{"id":990,"date":"2022-06-20T07:00:52","date_gmt":"2022-06-20T10:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=990"},"modified":"2022-06-20T08:40:09","modified_gmt":"2022-06-20T11:40:09","slug":"o-luto-nosso-de-cada-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2022\/06\/20\/o-luto-nosso-de-cada-dia\/","title":{"rendered":"O Luto Nosso de Cada Dia"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Vivemos tempos de\u00a0 apreens\u00e3o e medo. Em uma semana em que aumentaram os registros de casos de Covid-19 em todo pa\u00eds, esses sentimentos\u00a0 v\u00eam mais forte.<\/p>\n<p>No Distrito Federal os n\u00fameros dispararam. Foram mais de 8 mil casos nos \u00faltimos dias, sem que o governo distrital imponha restri\u00e7\u00f5es \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o de pessoas ou estimule o uso de m\u00e1scaras. Restri\u00e7\u00f5es certamente mal recebidas em per\u00edodo pr\u00e9-eleitoral.<\/p>\n<p>O discurso sobre o &#8220;fim da pandemia&#8221; se consolida, ignorando as novas variantes do Covid-19 e do avan\u00e7o da de doen\u00e7as como a dengue, zika e chikungunya.<\/p>\n<p>Em todo o pa\u00eds, inclusive no Distrito Federal, h\u00e1 intensa programa\u00e7\u00e3o de festas juninas com aglomera\u00e7\u00e3o popular. A maioria, sem uso de m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>A chamada quarta onda do Covid-19 retornou como alertavam os cientistas. Ainda que boa parte da popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 esteja vacinada com a segunda dose (2,5 milh\u00f5es de pessoas), com a terceira dose (1,2 milh\u00f5es) e com a quarta dose (221,5 mil).<\/p>\n<p>A volta \u00e0s aulas presenciais do ensino fundamental \u00e0s universidades vem contribuindo para maior circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus entre crian\u00e7as, adolescentes e jovens. Isso representa um risco adicional de contamina\u00e7\u00e3o para familiares enfermos, pessoas com problemas cr\u00f4nicos e pessoas idosas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um estado de apreens\u00e3o que nos afeta de alguma maneira. Na TV e nas redes sociais digitais, entre elas o WhatsApp, h\u00e1 um bombardeio de n\u00fameros e casos de doen\u00e7as. Sem contar as imagens de hospitais lotados, com filas.<\/p>\n<p>\u00c9 concreta a fragilidade social de 33 milh\u00f5es de pessoas\u00a0 que n\u00e3o conseguem fazer uma refei\u00e7\u00e3o dia.\u00a0 O\u00a0 endividamento de mais de 70% das fam\u00edlias. O\u00a0 aumento dos pre\u00e7os. A infla\u00e7\u00e3o.\u00a0Como se fosse pouco, acompanhamos pelo notici\u00e1rio nacional e internacional as buscas e a descoberta do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista brit\u00e2nico Dom Philips.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o de perda diferente das dem\u00eancias que v\u00e3o levando nossos entes queridos aos poucos, ano ap\u00f3s ano, roubando suas mem\u00f3rias e identidades.\u00a0 Uma morte a conta-gotas. Mas h\u00e1 similaridades com o caso de Bruno e Dom.\u00a0As duas situa\u00e7\u00f5es remetem \u00e0 vida familiar.<\/p>\n<p>A dor de quem convive com a dem\u00eancia \u00e9 quase an\u00f4nima, invis\u00edvel para a maioria. J\u00e1 o drama da fam\u00edlia brit\u00e2nica se tornou p\u00fablico, com grande repercuss\u00e3o desde o desaparecimento, das buscas com cobran\u00e7as em n\u00edvel internacional at\u00e9 a descoberta dos corpos assassinados.<\/p>\n<p>O que essas fam\u00edlias t\u00eam em comum? Elas experimentaram medo e desespero, mas mantendo um resqu\u00edcio de esperan\u00e7a de que a situa\u00e7\u00e3o pudesse ser revertida.<\/p>\n<p>Em ambas as situa\u00e7\u00f5es, vive-se uma perda real, uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e\u00a0 o desejo de &#8220;fazer algo mais&#8221; para (tentar) mudar uma realidade assustadora.<\/p>\n<p>Bruno e Dom foram tirados de suas fam\u00edlias e de seus amigos ind\u00edgenas do Vale do Javari, no Amazonas, de forma abrupta. Houve uma viol\u00eancia f\u00edsica, expl\u00edcita e uma viol\u00eancia simb\u00f3lica que revela a amea\u00e7a que os povos ind\u00edgenas sofrem constantemente na Amaz\u00f4nia. As duas viol\u00eancias exp\u00f5em a falta de prote\u00e7\u00e3o em que se encontra o Norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia simb\u00f3lica tamb\u00e9m ocorre em outro n\u00edvel, no \u00e2mbito privado, nas fam\u00edlias que convivem com pessoas com dem\u00eancias. Acompanhar o longo processo de desaparecimento da mem\u00f3ria e identidade de um familiar com dem\u00eancia adoece f\u00edsica e emocionalmente quem cuida.<\/p>\n<p>No caso de Bruno e Dom, havia a esperan\u00e7a de que pudessem ser encontrados vivos. Mas o encontro dos corpos e sua identifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 confirmou as den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es das terras ind\u00edgenas e o aumento da viol\u00eancia na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Em momentos de medo e apreens\u00e3o, ressurge um desejo (infantil) de que os super-her\u00f3is e super-hero\u00ednas possam salvar os desaparecidos, os de longe e os de perto.<\/p>\n<p>Na vida adulta, descobrimos que somos nossos pr\u00f3prios super-her\u00f3is. Alguns, her\u00f3is\u00a0 e hero\u00ednas an\u00f4nimas, que cuidam diariamente de pessoas idosas. Outros com grandeza suficiente para defender povos indefesos. Nem sempre com final feliz.<\/p>\n<p>Apesar dos tempos dif\u00edceis, o Coletivo Filhas da M\u00e3e lan\u00e7a na ter\u00e7a-feira, dia 21, das 19 \u00e0s 20h, um novo Projeto: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/filhasdamaecoletivo\/photos\/a.111633973698829\/560084385520450\/\"><strong>Terceiras Inten\u00e7\u00f5es<\/strong><\/a>, que vai acontecer a cada terceira ter\u00e7a-feira de cada m\u00eas no formato h\u00edbrido: on line (transmiss\u00e3o no You Tube <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCyjCv1zviU8UzX-0gtEaAXA\">Filhas da M\u00e3e Coletivo<\/a>) e presencial (Espa\u00e7o Longeviver, na 601 Sul, 2o andar, ao lado da igrejinha\/ Plano Piloto), com m\u00e1scara e \u00e1lcool gel. A convidada de junho \u00e9 a advogada Tha\u00eds Gracindo, com o tema &#8220;Quem Tem Medo de Curatela?&#8221;<\/p>\n<p>Em tempo: Para ler mais sobre luto\u00a0 e perda, sugerimos cinco textos do Blog: &#8220;A Triste Tarefa da Despedida&#8221;, &#8220;As Diferentes Formas de se Despedir&#8221;, &#8220;Existe Sim Vida Ap\u00f3s a Morte&#8221;, &#8220;Precisamos Falar Sobre a Morte&#8221; e &#8220;As Primeiras F\u00e9rias&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Vivemos tempos de\u00a0 apreens\u00e3o e medo. Em uma semana em que aumentaram os registros de casos de Covid-19 em todo pa\u00eds, esses sentimentos\u00a0 v\u00eam mais forte. No Distrito Federal os n\u00fameros dispararam. 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