Homens afeminados ganharam protagonismo com a chegada de Juliano Floss no BBB 26. O dançarino, que namora a cantora Marina Sena, revelou que faz xixi sentado, chora publicamente e veste roupas coloridas. Tais atitudes caracterizam o chamado “homem açucarado”, ou “femboy”, termos que, antes usados de forma pejorativa, representam o sonho de muitas mulheres que fogem do padrão “hétero top”.
Mesmo que performem feminilidade, isso não significa que esses homens integrem a comunidade LGBTQIA+. A sexóloga e psicóloga Alessandra Araújo difere identidade de gênero, expressão e orientação sexual:
A atração de mulheres por homens afeminados pode ser explicada por uma fuga de estereótipos de gênero prejudiciais para ambos os lados. O cansaço do modelo rígido relacional culmina em novos movimentos sociais, como a tendência da opção pela solteirice e a procura de conexão com héteros sensíveis. “O modelo do “hétero top” (masculinidade rígida, dominadora e muitas vezes emocionalmente inacessível) tem gerado fadiga”, analisa Alessandra.
Para a especialista, a quebra da performance de “macho alfa” sinaliza que aquele homem está confortável com sua vulnerabilidade, facilitando a conexão emocional e diminuindo a barreira do medo ou da agressividade latente. “Mulheres relatam que a intimidade com homens que abraçam o feminino tende a ser mais comunicativa e menos focada apenas no desempenho mecânico”, afirma a sexóloga. “Também existe uma valorização da vaidade e do autocuidado, características que o patriarcado tentou excluir dos homens.”
A quebra de expectativas de gênero também impacta a performance sexual. “Quando o homem não precisa ocupar o lugar do “provedor de prazer inabalável”, ele pode explorar novas zonas erógenas e posições que a masculinidade tóxica proibiria”, Alessandra expõe. “Homens que desafiam normas de gênero costumam ter maior repertório para falar sobre sentimentos e limites, o que é a base para um sexo consensual e prazeroso.”
Ao desconstruir o esperado de como os homens devem agir e apresentar-se socialmente, os femboys — termo originalmente homofóbico surgido nos anos 1990 para designar homens que não performam uma masculinidade tradicional — tomaram conta das redes sociais. Prova disso é que a hashtag no Tik Tok acumula mais de 1 milhão de publicações.
Além disso, os afeminados dominaram as buscas por conteúdos adultos. Segundo o relatório Year in Review 2025, do Pornhub, o termo foi um dos mais pesquisados nos últimos anos, ainda em tendência de crescimento, figurando, pela primeira vez, o Top 10 mundial de buscas e o primeiro lugar no ranking do Pornhub Gay. Os vídeos consistem em homens de sutiã e calcinha, maquiagem, perucas e até de cosplay.
No entanto, a popularização desses termos via pornografia é uma faca de dois gumes, conforme Alessandra. Por um lado, promove visibilidade a corpos e desejos que antes eram invisibilizados ou punidos. Por outro, reproduz estereótipos. “Frequentemente, a pornografia reduz o homem afeminado a uma caricatura de passividade ou a um “objeto de consumo” exótico. Isso gera o risco de fetichização, onde a pessoa real desaparece por trás de um rótulo erótico (tag), dificultando conexões humanas reais fora das telas”, justifica.
Entre tantos termos que se popularizaram no ambiente digital, os internautas podem ficar confusos com seus respectivos significados. Embora o próprio Juliano Floss já tenha sido associado ao termo twink, não se trata da mesma coisa que o femboy. “Twink é um termo da subcultura gay para homens jovens, magros e com poucos pelos. Refere-se mais a um biotipo e idade do que necessariamente a uma performance feminina extrema”, diverge Alessandra. Já femboy foca especificamente na performance da feminilidade por parte de alguém que se identifica como homem.
Do outro lado da expressão, existe a confusão entre tomboy e desfem. O primeiro seria uma espécie de femboy feminina, uma mulher que identifica-se com estéticas e trejeitos masculinizados. “Desfem (desfeminização consciente) é um movimento, muitas vezes político e lésbico, que questiona a obrigatoriedade da feminilidade como uma ferramenta de agrado ao olhar masculino”, diz a sexóloga. “Essas expressões mostram que o desejo não precisa ser pautado pela complementaridade de opostos (masculino vs. feminino), mas pela afinidade e subversão das normas.”
O preconceito contra o “feminino no homem” é uma das formas mais cruéis de controle social, de acordo com a especialista. Isso descreve a afeminofobia, que é o preconceito, desprezo ou aversão a pessoas que fogem dos padrões tradicionais de gênero. “Ocorre inclusive dentro da comunidade LGBTQIA+, onde o “masculino” ainda é supervalorizado”, ilustra.
“Homens afeminados enfrentam maiores taxas de isolamento, violência e depressão, pois sua simples existência desafia a estrutura de poder masculina. Reivindicar o direito de ser afeminado é um ato de saúde mental e resistência política”, Alessandra defende. “É preciso reforçar que a performance (usar saia) não dita a identidade (ser trans ou cis) nem a orientação (ser gay ou hétero). O respeito a essa fluidez é o que permite que o desejo se transforme em algo libertador, e não em mais uma caixa de rotulagem.”
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