Guia do sexo seguro no carnaval: ISTs, gravidez e consentimento

Publicado em Educação Sexual
Breno Lopes/ASCOM/SECEC-DF

carnaval é tempo de festa, encontros e liberdade, mas também pede atenção aos cuidados com o próprio corpo e com o do outro. Em meio à euforia, é fácil deixar de lado informações básicas sobre sexo seguro, prevenção de ISTs, risco de gravidez e a importância do consentimento claro e contínuo. Este guia reúne orientações essenciais para curtir a folia com prazer, responsabilidade e respeito, sem transformar o depois da festa em preocupação.

Camisinha sim!

Na festa da carne, não vale ir despreparado mesmo que não exista a intenção inicial de transar. Segundo Ana Paula Beck, ginecologista do Einstein Hospital Israelita, o preservativo é essencial para evitar Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e gravidez indesejada. 

Erros comuns que reduzem a eficácia do preservativo incluem a colocação tardia (após início do contato genital) e o uso de lubrificantes oleosos com proteções de látex. “Armazenamento inadequado, uso de preservativos vencidos, rompimento por unhas ou dentes, e não segurar o preservativo na base durante a retirada”, Ana Paula exemplifica descuidos. “O CDC (Centers for Disease Control and Prevention) recomenda atenção especial a esses pontos para maximizar a proteção.”

Tanto o preservativo masculino quanto o feminino oferecem níveis semelhantes de proteção quando usados corretamente e consistentemente. “O preservativo feminino tem a vantagem de ser de iniciativa da mulher, mas enfrenta barreiras de acesso e aceitação”, acrescenta a ginecologista. 

“Além do preservativo, métodos contraceptivos como anticoncepcionais hormonais, DIU, implantes e injeções ajudam a prevenir gravidez indesejada, mas não protegem contra ISTs”, completa. 

Curtição sem infecção 

“Os principais cuidados preventivos contra ISTs durante o carnaval incluem uso correto e consistente de preservativos (externos e internos) em todas as relações sexuais”, resume Ana Paula. Então, antes de pensar em colocar a boca em membros de desconhecidos, lembre que a transmissão ocorre por qualquer troca de fluidos contaminados — seja com penetração e/ou ejaculação, ou sem. 

A especialista ainda recomenda outros métodos: “Vacinação contra hepatite A, hepatite B e HPV, e evitar o compartilhamento de objetos cortantes ou perfurantes.” Embora a via sexual seja a principal forma de contágio, o contato sanguíneo também é um transmissor. 

Ainda existe o uso da profilaxia pré-exposição (PrEP) e da profilaxia pós-exposição (PEP). Ana Paula esclarece: “A PrEP é indicada para pessoas com risco elevado de exposição ao HIV, como pessoas com múltiplos parceiros ou parceiros soropositivos. A PEP é indicada após exposição potencial ao HIV (relação desprotegida, violência sexual, acidente ocupacional). Ambas podem ser acessadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em serviços especializados.”

Álcool, drogas e pílula do dia seguinte

Durante o carnaval, não podemos ignorar que o consumo de álcool e drogas é incentivado e, consequentemente, a divulgação de cuidados específicos é importante. Conforme a especialista, tal consumo aumenta o risco de exposição a ISTs por reduzir o julgamento, aumentar comportamentos de risco e dificultar o uso correto do preservativo.

Nesse cenário, a pílula do dia seguinte surge como uma alternativa pós-descuido. “A pílula do dia seguinte pode ser usada com segurança após o carnaval, sendo indicada para situações de falha ou ausência de método contraceptivo”, argumenta Ana Paula. “Os riscos incluem alterações menstruais e, raramente, efeitos adversos; não há contraindicação absoluta para uso ocasional.”

Casos de hospital

Sinais após a relação sexual que indicam necessidade de procurar serviço de saúde incluem, de acordo com a ginecologista, lesões genitais, dor, corrimento, sangramento, febre, sintomas urinários ou exposição a situação de risco. “Beijo, sexo oral e contato íntimo sem penetração também podem transmitir ISTs, como herpes, sífilis, gonorreia, HPV e outras, especialmente se houver lesões ou contato com secreções”, reitera. 

Consentimento 

Para curtir o carnaval sem preocupações é essencial garantir um espaço de segurança e acolhimento nos bloquinhos. É isso que a campanha Folia com Respeito, criada por Letícia Helena, membro da Frente Ampla dos Blocos do DF, propõe ao colocar o combate ao assédio e à violência como parte central da organização da festa.

“É um protocolo aberto para blocos, plataformas, organizadores e fazedores de carnaval aderirem e, dentro dele, eles aceitam uma série de iniciativas que tomamos para ter um carnaval mais acolhedor e seguro, que é o que almejamos”, explicou Letícia ao Podcast do Correio. Segundo ela, o documento funciona como um guia de boas práticas que orienta desde a conduta das equipes até a forma de acolhimento do público.

Foi no carnaval de 2016 que a proposta surgiu, em resposta de combate a casos de assédio e violência sexual registrados nos bloquinhos, que acometem principalmente as mulheres e o público LGBTQIAPN. É importante que nenhum organizador, por exemplo, esteja respondendo por racismo, homofobia, LGBTfobia ou alguma questão relacionada à violência contra a mulher”, destacou. Os blocos que entram na campanha assumem o compromisso de realizar treinamento com as equipes para que saibam respeitar e receber o público diverso.