Crédito: Guto Andrade
Já imaginou transar com um dominador profissional? Esse é o trabalho de Gabe Spec, popular nas redes sociais por produzir conteúdos sobre a vida de prostituto destinado exclusivamente ao público feminino. Entre humor e vídeos picantes, ele conquistou milhares de seguidores com seu carisma — e o Blog Daquilo conversou com ele para saber mais detalhes sobre sua vida.
Gabe tinha 19 anos quando começou a trabalhar como profissional do sexo. Hoje, quase dez anos depois, ele se define como o primeiro homem hétero no Brasil a viver exclusivamente de atendimentos a mulheres — algo que, segundo ele, vai muito além da transa. “Foram anos muito conturbados no início. Eu não tinha liberdade de escolha, precisava atender homens também. Só depois que comecei a viralizar nas redes é que passei a atrair o público feminino”, conta.
A motivação inicial foi financeira. “Foi dinheiro, mesmo. Necessidade. Eu estava passando por uma situação familiar complicadíssima, uma guerra judicial entre meus pais, e acabei rompendo com todo mundo.” A independência veio junto com o autoconhecimento e a descoberta de um novo nicho. “Tem outros profissionais héteros, mas eu sou o primeiro a ganhar a vida só com mulheres. Isso abriu um campo enorme de pesquisa: entender por que elas contratam, o que buscam, o que se repete.”
O primeiro contato com uma cliente é sempre imprevisível. “É um mix. Depende muito do objetivo. O homem é muito carnal: chega, abaixa a calça e pronto. A mulher não. Tem as que querem se descobrir sexualmente, as que querem melhorar a performance, as que vêm pra curar bloqueios emocionais”, narra.
Muitas mulheres que sofreram abusos e estupros e não conseguem mais se relacionar também procuram Gabe. “Elas não querem qualquer homem, querem alguém que saiba lidar com os gatilhos. Às vezes o atendimento é o primeiro passo para se reconectarem com o próprio corpo.”
No entanto, Gabe não se anuncia em sites de acompanhantes — “quem entra nesses sites é homem” — e usa apenas as redes sociais para se divulgar. “Meu alcance vem do humor, do conteúdo sobre prazer e sexualidade. Meu Instagram chegou a cair, eu ganhei na justiça, mas ficou cheio de restrições.” O cachê é definido: “R$ 1.000 a hora, mas faço pacotes. Se quiserem 24 horas, sai R$ 5.000. Eu queria cobrar 24 mil, mas seria insalubre”, brinca.
Submissão
Entre os fetiches mais comuns das clientes, Gabe cita submissão e restrição. “Elas gostam muito de privação de orgasmo. No geral, vêm pra descobrir que fetiches têm. Dificilmente encontro uma submissa experiente.” Segundo o dominador, a maioria busca condução.
“Elas gostam de serem guiadas, de ouvir ‘faz isso, faz aquilo’. A sessão tem regras e protocolos. Se me chamar do jeito errado, leva punição.” Práticas como spanking, bondage, controle de prazer e orgasmo forçado são recorrentes. “O BDSM não depende do sexo, mas por eu ser prostituto e dominador, elas sempre querem unir as duas coisas”, explica.
O aprendizado sexual e o título de dominador profissional resultaram da prática e da observação. “Tem cursos no Brasil, mas o que conta é o olhar. Você precisa bater o olho e entender o perfil da pessoa. Se é alguém que precisa de cuidado, você é mais soft dom; se é mais slave, pode ser mais impetuoso. São muitos anos estudando e até hoje eu estudo”, argumenta.
Antes de qualquer sessão, Gabe envia um formulário para definir limites e zonas de toque. “Tem palavra de segurança, claro. Se disser ‘vermelho’, tudo para. E não é parar e continuar devagar — é parar mesmo, tirar a venda, acalmar, conversar. No BDSM você trabalha com poder, e poder sem consentimento é abuso”, esclarece.
A rotina exige equilíbrio emocional. “Terapia sempre. Eu lido com muita dor. Muitas mulheres projetam em mim uma expectativa de cura, e eu sei que não sou terapeuta. Sou um facilitador.” Para descarregar, ele faz academia, meditação e sessões com o próprio psicólogo. “Já tive burnout por causa da carga emocional. É lindo quando uma cliente chora e diz: ‘Você me fez sentir viva de novo’. Mas é pesado.”
Gabe afirma que vê transformações reais nas mulheres que atende. Muitas delas chegam com vergonha e sem conhecimento, mas saem se sentindo poderosas. “Recebo mensagens tipo ‘consegui transar com meu marido sem fingir’ ou ‘me toquei sem culpa’. Isso não tem preço”, declara.
Mesmo com reconhecimento, o preconceito é constante, e Gabe muitas vezes é definido como promíscuo. A solução para lidar com ataques e a censura das redes é o humor. O público é majoritariamente composto por mulheres entre 30 e 55 anos. “São independentes, bem-sucedidas, muitas divorciadas ou em relacionamentos abertos. As mais novas querem aprender, as mais velhas querem sentir de novo”, ilustra. O que todas têm em comum é o desejo de reconexão.
Uma das histórias mais marcantes foi a de uma cliente que havia sido abusada e não conseguia se despir diante de um homem. “Ficamos três encontros só conversando. No quarto, ela pediu pra tirar a roupa, mas sem que eu olhasse. No final, chorou e disse: ‘Pela primeira vez, alguém me viu com respeito’. Aquilo me desmontou”, relembra.
Para as que desejam encontrar Gabe nas redes sociais — por prazer, curiosidade ou até mesmo pelos vídeos de humos —, ele responde pelo perfil @gabespec-ofc. Mais do que um personagem provocante das redes, ele se consolidou como um símbolo de uma nova visão sobre o desejo feminino e o papel do homem no prazer — com humor, respeito e uma boa dose de poder.
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