{"id":1895,"date":"2018-11-07T22:36:34","date_gmt":"2018-11-08T00:36:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/consultoriosentimental\/?p=1895"},"modified":"2018-11-09T19:47:01","modified_gmt":"2018-11-09T21:47:01","slug":"amor-nem-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/consultoriosentimental\/amor-nem-sempre\/","title":{"rendered":"AMOR? NEM SEMPRE (consultas de leitores)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff0000\">\u00c9 impressionante a quantidade de mensagens que recebo de homens e mulheres desesperados porque perderam ou temem perder &#8220;seu grande amor&#8221;. S\u00e3o pessoas que relatam a sensa\u00e7\u00e3o de morte iminente s\u00f3 de pensar que podem passar o resto de suas vidas longe do ser &#8220;amado&#8221;.\u00a0 S\u00e3o pessoas que est\u00e3o dispostas a tudo para garantir que isso n\u00e3o aconte\u00e7a, inclusive matar e morrer.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000\">Ningu\u00e9m quer perder nada, muito menos um grande amor. Mas a maioria delas relata relacionamentos no m\u00ednimo assustadores, em que sofrem abusos de todo tipo. Muitas dessas rela\u00e7\u00f5es &#8220;amorosas&#8221; nem deveriam ter passado do primeiro m\u00eas, embora j\u00e1 durem d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000\">Por isso resolvi postar o texto abaixo, que escrevi em 2007. Ele \u00e9 uma orienta\u00e7\u00e3o a todos que est\u00e3o passando por essa dor e me pedem ajuda.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #0000ff\"><strong>AMOR? NEM SEMPRE<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Na semana passada, eu conversava com uma paciente que, seguindo minha orienta\u00e7\u00e3o, procurou um psiquiatra, recebendo dele um diagn\u00f3stico de transtorno obsessivo-compulsivo &#8211; o famoso TOC. Ao me relatar a consulta, ela se mostrou um pouco preocupada com esse resultado e com a medica\u00e7\u00e3o prescrita. Mas sua maior inquieta\u00e7\u00e3o era quanto a contar ao ex-marido sobre o tratamento, na esperan\u00e7a de que ele, sabendo que ela buscou ajuda, aceitasse voltar pra casa, embora o casamento tenha sido p\u00e9ssimo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Lembro de, olhando pra ela, ter pensado &#8220;Quanto de amor existe nesse desejo de reconcilia\u00e7\u00e3o? Quanto disso sobreviver\u00e1 ao tratamento medicamentoso e \u00e0 psicoterapia?&#8221;. Porque, muitas vezes, o &#8220;amor&#8221; sentido n\u00e3o passa do resultado de leituras distorcidas feitas por um c\u00e9rebro quimicamente desequilibrado. J\u00e1 testemunhei paix\u00f5es avassaladoras desaparecerem com trinta dias de antidepressivo. E h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o para isso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Peguemos como exemplo o TOC. Classificado como transtorno de ansiedade, pode se manifestar por meio de comportamentos como lavar as m\u00e3os com frequ\u00eancia; verificar repetidas vezes se a porta est\u00e1 trancada; arrumar o arm\u00e1rio buscando uma organiza\u00e7\u00e3o excessivamente rigorosa; n\u00e3o usar roupas de determinada cor; n\u00e3o tocar em determinados objetos. Esses comportamentos, apesar de absurdos, s\u00e3o inevit\u00e1veis porque sustentados por pensamentos obsessivos, que invadem a mente de forma repetitiva e persistente, que controlam a pessoa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Assim, lavar as m\u00e3os a todo instante pode ser suportado pela ideia fixa de que o mundo \u00e9 cheio de micr\u00f3bios que precisam ser evitados. Da mesma forma, n\u00e3o usar roupas pretas pode se apoiar na supersti\u00e7\u00e3o de que quem usa preto ficar\u00e1 vi\u00favo. E esses pensamentos causam ansiedade, medo, afli\u00e7\u00e3o, um desconforto que s\u00f3 desaparece com o comportamento compulsivo de lavar as m\u00e3os, no caso do primeiro exemplo, ou com a evita\u00e7\u00e3o da roupa preta, no caso do segundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Nos relacionamentos de \u201camor&#8221;, isso tamb\u00e9m pode ocorrer. As compuls\u00f5es para telefonar, mandar cartas, perseguir o ser &#8220;amado&#8221;, insistir numa rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 ruim ou n\u00e3o mais poss\u00edvel podem ser sustentadas por pensamentos como: &#8220;Sem ele, n\u00e3o vou conseguir viver&#8221;; &#8220;Se ela me deixar, nunca mais vou me interessar por outra mulher&#8221;. V\u00e1rias vezes presenciei pessoas desesperadas com o fim de um relacionamento ou com a possibilidade de isso vir a acontecer, que relataram dor intensa no peito, sufocamento, sensa\u00e7\u00e3o de morte iminente, tristeza sem fim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">O mesmo pode acontecer com quem sofre de depress\u00e3o. O paciente se queixa de um &#8220;vazio interior&#8221;, que ele tenta preencher de qualquer jeito. O relacionamento amoroso \u00e9 comumente usado para isso. E, se ele acaba, fica a sensa\u00e7\u00e3o de um buraco maior do que o que havia antes da rela\u00e7\u00e3o ter in\u00edcio. A dor costuma ser a mais cruel j\u00e1 experimentada at\u00e9 ent\u00e3o. Da\u00ed surge o desespero pela reconcilia\u00e7\u00e3o, independentemente da qualidade da conviv\u00eancia que chegou ao fim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Quem sofre de um transtorno como esses tem uma vis\u00e3o distorcida da vida e de si mesmo. Mas, com os rem\u00e9dios adequados e a psicoterapia, uma vez restabelecido o equil\u00edbrio qu\u00edmico do c\u00e9rebro e o bom senso, os pensamentos obsessivos somem, deixando de existir a sustenta\u00e7\u00e3o para os comportamentos compulsivos ou as evita\u00e7\u00f5es. Resultado semelhante ocorre com a sensa\u00e7\u00e3o de vazio e a tristeza desesperadora da depress\u00e3o, que desaparecem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0000ff\">Ent\u00e3o, se restar um sentimento terno ou ardente que englobe desejar o bem do outro e ao mesmo tempo uma atra\u00e7\u00e3o f\u00edsica, pode-se dizer que h\u00e1 amor. Mas se, com o tratamento, aquele sentimento deixar de existir, ele n\u00e3o era amor. <strong><em>Porque amor nada tem a ver com dor<\/em><\/strong>.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"color: #0000ff\"><em>Publicado no Tribuna do Brasil de 30\/3\/2007, <\/em><em>Caderno TBPrograma, Coluna Psicoproseando&#8230;com Maraci<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 impressionante a quantidade de mensagens que recebo de homens e mulheres desesperados porque perderam ou temem perder &#8220;seu grande amor&#8221;. 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