Misturar autoridade com cuidado na cama é a essência do daddy kink, uma fantasia erótica em que um parceiro assume o papel de “daddy” (papai, em tradução livre) — dominante, protetor e atento — enquanto o outro se posiciona de forma submissa ou receptiva. Apesar do nome assustar os desavisados, a prática não envolve relações familiares reais, funcionando como um jogo simbólico de poder e um arquétipo de proteção, autoridade e cuidado.
Mesmo que polêmico por fazer alusão a relações biológicas, o fetiche é uma das dinâmicas de poder mais populares e discutidas na sexologia atual, conforme a sexóloga e psicóloga Alessandra Araújo. A prática, em suma, é um jogo de papéis (roleplay) focado na polaridade. “O que excita é a combinação de autoridade (alguém que dita as regras) com o cuidado (alguém que protege)”, resume a especialista. “Para quem está no papel submisso, o prazer vem de entregar as rédeas, sentindo que pode ser vulnerável porque há alguém mais forte no controle.”
O simbolismo do termo paterno, por sua vez, remete a um lugar de segurança. “A palavra evoca a figura do provisor, de quem sabe o que é melhor e de quem valida. É uma forma de dizer: ‘eu confio tanto em você que aceito sua autoridade sobre mim’”, explica Alessandra. Aquele que assume o papel de daddy geralmente sente prazer em cuidar e mandar. “Isso pode envolver desde pagar jantares até dar suporte emocional intenso.”
Combinar proteção e dominação é psicologicamente estimulante devido a resposta do sistema nervoso ao prazer do cuidado — e de se deixar ser guiado. “Ter que ser forte, independente e decidir tudo o dia inteiro é exaustivo. No sexo, ser dominado por alguém que te protege permite um relaxamento profundo do sistema nervoso”, justifica a especialista.
Na dinâmica, a linha tênue entre a fantasia de poder e a dependência emocional é marcada pelo consentimento e pela autonomia. A sexóloga difere:
Para a maioria dos adeptos do daddy kink, o fetiche é apenas um jogo erótico que termina junto do sexo. Para outros, a prática evolui para o TLC (Total Power Exchange) ou o estilo de vida DDLG (Daddy Dom/Little Girl), onde a dinâmica de cuidado e autoridade se estende para o dia a dia. “Como o daddy lembrando a parceira de beber água ou organizar a agenda”, Alessandra exemplifica.
Dentro do roteiro do fetiche, ainda podem surgir elementos especificamente acordados entre o casal, muitas vezes envolvendo ciúmes, posse e comando. “A ideia de que “você me pertence” é um tempero comum. No entanto, na vida real, isso deve ser uma encenação. O ciúme de cena é excitante; o ciúme que gera proibição de ver amigos ou controlar o celular é abuso”, destaca a especialista, pontuando sinais que indicam uma dinâmica saudável e manipulação:
Quando bem vivido, Alessandra defende que o daddy kink fortalece absurdamente a intimidade do casal, pois exige uma confiança cega. “O desequilíbrio só é um problema se não for consensual”, crava. “No BDSM, dizemos que “o submisso é quem detém o poder real”, porque é ele quem dá o limite de até onde o dominante pode ir.”
Por fim, a sexóloga desmistifica uma das crenças mais polêmicas acerca do fetiche: a carência afetiva intrínseca. “Você pode ter tido um pai maravilhoso e ainda assim querer um “daddy” porque gosta da dinâmica de poder. A diferença está na consciência. Buscar um substituto para uma carência é tentar curar um trauma através do sexo. Pode funcionar como um alívio temporário, mas o fetiche não substitui a terapia para resolver feridas de infância”, completa.
Assim, as definições freudianas do Complexo de Édipo não foram atualizadas, mas sim as expressões sexuais ganham cada vez mais espaço para serem praticadas com segurança, consentimento e prazer.
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