração de conteúdo erótico para maiores de idade, o que pode aprofundar esse tipo de vínculo.
Apesar do avanço, o uso da inteligência artificial como ferramenta terapêutica não é recomendado. Quando duas ou mais pessoas fazem perguntas semelhantes, o software tende a produzir respostas parecidas, sem considerar as particularidades das experiências sociais e a subjetividade de cada indivíduo.
Segundo o próprio Chat GPT, “usar uma IA como apoio para falar sobre sexualidade pode ser útil para tirar dúvidas, organizar pensamentos e acessar informações sem julgamento, especialmente em temas ainda cercados de tabu; no entanto, isso não substitui a terapia sexual conduzida por profissionais qualificados, como psicólogos ou sexólogos, que oferecem escuta clínica, acompanhamento contínuo e abordagem individualizada.”
A IA ainda reforça que a World Health Organization reconhece a saúde sexual como parte fundamental do bem-estar, o que inclui o acesso a cuidado especializado quando há sofrimento, dificuldades persistentes ou questões emocionais mais profundas. “Para muitas pessoas, conversar com uma IA pode ser mais confortável do que falar com alguém presencialmente, funcionando como porta de entrada para reflexões e até incentivando a busca por ajuda profissional”, afirma o GPT.
Outro ponto de atenção está na origem dessas informações. O programa de IA considera, em seus resultados, conteúdos populares em buscadores, como textos de blogs genéricos que nem sempre apresentam confiabilidade científica adequada, o que pode levar a interpretações equivocadas de condições clínicas. “Há o risco de respostas genéricas que não consideram a complexidade das experiências individuais, emocionais e sociais, o que pode limitar a compreensão de questões mais profundas ou delicadas”, alerta. Além disso, a tendência da IA de validar o usuário sem confronto pode comprometer processos mais profundos de elaboração emocional.
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