{"id":760,"date":"2022-01-28T07:00:53","date_gmt":"2022-01-28T10:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=760"},"modified":"2022-01-27T22:31:07","modified_gmt":"2022-01-28T01:31:07","slug":"as-diferentes-formas-de-se-despedir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2022\/01\/28\/as-diferentes-formas-de-se-despedir\/","title":{"rendered":"As Diferentes Formas de Se Despedir"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia- Lidar com perdas e com a morte n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil. O Brasil vem comprovando isso, de forma individual e coletiva,\u00a0 h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o de hoje, Cosette Castro conta com foi &#8220;enterrar&#8221; sua m\u00e3e duas vezes em 2021.<\/p>\n<p>Cosette Castro &#8211; Em meio \u00e0s nuvens no avi\u00e3o, me pego pensando no calor do sol e na imperman\u00eancia da vida. Em menos de um ano &#8220;enterrei&#8221; duas vezes minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que &#8220;enterrar&#8221; neste caso \u00e9 apenas uma forma de se expressar, mas desvela o sentimento de luto duplicado e estendido.\u00a0O primeiro\u00a0 &#8220;enterro&#8221; ocorreu de forma dolorosa. Ocorreu\u00a0 em janeiro de 2021, depois de passar\u00a0 20 dias dentro do hospital com minha m\u00e3e, em pleno surto de Covid-19.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s mortes da pandemia, do medo de entrar e sair do hospital, havia um medo maior que precisava enfrentar: a finitude de Carmencita.\u00a0Apesar do desejo infantil de que algo m\u00e1gico ocorresse para &#8221; salvar&#8221; minha m\u00e3e,\u00a0 a dura realidade me trouxe de volta.<\/p>\n<p>O Alzheimer j\u00e1 estava em sua \u00faltima fase e ela precisava descansar. Depois de nove anos e meio, eu tamb\u00e9m precisava.<\/p>\n<p>Dentro do hospital, encontrei uma sequ\u00eancia de t\u00e9cnicos, enfermeiros e m\u00e9dicos despreparados para atender pacientes com Alzheimer.\u00a0Encontrei um hospital tamb\u00e9m despreparado, sem protocolo de atendimento para atender pessoas com dem\u00eancias. O que causou uma sequencia intermin\u00e1vel de erros.<\/p>\n<p>No Hospital, bati p\u00e9 e garanti que minha m\u00e3e recebesse cuidados paliativos. E isso precisava ser lembrado e garantido a cada plant\u00e3o. O cuidado paliativo incluiu a dif\u00edcil decis\u00e3o de desligar o oxig\u00eanio da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Nessa hora, ser filha \u00fanica n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Fui a \u00fanica pessoa a decidir sobre o desligamento, apesar de conversar e informar cada passo aos familiares via WhatsApp.<\/p>\n<p>Eu estava sozinha em Bras\u00edlia, at\u00e9 ent\u00e3o em isolamento, apenas com um primo distante na Capital. Ele\u00a0 se fez presente na crema\u00e7\u00e3o representando a fam\u00edlia biol\u00f3gica que estava no Sul.<\/p>\n<p>Mas\u00a0 eu n\u00e3o estava realmente s\u00f3.\u00a0Estava com a fam\u00edlia adotiva. Aquelas pessoas\u00a0 que, por afinidade e\/ou projetos de vida em comum,\u00a0 escolhi amar.\u00a0\u00a0 Amigos que enfrentaram\u00a0 temporal e engarrafamento para estar ao meu lado na cerim\u00f4nia de crema\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e. O \u00fanico cremat\u00f3rio fica longe de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Naquela tarde de amigas e vizinhas, o sol voltou a se abrir.\u00a0Depois de um caf\u00e9 e hist\u00f3rias compartilhadas sobre a Carmencita, voltei pra casa com uma urna cheia de cinzas nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Os meses se seguiram em meio a pandemia,\u00a0 ao luto individual e coletivo, \u00e0 dor e a reorganiza\u00e7\u00e3o da vida pessoal. E a\u00a0 urna seguia l\u00e1 em casa, guardada. Esperava o momento da minha filha\u00a0 tomar a segunda dose e de eu poder viajar ao Sul.<\/p>\n<p>Por quest\u00f5es pessoais e\u00a0 agenda de trabalho, a viagem s\u00f3 foi poss\u00edvel em dezembro de 2021. Ou seja, 11 meses depois. Mas desde novembro parentes e amigos perguntavam que dia eu (e a urna) chegaria.<\/p>\n<p>O segundo &#8220;enterro&#8221; foi previamente combinado com a fam\u00edlia biol\u00f3gica. Com direito a lista de presen\u00e7a na cerim\u00f4nia de despedida e tudo mais.\u00a0Finalmente Carmencita estava voltando ao Sul para a\u00a0 despedida afetiva junto aos seus.<\/p>\n<p>Desta vez, suas cinzas seriam entregues ao Gua\u00edba.\u00a0 Rio que ela cruzou pela primeira vez de barco, indo a Porto Alegre, em lua de mel, anos antes que a ponte que liga a Capital \u00e0s cidades do interior fosse constru\u00edda.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e adorava passear de barco no Rio Gua\u00edba. Como boa anfitri\u00e3, levava os\u00a0 amigos que visitavam Porto Alegre a um passeio pra ver o p\u00f4r-do-sol. &#8220;O mais bonito do mundo&#8221;, segundo ela. Al\u00e9m dos amigos, se poss\u00edvel, acompanhada de uma cerveja gelada.<\/p>\n<p>No dia 19 de dezembro de 2021 fomos em grupo render a \u00faltima despedida, com direito a p\u00f4r-do-sol, cerveja gelada e\u00a0 flores atiradas ao Rio em meio \u00e0s cinzas. Muitas cinzas.<\/p>\n<p>Teve m\u00fasica, poema, discurso e reza pra quem era de reza.\u00a0 Teve filha, neta, sobrinhos, afilhados, primas, netos do cora\u00e7\u00e3o, ex-cunhada, agregados e amigas da &#8220;tia Carmem&#8221;.<\/p>\n<p>Mas principalmente teve encontro e presen\u00e7a com a certeza de que a finitude n\u00e3o diminui o amor nem a import\u00e2ncia de estar juntos na despedida. Celebrando com alegria,\u00a0 como Carmencita sabia ser antes da dem\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia- Lidar com perdas e com a morte n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil. O Brasil vem comprovando isso, de forma individual e coletiva,\u00a0 h\u00e1 dois anos. Na edi\u00e7\u00e3o de hoje, Cosette Castro conta com foi &#8220;enterrar&#8221; sua m\u00e3e duas vezes em 2021. 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