{"id":1675,"date":"2018-08-28T22:44:28","date_gmt":"2018-08-29T01:44:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/consultoriosentimental\/?p=1675"},"modified":"2018-08-28T22:49:56","modified_gmt":"2018-08-29T01:49:56","slug":"morte-de-uma-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/consultoriosentimental\/morte-de-uma-mae\/","title":{"rendered":"A MORTE DE UMA M\u00c3E"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">H\u00e1 alguns anos, recebi uma paciente que trazia no peito um enorme remorso, o de n\u00e3o conseguir sentir tristeza pela morte da pr\u00f3pria m\u00e3e. E, pra complicar ainda mais, ela n\u00e3o se conformava com a morte da sua cachorrinha, ocorrida na mesma \u00e9poca. S\u00f3 que a m\u00e3e tinha sido p\u00e9ssima, capaz de atitudes terr\u00edveis, incapaz de disfar\u00e7ar o \u00f3dio que tinha da filha. E a cachorrinha tinha sido a grande companheira, pura fonte de amor. Assim, os sentimentos dela pela morte da m\u00e3e e da cachorrinha eram compat\u00edveis com as rela\u00e7\u00f5es vividas com as duas. E, com o processo terap\u00eautico, ela conseguiu se libertar daquele peso de consci\u00eancia e tamb\u00e9m perdoar a m\u00e3e.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Em consult\u00f3rio, temos contato com muitas hist\u00f3rias tristes, mas n\u00e3o h\u00e1 nada pior do que as que envolvem \u00f3dio de uma m\u00e3e contra um filho ou filha. Porque o que se espera de uma m\u00e3e \u00e9 que ela ame, acolha, proteja. E \u00e9 extremamente dif\u00edcil para essa crian\u00e7a se transformar num adulto que consiga enxergar a m\u00e3e como algu\u00e9m despreparado, que cometeu erros e at\u00e9 crimes, mas que, mesmo assim, foi o melhor que conseguiu ser. \u00c9 extremamente dif\u00edcil se desvencilhar dessa rede de incompreens\u00e3o, incredulidade, revolta, tristeza, m\u00e1goa. Mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel e, acima de tudo, \u00e9 absolutamente indispens\u00e1vel.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">E foi dessa paciente que me lembrei quando li o texto abaixo, da <strong>SHEILA CAMPOS<\/strong>. Um texto lindo, comovente, que fala de \u00f3dio e de m\u00e1goa, que pode ajudar muitos outros filhos e, sem d\u00favida nenhuma, quem \u00e9 ou pretende ser m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Obrigada, Sheila, por me permitir publicar aqui a sua confiss\u00e3o. E parab\u00e9ns pela coragem de encarar seus espectros. \u00c9 assim que devemos lidar com o que nos assombra, tirando dos por\u00f5es da mente e trazendo para uma varanda cheia de frescor e luz. Voc\u00ea est\u00e1 no caminho certo. Quando menos esperar, todos esses fantasmas estar\u00e3o descansando em paz, com a sua compreens\u00e3o e, porque n\u00e3o dizer, com a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #0000ff\"><strong>CONFESSIONAIS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"color: #0000ff\">(texto em constru\u00e7\u00e3o)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">&#8220;Minha m\u00e3e faleceu no dia dois deste m\u00eas. N\u00e3o nos relacion\u00e1vamos bem. Minha m\u00e3e foi daquela gera\u00e7\u00e3o de mulheres oprimidas, que reproduziam\/reproduzem o machismo, e que muitas viol\u00eancias deve ter sofrido nesta vida.<\/span><\/p>\n<div class=\"text_exposed_show\">\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Viol\u00eancias sofridas &#8211; viol\u00eancias reproduzidas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Tornei-me feminista mais por causa de minha m\u00e3e que por culpa de meu pai (este, um cap\u00edtulo \u00e0 parte). O \u201cideal rom\u00e2ntico\u201d a enganou redondamente e frustrou, e desde que me conhe\u00e7o por gente ela vivia \u201cfuriosamente insatisfeita\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Infeliz e impotente: dependente financeiramente do marido, nunca ousou confronta-lo, e a raiva de cada nova trai\u00e7\u00e3o era canalizada para um \u00f3dio mal disfar\u00e7ado pela filha identificada com o pai, de esp\u00edrito livre e&#8230; que garantia desde os dez anos que n\u00e3o queria casar. N\u00e3o h\u00e1 como descrever cada difama\u00e7\u00e3o, a desagrega\u00e7\u00e3o diuturnamente \u201ccavada\u201d, o olhar raivoso, a maledic\u00eancia, as surras&#8230;. Sintetizo exemplificando: uma das agress\u00f5es quebrou meus dois bra\u00e7os de uma s\u00f3 vez; outra, queimou meu rosto com \u00e1gua fervendo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Em nenhuma das duas vezes houve um motivo. Na segunda, inclusive, eu estava dormindo (!).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Por que conto isso: porque uma chaga sobre a qual o sistema patriarcal se alicer\u00e7a \u00e9 o \u00f3dio entre mulheres. Sim, isso \u00e9 sabido; mas uma varia\u00e7\u00e3o desse mal \u00e9 o \u00f3dio de m\u00e3es por suas filhas. Ou o colocamos, tamb\u00e9m, em pauta, ou nos cansaremos de ver meninas espancadas at\u00e9 alquebrarem, meninas estupradas com a omiss\u00e3o da m\u00e3e, meninas entregues (!) para serem abusadas, e o que nem sei, mais, enumerar&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">A desagrega\u00e7\u00e3o \u201cconstru\u00edda\u201d por mais de trinta anos \u00e9 irremedi\u00e1vel. A maledic\u00eancia que coloca contra voc\u00ea as irm\u00e3s das quais voc\u00ea cuidou toda a sua inf\u00e2ncia &#8211; das quais trocou fraldas, fez mamadeiras, deu papinhas, foi respons\u00e1vel por entreter, carregar, proteger todo o tempo em que voc\u00ea mesma n\u00e3o estava na escola, para liberar os adultos -, este veneno injusto, unilateral, perverso, incultido subrept\u00edcia e incessantemente, ou aberta e escandalosamente&#8230; -, essa ferida n\u00e3o cura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Ao contr\u00e1rio: infelizmente, o trauma se reaviva a cada mulher contra a qual n\u00e3o fiz absolutamente nenhum mal e que \u00e9 envenenada contra mim.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">N\u00e3o sei se \u00e9 luto, n\u00e3o sei o que \u00e9 esse mal estar. Afogo no que preciso transmutar silenciosa, indescritivelmente. Asfixio, me debato, submerjo em pesadelo;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Meus fantasmas nunca descansaram&#8230;&#8221;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"color: #0000ff\">Sheila Campos \u00e9 existencialista, FEMINISTA, passional, obsessiva, ANTICAPITALISTA, anarquista, pela liberta\u00e7\u00e3o animal.<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns anos, recebi uma paciente que trazia no peito um enorme remorso, o de n\u00e3o conseguir sentir tristeza pela morte da pr\u00f3pria m\u00e3e. E, pra complicar ainda mais, ela n\u00e3o se conformava com a morte da sua cachorrinha, ocorrida na mesma \u00e9poca. 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