Luís Müller
Originário do Japão, o Shibari é uma prática de amarração com cordas que combina técnica, estética e conexão entre as pessoas envolvidas. Embora tenha raízes históricas em métodos de imobilização, ao longo do tempo ele se transformou em uma forma de expressão corporal que pode aparecer tanto em contextos artísticos quanto no universo do BDSM.
Dentro dessa comunidade, o Shibari costuma se relacionar ao bondage, termo usado para descrever práticas de restrição consensual do corpo. Nesse contexto, as cordas não servem apenas para limitar movimentos, mas também para criar uma experiência sensorial, emocional e simbólica baseada em confiança, comunicação e consentimento entre quem amarra — chamado de rigger — e quem é amarrado — apelidado de rope bunny.
Mais do que um conjunto de nós ou posições, a prática envolve cuidados técnicos para garantir segurança física e emocional. Na cena shibarista de Brasília há 8 anos, Mariana de Melo destaca que a comunicação da prática acontece nos detalhes corporais: tensão, relaxamento, respiração e olhar. “Nos primeiros contatos, a conversa ainda pode ser necessária para alinhar expectativas e limites. Depois disso, pequenas reações corporais passam a orientar a condução da sessão”, narra
Segundo a especialista, cada pessoa reage de maneira diferente à experiência com cordas. Algumas preferem contato físico constante, enquanto outras se sentem mais confortáveis com mais distância ou silêncio. Em determinados momentos, podem surgir gatilhos emocionais ou ansiedade. O cuidado após a sessão também varia. Por isso, os combinados prévios são considerados essenciais, inclusive para definir o que acontece depois da prática.
Além do aspecto emocional, a segurança física é parte central do Shibari. Durante a sessão, são realizados testes para verificar circulação, força e sensibilidade. “Existem alguns feedbacks físicos que a gente faz e alguns testes que a pessoa faz para perceber se a sensibilidade tá normal, se houve perda de força ou de movimento para que a gente consiga ajustar a estrutura para que ela se mantenha confortável e segura”, explica. Essas verificações incluem observar o movimento das mãos, dedos e pés, já que a pessoa amarrada pode não perceber imediatamente sinais de comprometimento da circulação.
Mesmo em práticas que não se enquadram diretamente no BDSM, Mariana recomenda o uso de palavras de segurança. Quando a pessoa não pode falar, um gesto combinado também pode funcionar como sinal de parada.
Para iniciantes, uma das maiores surpresas é perceber que a experiência pode ser bem diferente da imagem associada à dor, conforme a shibarista. Outra sensação relatada é o chamado “bêbado de corda”, provocado por respostas hormonais do corpo. “Você fica se sentindo meio chapado, quase como se você tivesse fumado maconha. Não é a mesma sensação, mas é semelhante.”
Quem deseja experimentar a prática deve buscar orientação técnica adequada. “Quando a gente é iniciante, a gente vai em busca do que a gente tá vendo. Geralmente, a gente tenta reproduzir os nós, as fricções e a teoria. E essa é a parte mais rasa do Shibari”, Mariana argumenta. O conhecimento mais profundo envolve anatomia, pressão correta das cordas e posicionamento seguro no corpo.
Akasha Yukimura, artista das cordas, resgata as origens do Shibari: “Lá no Japão feudal existia uma técnica que era usada por samurais e guardas para amarrar prisioneiros. As cordas serviam para imobilizar, transportar e até mostrar o status social da pessoa presa, porque o jeito de amarrar mudava dependendo da situação.” Com o passar do tempo, essas técnicas começaram a influenciar artistas e fotógrafos japoneses, dando origem a uma abordagem mais estética e erótica da prática.
Para Akasha, conduzir uma cena vai além da estética e do erótico. “Na minha visão, ele tem algo quase meditativo e até espiritual, porque o toque das cordas no corpo cria um tipo de presença muito profunda”, descreve. “Eu costumo comparar com algumas sensações que aparecem em práticas corporais sensíveis, tipo massagem tântrica. Não estou dizendo que é a mesma coisa historicamente, mas na minha percepção, o deslizar das cordas, a pressão em certos pontos do corpo e a respiração entre as pessoas podem levar a estados bem parecidos de relaxamento e consciência do corpo.”
Uma das formas que a artista encontrou para explicar essa vivência foi associar o Shibari aos cinco elementos. “Dentro do meu trabalho, eu desenvolvo uma abordagem que chamo de Shibari Ritual dos Cinco Elementos”, intitula. Nessa leitura simbólica, cada elemento representa uma dimensão sensorial da prática. “A terra, pra mim, aparece quando as cordas envolvem o corpo e trazem aquela sensação de firmeza, de contenção, quase como um abraço forte.” Já o fogo se manifesta no aspecto erótico e na intensidade da cena. “Sobre a tensão da cena, no olhar entre as pessoas. É aquela energia mais instintiva que aparece quando existe desejo e intensidade.”
A água, segundo ela, está associada ao movimento. “Quando as cordas estão sendo passadas e o corpo de quem amarra se move junto com o corpo da pessoa que está sendo amarrada, tudo fica muito fluido.” O ar aparece na respiração e nas pausas. “Tem momentos de silêncio e presença que deixam tudo mais leve e muito consciente.” Por fim, o éter representa uma dimensão mais profunda da conexão. “Seria aquele momento em que a conexão fica mais profunda, quase como se as duas pessoas entrassem num estado de transe ou meditação juntos.”
Dentro da abordagem que desenvolveu, o corpo também assume um papel central de movimento. “Muitas vezes as pessoas são colocadas em posições inspiradas em posturas do Kama Sutra ou em posições que lembram posturas do yoga.” A partir dessas posições, o corpo se desloca lentamente para outras formas. “Esse movimento cria uma sensação de fluxo, quase como uma dança conduzida pelas cordas.”
A respiração também é trabalhada durante a amarração. “Muitas vezes ela é conduzida de forma consciente para ajudar a pessoa a relaxar, sentir mais o próprio corpo e acompanhar o ritmo da experiência”, afirma. Para Akasha, essa combinação entre movimento, respiração e contato transforma a prática em uma experiência sensorial integrada.
Além da dimensão sensorial, Akasha também explora elementos do universo BDSM em suas práticas. “Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é spanking (palmada). Eu gosto porque cria uma intensidade no corpo, mas também um jogo de energia entre quem conduz e quem recebe.” Outro aspecto que ela destaca é o toque no corpo da pessoa amarrada. “Às vezes eu gosto de levar a pessoa para um lugar de realmente endeusar o próprio corpo.”
A confiança entre as pessoas envolvidas também aparece como elemento central da experiência. Quando esse vínculo existe, a pessoa amarrada tende a relaxar mais e se permitir explorar as sensações. “Isso aprofunda a conexão e permite que a experiência seja vivida com mais intensidade”, Akasha justifica.
Para quem tem curiosidade sobre a prática, uma das maiores surpresas costuma ser perceber que o Shibari vai além da ideia de restrição. “Na prática, o que aparece com frequência é uma percepção muito mais intensa do corpo, do toque e da respiração”, crava. “O primeiro passo é buscar informação e começar com calma. Conversar sobre limites, experimentar amarrações simples e manter comunicação constante durante a prática são pontos fundamentais.”
Por gostar de dinâmicas de submissão e dominação, Emily Alves se aventurou no mundo das cordas por convite da amiga Akasha, quando descobriu o prazer de ser amarrada. “Tudo me atrai, mas principalmente o silêncio que se instaura na minha mente durante a sessão, é quase uma terapia misturada com meditação”, ressalta a rope bunny. “Mas com certeza a dinâmica de poder me agrada muito, poder ter a confiança de entregar seu corpo de forma tão vulnerável a outra pessoa é libertador.”
Em algumas sessões, o prazer entra em convergência com a dor. “Tento me controlar para não sentir tanta excitação, acaba sendo uma forma de tortura”, brinca. “Mas muito prazeroso com certeza.” Relaxamento, euforia e conexão são alguns dos sentimentos que a dominam após o término da prática, quando é cuidada pelo rigger e absorve as sensações resultantes.
Confiando no amarrador, Emily nota uma submissão silenciosa, na qual a concentração está apenas no sentir as cordas contra o corpo. “A vulnerabilidade foi uma forma de trabalhar o toque sem focar no lado sexual”, descreve. “É claro que vão haver sessões onde temos esse acordo onde faremos coisas que focarão nesse lado mais erótico, e é algo muito intenso e profundo.”
Identificado apenas como rigger, o amarrador de Emily resume o significado da palavra shibari: amarrar, atar, unir, ligar. “Com a ocidentalização do termo, ele passou a significar essa prática de bondage”, reitera. “Uma outra palavra que faz mais sentido, mas que no português a gente não usa, é o kimbaku, que tem mais a ver com a dimensão erótica.”
Para ele, quem é amarrado tende a sentir mais intensidade devido a entrega. “Há um efeito somático, psíquico e corporal que produz intensidade por meio de acolhimento, sensualidade e erotismo cúmplice”, diz. “Entregar-se ao controle do outro pode ser extremamente erótico, sensual e prazeroso. Após a sessão, deve haver espaço para discutir o que funcionou e o que não funcionou.”
Na cena paulista do Shibari, Dom Rabbit, como é conhecido artisticamente, aponta que a intensidade de uma sessão nasce da conexão entre quem amarra, quem é amarrado e o espaço que se constrói entre os dois durante a prática. “Para mim, a intensidade depende da conexão entre três elementos: as duas pessoas e um ponto de encontro, um espaço único. Essa entrega é genuína e sem dúvida”, desenvolve.
O contexto da sessão também influencia diretamente a dinâmica. Em ambientes privados, Dom explica que o processo tende a depender menos de conversa e mais da leitura corporal. Já em apresentações públicas ou sessões com foco estético, a abordagem muda. “O foco muda para ressaltar curvas ou pontos específicos do corpo, utilizando a corda e a linguagem corporal para destacar beleza e forma”, diverge.
A confiança entre as duas pessoas é apontada por Dom como um dos pilares da prática. “Dominar a técnica e não colocar a pessoa em risco é essencial.” Ao mesmo tempo, quem é amarrado também participa ativamente da dinâmica. “A pessoa amarrada precisa se entregar, permitindo liberdade de movimento suficiente para que a amarração seja eficaz e prazerosa.” Antes das sessões, ele recomenda alguns cuidados básicos: roupas confortáveis e alimentação leve antes da sessão.
A construção da intimidade começa antes mesmo de as cordas entrarem em cena. “Transformar a sessão em uma experiência íntima envolve compreender as expectativas da pessoa e suas preferências”, desenvolve.
Assim, entre técnica, estética e entrega emocional, o Shibari revela um universo que vai além da imagem das cordas. Para iniciantes ou curiosos, os praticantes reforçam que informação, comunicação e respeito aos limites são os principais pontos de partida para explorar esse universo.
A sexta-feira 13 costuma ser cercada por superstições, histórias de azar e rituais curiosos. Mas,…
Frequentemente citada em memes, piadas nas redes sociais e conversas informais sobre sexo, a chamada…
Foi para preencher a lacuna de uma retratação fragmentada da sexualidade que Alessandra Araújo, psicóloga clínica e…
A ideia de que o desejo sexual atinge o ápice na juventude ainda persiste no…
Nos últimos meses, relatos curiosos começaram a circular nas redes sociais sobre um suposto efeito…
Lubrificantes íntimos são conhecidos por ajudar a tornar o sexo mais confortável e prazeroso, diminuindo…