Para quem nasceu entre 1997 e o início dos anos 2010, crescer não significa necessariamente colocar a vida sexual no topo da lista de desejos. A geração Z tem demonstrado que, antes da intimidade física, eles priorizam o descanso, a segurança profissional e a construção de relações equilibradas.
Um levantamento recente da plataforma EduBirdie, realizado com 2 mil jovens, revela esse reposicionamento de prioridades: 67% afirmam preferir dormir tranquilamente a fazer sexo. A estabilidade no trabalho aparece logo em seguida, com 64% dizendo priorizar um emprego seguro. Já 59% estão concentrados em alcançar sucesso pessoal. A vida sexual, embora presente, não ocupa o primeiro plano.
Para a sexóloga e psicóloga Alessandra Araújo, os jovens enfrentam uma ansiedade econômica e climática constante que se sobressai a preocupação sexual. “O mundo parece muito mais instável e caro do que era para os pais deles”, resume. “Em uma rotina de excesso de telas e cobrança por produtividade, dormir bem virou um símbolo de status e saúde mental. O prazer imediato do sexo muitas vezes exige uma energia que o jovem, exausto, prefere investir na própria recuperação. Ter um boleto pago e a saúde mental em dia traz um alívio que, para muitos, é mais excitante do que um encontro casual que pode gerar mais ansiedade do que prazer”, explica.
As conexões também passam por outros caminhos. Metade dos entrevistados declarou valorizar amizades de qualidade, enquanto 46% disseram preferir passar um tempo sozinhos a ter relações sexuais. O dado sugere que solitude e vínculos afetivos sólidos têm mais peso do que a frequência da intimidade física.
Isso não significa ausência de experiências. Entre os jovens ouvidos, 37% já tiveram relações sexuais, 29% relataram experiências em locais públicos e 23% admitiram trocar mensagens de teor sexual no ambiente de trabalho. O sexo continua existindo, apenas não é o eixo central da vida.
Assim, o conceito de intimidade se transforma, mas ainda existe. “A Geração Z está trocando a quantidade pela qualidade”, opina Alessandra. “Eles valorizam muito a conversa, a conexão mental e o que chamamos de intimidade digital (trocar memes, vídeos e passar horas conversando por texto). Para eles, transar por transar pode parecer vazio. Eles buscam parcerias onde se sintam seguros e validados emocionalmente antes de irem para a cama.”
A tendência não se restringe a um único estudo. Dados do Instituto Kinsey, da Universidade de Indiana, com mais de 3.310 pessoas de 71 países entre 18 e 75 anos, apontam que a geração Z faz menos sexo do que as gerações anteriores. Segundo o levantamento, esses jovens relataram três relações no último mês, número idêntico ao dos baby boomers. Já as gerações Y e X indicaram média de cinco vezes mensais.
O contraste chama atenção: mesmo sendo vistos como mais conectados e liberais, os jovens de hoje parecem reorganizar desejos e expectativas, colocando outras dimensões da vida à frente da intimidade sexual. “Enquanto as gerações passadas lutavam por liberdade sexual, a Geração Z parece estar usando essa liberdade para escolher… não transar tanto. E não, isso não significa que eles perderam o brilho, mas que as prioridades mudaram”, diz a psicóloga.
“Não é que eles não gostem de sexo, é que eles são a primeira geração a colocar a paz de espírito acima da obrigação de ser sexualmente ativo o tempo todo”, complemeta. A queda da frequência sexual pode ser explicada por três fatores principais, conforme a especialista:
- A paralisia da escolha: Com os aplicativos de relacionamento, a oferta parece infinita. Isso gera um cansaço mental; as pessoas ficam exaustas de tanto deslizar e acabam não concretizando nada.
- Ansiedade de performance: Vivemos na era do vídeo e da imagem perfeita. O medo de não ter o “corpo do Instagram” ou de não ser incrível na cama (muitas vezes por causa da expectativa irreal criada pela pornografia) faz com que muitos jovens prefiram evitar o sexo para não terem que lidar com o julgamento.
- Esgotamento digital: O excesso de dopamina que o cérebro recebe nas redes sociais deixa a pessoa anestesiada. Depois de 4 horas rolando o TikTok, o cérebro está tão cansado que a ideia de interagir fisicamente com outro ser humano parece um esforço máximo.

