{"id":932,"date":"2022-05-23T07:44:31","date_gmt":"2022-05-23T10:44:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=932"},"modified":"2022-05-24T13:58:30","modified_gmt":"2022-05-24T16:58:30","slug":"voce-ja-assistiu-la-once","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2022\/05\/23\/voce-ja-assistiu-la-once\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea J\u00e1 Assistiu &#8220;La Once&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Desafiei a Cosette a assistir e comentar o document\u00e1rio chileno &#8220;La Once&#8221;, dispon\u00edvel no Netflix.<\/p>\n<p>Ela aproveitou o fim de semana para escrever o texto abaixo.<\/p>\n<p>Cosette Castro &#8211; &#8220;La Once&#8221; \u00e9 um document\u00e1rio sobre amizade, envelhecimento, finitude, vida e morte.\u00a0Mais vida do que morte, embora a finitude esteja presente em todos encontros e momentos do filme.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio pode parecer que &#8221; la once&#8221; (onze) \u00e9 uma refer\u00eancia ao n\u00famero de amigas da escola prim\u00e1ria que se encontram mensalmente h\u00e1 mais de 60 anos.<\/p>\n<p>Ledo engano. Os \u201conze \u201d n\u00e3o dizem respeito \u00e0s horas ou ao n\u00famero de participantes.\u00a0No Chile, se algu\u00e9m convida para \u201cla once\u201d est\u00e1 convidando para um drink. &#8220;La once&#8221; est\u00e1 relacionado as 11 letras da palavra \u201caguardiente\u201d, bebida que os trabalhadores chilenos ingerem desde os tempos de col\u00f4nia na pausa do trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 um c\u00f3digo para n\u00e3o ser descoberto tomando bebida alc\u00f3olica.\u00a0No document\u00e1rio, a bebida aparece na forma de licor, um &#8220;digestivo&#8221;, como dizem os espanh\u00f3is, que marca o final de\u00a0 cada encontro.<\/p>\n<p>Os ch\u00e1s da tarde s\u00e3o um costume tipicamente ingl\u00eas (\u00e0s 5) que as classes m\u00e9dias e alta da Am\u00e9rica de descend\u00eancia espanhola e portuguesa adotaram como seus.\u00a0Esse costume foi perdendo for\u00e7a entre as novas gera\u00e7\u00f5es a partir dos anos dois mil. Mas ainda se mant\u00e9m entre pessoas acima dos 60 anos.<\/p>\n<p>Os encontros foram filmados com delicadeza e riqueza de detalhes, ofertando outra dimens\u00e3o do tempo dessas mulheres.\u00a0Uma gera\u00e7\u00e3o que se dedicou &#8220;ao lar, ao marido e aos filhos&#8221;. Uma gera\u00e7\u00e3o que segue cuidando, seja os maridos envelhecidos ou filhos com necessidades especiais.<\/p>\n<p>As salas de jantar aparecem com a mesa farta de doces e salgados. E tamb\u00e9m com diferentes tipos de ch\u00e1s e infus\u00f5es, caracter\u00edsticos da classe m\u00e9dia alta chilena. Mas nem tudo s\u00e3o bolos e tortas.<\/p>\n<p>No decorrer da narrativa, em meio \u00e0s brincadeiras, aparecem as dores.<\/p>\n<p>A m\u00e3e que gostaria que a filha fosse mais bonita e vivia puxando seu nariz. A jovem que foi proibida de seguir estudando e s\u00f3 pode realizar seu sonho depois de envelhecer. A trai\u00e7\u00e3o corriqueira nos casamentos dos anos 50, 60, 70. O machismo institucionalizado. O preconceito, delas e entre elas.<\/p>\n<p>Aos poucos a audi\u00eancia \u00e9 convidada a conhecer a casa de cada uma das participantes, j\u00e1 que h\u00e1 rod\u00edzio mensal dos encontros. E em algumas, at\u00e9 a cozinha.<\/p>\n<p>No grupo, tudo come\u00e7a pontualmente a &#8220;las cuatro de la tarde&#8221;. Elas v\u00e3o chegando aos poucos. Mas as vemos diretamente em volta da mesa. Com seus olhares e trejeitos, risos, poemas, receitas e can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;La Onze&#8221; trouxe de volta os encontros semanais de minha av\u00f3 com as amigas. Com seus jogos de cartas e tardes de ch\u00e1 regadas a lanches e doces deliciosos.<\/p>\n<p>As amigas, que quase n\u00e3o tratam de pol\u00edtica, falam do passado e da escola cat\u00f3lica. Mostram o desejo de casar, as receitas da \u00e9poca e compartilham cartas de amor. Pinochet parece n\u00e3o ter existido nesse mundo. E, principalmente, recordam a \u00e9poca dos manuais das &#8220;boas mo\u00e7as casadouras&#8221;.<\/p>\n<p>Uma \u00e9poca de desconhecimento dos seus corpos, da sexualidade e dos seus direitos.<\/p>\n<p>Um tempo onde a &#8220;boa mulher&#8221; deveria se sentir plena por cuidar da casa, do marido e dos filhos. Tipicamente &#8220;recatada e do lar&#8221;. Quem rompeu com essa ideia foi a \u00fanica amiga que se negou a casar.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio, de 2015, \u00e9 dirigido por Mait\u00e9 Alberti, neta da Tere, a Maria Teresa. \u00c9 Tere que vai nos apresentando as amigas, de forma delicada e brincalhona. As amigas s\u00e3o mostradas com seus defeitos e fortalezas.<\/p>\n<p>Essas mulheres mantiveram ao longo dos anos o v\u00ednculo saud\u00e1vel da amizade e da rede de apoio. Celebraram e se apoiaram mutuamente.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio, elas passeiam em grupo. Compram pacotes tur\u00edsticos para viver a experi\u00eancia de uma tarde ou dia fora. Isso vai al\u00e9m dos encontros mensais e da seguran\u00e7a da casa.<\/p>\n<p>As amigas h\u00e1 anos v\u00eam envelhecendo juntas. Elas acompanham os tratamentos m\u00e9dicos, as restri\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, a finitude da vida e tem na espiritualidade tamb\u00e9m um espa\u00e7o de apoio.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea decidir assistir o <a href=\"https:\/\/www.netflix.com\/br\/title\/80097217?s=a&amp;trkid=13747225&amp;t=wha&amp;vlang=pt&amp;clip=81576576\">document\u00e1rio<\/a>, n\u00e3o espere grandes movimentos ou alvoro\u00e7o durante pouco mais de uma hora.\u00a0No relato cotidiano h\u00e1 valoriza\u00e7\u00e3o das pequenas coisas e dos encontros mensais.<\/p>\n<p>Mais do que isso, o filme mostra a for\u00e7a da amizade, da rede de apoio, do afeto e a import\u00e2ncia da resili\u00eancia. Particularmente perante os desafios, as perdas e os esquecimentos&#8221;.<\/p>\n<p>Em Tempo: Voc\u00ea j\u00e1 contribuiu para a campanha &#8220;Formalize o Coletivo Filhas da M\u00e3e&#8221;? Contamos com voc\u00ea para continuar desenvolvendo projetos de apoio \u00e0s cuidadoras familiares, em defesa do envelhecimento saud\u00e1vel e de pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado. ID no site\u00a0 Vakinha 2826664 ou pix (email) 2826664@vakinha.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Desafiei a Cosette a assistir e comentar o document\u00e1rio chileno &#8220;La Once&#8221;, dispon\u00edvel no Netflix. Ela aproveitou o fim de semana para escrever o texto abaixo. 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